É momento de cuidar, se reiventar… e cooperar

Publicado em: 20 maio - 2020

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Unidas, cooperativas, cooperados e suas Organizações Estaduais buscam soluções para lidar com as alterações causadas pela pandemia. A solidariedade e intercooperação são chave, não só para manter a saúde (de pessoas e organizações) em meio à crise, mas também ao planejamento de estratégias para o novo mundo pós-pandemia

A pandemia causada pelo coronavírus alterou relacionamentos, produção empresarial, economias. Mas é justamente nos momentos de crise que a cooperação faz ainda mais diferença; torna-se estratégia; desenvolve soluções. Os presidentes de Organizações Cooperativas Estaduais (OCE) garantem: é pela cooperação que vamos seguir firmes no novo mundo que surgirá, ao fim da pandemia.

As sequelas que a Covid-19 deixará ainda são nebulosas. Em meio à expectativa de controle da propagação e descoberta de medicamentos e vacinas que salvem vidas, as OCE miram o cenário pós-pandemia e traçam suas estratégias, com os pés firmes no chão. Composto grande parte por setores considerados essenciais (como saúde, agropecuário e transporte), o cooperativismo tem se desdobrado para encontrar soluções que o permita seguir produzindo e prestando serviços à comunidade. Segundo as Organizações das Cooperativas dos Estados de Minas Gerais, Paraná e Bahia, o setor sente os impactos da pandemia, mas segue esperançoso quanto ao futuro, certo de que, pela cooperação, suas instituições, o país e o mundo vão superar mais essa crise. 

As organizações estaduais têm buscado manter uma comunicação clara e eficiente entre cooperativas e governos estaduais e federal – neste caso, juntamente com a Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) –, por meio de comitês. Em reuniões via videoconferência, elas discutem as demandas de suas cooperativas, organizam as necessidades apresentadas por cada ramo, fazem a intermediação de ações de apoio e soluções viáveis. Trabalhando de forma intercooperativa, garantem que as informações estejam alinhadas e resultem em proposições adequadas. Segundo os dirigentes, há importantes avanços, não só entre o setor, mas também com governos como, por exemplo, a aprovação das alterações na MP do Agro, flexibilização de regras da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), abertura de linhas de crédito, que podem beneficiar as cooperativas são alguns dos efeitos desse esforço conjunto.

Paraná foca em manter agroindústria ativa e logística de abastecimento

A Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar) soma 216 instituições cooperativas, com mais de 100 mil empregados e 2 milhões de associados. Seus esforços, neste momento, estão voltados principalmente à manutenção das atividades no campo e nas agroindústrias cooperativas, bem como em soluções logísticas que garantam o abastecimento de alimentos à população. A agropecuária tem grande relevância ao Estado, 18% do PIB paranaense vêm desse setor. As cooperativas agro respondem por 60% de toda produção agropecuária estadual, e industrializam 48% desse volume.

“Os três ramos mais impactados [no Estado pela pandemia] são o agro; a saúde; e o transporte. Temos um compromisso em relação ao abastecimento alimentar. Trabalhamos de forma organizada, para cuidar das famílias e das nossas empresas. Mas, não é possível paramos as atividades de produção e abastecimento. Por exemplo, abatemos 2,5 milhões de frangos por dia, para isso, é preciso ter 100 milhões de aves alojadas. Então, com toda prudência e prevenção, precisamos dar sequência” explica José Roberto Ricken, presidente da Ocepar. O ramo cooperativo de transportes também precisou se adaptar. “Tivemos dificuldades nunca imagináveis, como o profissional não ter onde se alimentar. A gente pede que essas pessoas sejam respeitadas, para que possam dar sequência ao trabalho; assim como o pessoal da saúde, em sua missão de salvar vidas”. 

Outra preocupação tem sido manter a liquidez, principalmente do setor agro. Com alta do dólar e incertezas do mercado, muitos produtores têm antecipado a comercialização da produção. “Os mecanismos de apoio à comercialização, para nós, são as decisões mais importantes a serem tomadas em nível de governo, para que o produtor mantenha fluxo financeiro suficiente e não pare o processo produtivo. Assim o abastecimento estará garantido, que é a nossa missão”, diz Ricken. 

O presidente da Ocepar comenta que os contratos de exportação não foram afetados, mas o consumo interno apresenta retração. O comércio, em maior parte, fechado e a indefinição quanto ao fim da pandemia contribuem para o menor consumo das famílias. “É importante não entrar em pânico, agir com racionalidade, planejar mais, buscar risco menor e fazer o absolutamente necessário agora para, no momento de retomada, poder investir de novo. O cooperativismo tem um plano de longo prazo e isso está sendo seguido”, declara. A intercooperação também é outra importante aliada. “Estão ocorrendo negócios entre cooperativas, uma amparando a outra para superarem suas dificuldades”. 

Para Ricken, é igualmente essencial que a população colabore, adotando medidas de prevenção à doença. “Esse é o primeiro passo, e a população ainda não está dando a importância necessária”, alerta. 

Para Oceb, momento atual mostra que é preciso agir em conjunto

Com meio século de atuação, a Organização das Cooperativas do Estado da Bahia (Oceb) reúne 195 cooperativas e 238 mil associados. Baseado em processos produtivos e de prestação de serviços, que em grande parte foram interrompidos pelas medidas contra a propagação da Covid-19, o cooperativismo baiano também tem se adaptado. “Tudo isso abre oportunidades para que as cooperativas se reinventem, tanto na forma da prestação de serviços quanto na organização e relacionamento”, declara Cergio Tecchio, presidente do Sistema Oceb. “Vivemos algo inédito para esta geração, uma oportunidade de rever nossos comportamentos como sociedade e como pessoas”.

Para seguir apoiando suas cooperativas, a instituição tem se rendido às videoconferências, ferramenta que auxilia a troca de informações, já que uma das preocupações da Oceb é orientar, por exemplo, em relação à preservação financeira das cooperativas. Tecchio aponta que, diante da gravidade da situação, é preciso planejamento estratégico consistente sobre onde as cooperativas querem chegar e como fazê-lo, para enfrentarem com eficiência a nova realidade que virá com o fim da pandemia. 

“Organizamos as cooperativas para trabalharem integradas, em grupos de debate, via videoconferência, orientadas por um consultor externo. Elas compartilham suas dificuldades e como estão agindo”, comenta. É o caso do ramo educacional. Outro exemplo vem do Fórum das Cooperativas Agropecuárias da Bahia, grupo que também tem se reunindo para compartilhar conhecimentos, e conta com a participação da Oceb, OCB e profissionais especializados na busca de novas formas de negócios. “Juntos podemos superar essa situação, com organização e novas formas de relacionamentos, negócios e serviços à sociedade”, reitera.

Tecchio alerta que pequenos negócios, incluindo pequenos produtores rurais, podem ter dificuldades para manter suas atividades, já que tiveram seu fluxo de caixa prejudicado. E para minimizar o impacto recessivo e quebra de empreendimentos, ele – assim como os demais presidentes – afirma que o cooperativismo financeiro pode ser a solução para desburocratização à concessão de crédito, a taxas de juros atrativas. Esse ramo tem a oportunidade de ampliar sua atuação e contribuir com a reconstrução dos negócios, geração de empregos e auxílio financeiro às famílias. “As cooperativas de crédito estão inseridas nas comunidades, essa proximidade faz que a oferta de produtos e serviços financeiros esteja sempre alinhada às necessidades locais em termos de qualidade, quantidade, acessibilidade e agilidade, fomentando a geração de emprego e renda por meio da cooperação”.

Ocemg trabalha conteúdos especializados para auxiliar cada ramo cooperativo

“Estamos em um período de incertezas, mas continuaremos a liderar com excelência e transparência, para manter a confiança do setor e da sociedade, amenizando a apreensão relacionada ao futuro, que certamente confirmará, novamente, como as cooperativas se sobressaem aos tempos de crise, especialmente no que tange à manutenção de empregos e desenvolvimento econômico”, reforça Ronaldo Scucato, presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais (Ocemg). A instituição soma 778 cooperativas, que empregam 43 mil pessoas. Mais de 1,7 milhão de mineiros são cooperados. Um setor que responde por 9% do PIB estadual. 

Igualmente atenta à preservação da saúde das pessoas e de suas instituições, a Ocemg também dinamizou a rotina de trabalho para seguir acompanhando atenta as necessidades das cooperativas. “A ação estratégica é orientar sem perder o rumo, pois estamos à frente de negócios que geram empregos e movimentam a economia”, diz Scucato. 

O presidente destaca que o trabalho institucional continua sendo prestado com transparência, empatia e intercooperação, auxiliando as cooperativas mineiras a encontrarem soluções imediatas e também planejar. “Iniciamos um projeto de educação inovador. Por meio de webinars, discutimos os principais temas de interesse das cooperativas. Estamos produzindo conteúdos especializados por ramo, e fazendo todo o possível para sairmos dessa pandemia fortalecidos”, garante. “A manutenção do cooperativismo depende muito de como estamos encarando este momento, e vejo o setor atuante, mantendo-se firme e operante”.

Assim como os demais dirigentes, Scucato analisa que o engajamento cooperativo convida a crer que, amanhã, os problemas serão passado, e uma nova realidade, ainda mais solidária, os aguarda. “Seguimos unidos e atuantes, confirmando que juntos somos mais fortes e vamos superar essa pandemia, cujos reflexos nos mostram que estamos conectados, que ninguém vive sozinho; essa é uma grande lição. Mas a maior delas tem sido a união, o trabalho coletivo para superar este momento”


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 93



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