É possível aliar produtividade com felicidade

Publicado em: 24 março - 2020

Leia todas


Trabalhar fatores que impactam a saúde mental e produtividade auxilia no desafio diário do equilíbrio entre vida pessoal e profissional

Quem nunca teve aquela sensação de que o dia encurtou? Com tantos compromissos, as pessoas tentam descobrir alguma fórmula mágica para dar conta de tudo e tornar o cotidiano mais leve. Em meio ao caos, muitas vezes acabam se rendendo ao uso de medicamentos, na tentativa de organizarem suas mentes, manterem-se produtivos e controlar doenças, cada vez mais frequentes na população, como ansiedade e depressão.

Segundo relatório do Comitê Nacional para Promoção do Uso Racional de Medica- mentos, o Brasil é o terceiro maior consumidor mundial de ansiolíticos benzodiazepínicos. O documento informa que entre 2012 e 2016, o Ministério da Saúde registrou aumento de 30% nos serviços de saúde do SUS voltados ao acompanhamento de pessoas com depressão, e 61% no uso de antidepressivos. O relatório aponta que um dos motivos seria a “cultura da medicalização”, que sugere à população ser necessário o uso de fármacos para se manter a produtividade, sem que ela saiba, no entanto, os riscos inerentes aos tratamentos. Por isso, a importância de focar a prevenção.

Esse é um tema intrinsecamente relacionado tanto ao trabalho quanto às atividades pessoais e à eterna busca pelo equilíbrio entre eles. Os profissionais ouvidos declaram: é mito acre- ditar ser possível dissociar vida pessoal da profissional. Por isso, para manter a saúde e a produtividade, a solução é cuidar de corpo, mente e do tempo dedicado a ambos.

A influência do cooperativismo

Tão importante quando praticar atividades físicas e manter boa alimentação é cuidar da mente. O Serviço Social da Indústria do Rio Grande do Sul (Sesi RS) mantém um centro especializado em estudar e desenvolver métodos e ferra- mentas para auxiliar empresas na gestão de fatores psicossociais. Letícia Lessa, gerente do Centro de Inovação Sesi em Fatores Psicossociais, reforça que os problemas mentais e comportamentais (como depressão, ansiedade, estresse, alcoolismo) são a terceira causa de afastamento do trabalho no Brasil, e tendem a crescer. “Temos de prevenir essas doenças e promover a saúde, fundamental para o bem-estar da população e produtividade do trabalhador. Alterações psicossociais trazem prejuízo não só individual, mas também econômico e social”.

Ela aponta como primeiro passo para a promoção da saúde mental falar sobre o tema. “As campanhas como o Janeiro Branco (mês de prevenção à saúde mental), nos auxiliam a reduzir o preconceito em falar sobre isso”. E lembra também que manter relacionamentos interpessoais dentro e fora do trabalho, principalmente os presenciais, são verdadeiros remédios à saúde mental.

No processo de diagnóstico e prevenção, é fundamental dispor de canais de comunicação efetivos e preparar os líderes. Estes precisam ser capazes de reconhecer e trabalhar os fatores que mexem com a saúde mental, qualidade de vida e produtividade do trabalhador, pois o que determina se um fator resulta em risco ou prevenção é a maneira como é tratado. “A experiência nos revela que para lidar com fator psicossocial é preciso união entre lideranças, área de recursos humanos e de saúde e segurança”, enumera.

Segundo a gestora, em três anos de atuação do Centro em projetos nas em- presas, nota-se aumento do interesse das organizações, de todos os níveis, portes e segmentos, por querer entender e gerir os fatores psicossociais. Um importante salto, pois indica que o tema passou a ser considerado estratégico pelas organizações.

Investir em bem-estar

Cientes de que não é simples administrar a dualidade entre pessoal e profissional, empresas vêm buscando maneiras de auxiliar seus empregados. “Os supervisores estão preparados para perceber quando o funcionário não está bem, passa por alguma dificuldade e precisa de auxilio”, afirma Nelba Becker, assessora de Recursos Humanos da Bebecê. “Nessas situações, o diálogo tem sido a melhor ferramenta para ajudarmos a equilibrar vida pessoal e profissional”.

Há cinco anos, a empresa mantém um programa interno voltado à promoção da saúde física e psicológica e ao bem-estar de seus 850 funcionários. Nelba aponta que os resultados têm sido positivos, com melhora no relaciona- mento interno, menos faltas, maior retenção de trabalhadores e até diminuição no uso de medicamentos. “É um importante investimento. Nosso produto é feito pelas mãos das pessoas, se elas estão bem, com saúde mental e física, o resultado é um pro- duto de qualidade”.

Cuidado com o tempo

Para manter a mente sã também é preciso cuidar bem do tempo. Michele Rodrigues, instrutora da metodologia americana de produtividade GTD (Getting Things Done), lembra que quem geralmente sai prejudicado no embate entre atenção ao pessoal versus profissional, é o tempo dedicado à vida fora do ambiente de trabalho. Para acertar os ponteiros, técnicas de produtividade, organização e gestão do tempo auxiliam a maximizar o rendimento em ambos os aspectos.

Organizar-se significa liberar a mente de preocupações. Anotar as atividades, elencando prioridades e realizar uma tarefa por vez aumenta o foco e melhora a produtividade. A instrutora alerta para o risco de se tornar o profissional multitarefa. “É aquela pessoa que faz (ou tenta fazer) várias coisas ao mesmo tempo, um hábito que não funciona, já que para isso o cérebro precisa alternar o foco constantemente, fazendo-nos mais perder tempo, que ganhar. Não vamos dar conta de tudo”. Por isso, estabelecer limites a si mesmo é fundamental. “Saber falar não no momento certo, e também ouvir, é uma habilidade extremamente importante. Um dos piores hábitos que podemos ter é falar sim para tudo”, defende.

Para ser produtivo, também é preciso descanso. “Muitas pessoas se sentem culpadas por se dar momentos de relaxamento. Precisamos sim trabalhar bastante, mas também ter uma boa noite de sono, fazer as refeições com tranquilidade, ter momentos com a família… Tudo isso é produtividade”.

Comece a investir em você

  • Anote seus compromissos (seja no papel ou aplicativos);
  • Faça listas de prioridades (dentro e fora do trabalho);
  • Realize uma tarefa por vez (ser multitarefa não é produtivo);
  • Converse com superiores se sente que algo não está indo bem no trabalho (quanto mais cedo buscar ajuda, melhor);
  • Saiba falar não (limites são importantíssimos);
  • Cancele as notificações de redes sociais (não se boicote com distrações);
  • Reserve um tempo para relaxar (é investimento em saúde);
  • Cultive relacionamentos (uma boa conversa pode ser um remédio);
  • Alimentação saudável e exercícios físicos;
  • Horas adequadas e sonhos tranquilos (com organização, a mente fica livre e relaxada para uma boa noite de sono).

Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 92



Publicidade