Energia em transformação

Publicado em: 19 maio - 2020

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Com as declarações recentes de “emergência climática” propagadas no mundo, está na hora de enfrentarmos mais um desafio global

A prosperidade humana sempre esteve intimamente ligada à capacidade de capturar, coletar e aproveitar energia. E para conquistar um futuro próspero no quesito sustentabilidade, a sociedade terá que enfrentar um dos grandes desafios deste século: a transição para a utilização de energias renováveis.

As pessoas de todas as partes do mundo tem o papel de moldar um futuro mais sustentável, não apenas para benefício presente, mas também para garantir uma oferta adequada de energia para a geração futura. Mas, a tarefa não é fácil. Além de abranger dimensões tecnológicas e econômicas, englobam também questões sociais, políticas e até mesmo globais.

Na maioria dos países em desenvolvimento, a demanda por energia está aumentando cada vez mais e o resultado disso, muitas vezes, acabam em constantes apagões e em um desequilíbrio natural gigantesco. Porém, o que exatamente é energia renovável?  

De acordo com o CEO da empresa de consultoria em sustentabilidade corporativa Ideia Sustentável, Ricardo Voltolini, “energia renovável é aquela cuja fontes decorrem de recursos não esgotáveis, isto é, que se encontram disponíveis na natureza, que se regeneram ou se mantém ativos de modo permanente”. Ou seja, consiste em fontes enérgicas provenientes de recursos naturais renováveis, o que faz com que elas sejam inesgotáveis. “Além da redução de custo com energia essas fontes contribuem para a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento social da região”, destaca o Gerente de negócios de energia da Energik, Vinícius Guilherme Fritsch.

Ricardo Voltolini, CEO da empresa de consultoria em sustentabilidade corporativa Ideia Sustentável

Entretanto, é de suma importância lembrar que nem todo recurso natural é renovável e limpo, como, por exemplo, carvão, urânio e petróleo, que são recursos limitados e poluentes.

Enxergando o crescimento da instabilidade ambiental, a ONU criou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, também chamado de ODS, sendo um projeto socioambiental para conquistar um futuro sustentável. Nele, o objetivo de número 7 consiste no tratamento de energia acessível e limpa. Segundo a entidade, existem cerca de 1 bilhão e meio de pessoas vivendo sem eletricidade e 3 bilhões e meio que dependem de combustíveis primitivos, como madeira ou carvão, para cozinhar e se aquecer. “Imaginem as comunidades sem acesso a eletricidade, como farão para armazenar alimentos? Como farão para conservar medicamentos? Ainda mais nesse período de pandemia (do Covid-19)”, questiona o engenheiro eletricista e Gerente da Unidade de Sustentabilidade para os Pequenos Negócios do Sebrae em Mato Grosso, José Valdir Santigo Junior.

“A energia sem sombra de dúvida é insumo vital para o desenvolvimento sustentável das nações. Com energia suficiente, limpa e renovável poderemos resolver diversos dos nossos problemas diários, como por exemplo, acesso a água, a educação, a saúde, emprego e renda” José Valdir Santigo Junior

Embora 193 países no mundo, incluindo o Brasil, tenham assinado o acordo das ODS’s e muitos tenham uma política de energia limpa, o mundo ainda depende em grande parte do petróleo, do gás e do carvão. Esses combustíveis fósseis, segundo cientistas ambientais da ONU, terão impactos sérios, generalizados e irreversíveis sobre as pessoas e o ecossistema, se nada for feito para mudar essa realidade.


AS ENERGIAS

A formas de se fazer energia através de recursos naturais são diversas e hoje, podem ser até subdivididas nas categorias “convencionais” e “novas”. As convencionais consistem em tecnologias dominadas e comercialmente disseminadas há muitas décadas, como, por exemplo, as usinas hidrelétricas. Já as “novas”, consistem em energias que estão surgindo para competir comercialmente com as tradicionais, como, por exemplo, os painéis fotovoltaicos, as usinas de geração de eletricidade através das ondas e marés, etc. Portanto, é válido destacar e explicar os principais tipos de energias limpas e renováveis que se utilizam no Brasil. Sendo elas:

Solar fotovoltaica: é aquela obtida por meio de uma conversão direta da luz, da radiação solar, em eletricidade. Esse tipo de energia consiste em uma fonte bastante potente, além de abundante em países como o Brasil.

Eólica: consiste na conversão de energia cinética dos ventos em energia elétrica.

Biomassa: gerada através da queima de materiais orgânicos, promovendo calor e fazendo com que grandes pressões alimentem turbinas e se transformem em energia mecânica, térmica ou elétrica.

Hídrica: converte a energia hidráulica da água represada em grandes barragens em energia mecânica.

Geotérmica: obtida através do calor proveniente do interior da Terra.


As vantagens e benefícios que a implementação dessas energias fornecem para o Brasil e para o mundo, e também para a sociedade e as empresas, são incontáveis. Dentre elas, é importante frisar a redução de emissão do CO2 na atmosfera, o estímulo ao desenvolvimento científico e tecnológico, maior participação das fontes renováveis na matriz enérgica, mais autonomia energética para o Brasil, redução dos custos operacionais das empresas e, por fim, a geração de emprego e renda, entre outros.

Porém, Voltolini enfatiza que é igualmente importante melhorar a eficiência energética com o desenvolvimento de novas tecnologias para carros, aparelhos eletrônicos, e processos industriais e de produção agrícola. Nesse processo é de fundamental importância que os governos, com incentivos fiscais, e as empresas, com a otimização de processos, tomem responsabilidade nesse desafio, pois sem cooperação será impossível garantir a eficiência energética investindo somente em energias renováveis.

O Brasil e o mundo

A matriz energética brasileira é três vezes mais renovável do que a do mundo, sendo 43,5% contra 14,1% e, somando, já possui 70% de fontes renováveis. “O que precisamos é avançar o investimento com outras fontes de energia como a eólica, solar e biomassa”, acrescenta Santiago.

Quando falamos a respeito dos ciclos naturais do planeta e garantia de energia para as próximas gerações, as renováveis assumem um papel protagonista. Segundo previsões da BP, empresa de petróleo britânica, cerca de 48% da energia do Brasil, em 2040, virá de fontes limpas e renováveis. Hoje está em 42%.

É importante ressaltar que a demanda por energia tende a dobrar nos próximos anos, “então não é suficiente aumentar a geração de energia solar ou eólica, por exemplo, se quando se convertem em energia elétrica, os equipamentos e sistemas que as recebem seguem ineficientes, tecnologicamente ultrapassados e com manutenção precária. Reduzir e otimizar o consumo de energia, seja ela renovável ou não, são medidas importantes para diminuir custos, melhorar a eficiência e a segurança energéticas”, acrescenta Voltolini.

Hoje, o Brasil tem um modelo legal favorável para que as pessoas e empresas tenham a oportunidade de produzir a sua própria energia. Santiago aponta a REN – RESOLUÇÃO NORMATIVA Nº 482, de 17 de abril de 2012, que estabeleceu as condições gerais para o acesso de microgeração e minigeração levadas aos sistemas de distribuição e compensação de energia elétrica.

Acompanhando os números atualizados hoje, segundo a ANEEL, existem 205.800 conexões de geração distribuídas no Brasil, contra 7 conexões no início em 2012. “É um crescimento exponencial que está proporcionando, principalmente às empresas, alternativas para reduzirem custos e se tornarem mais competitivas de forma sustentável, uma vez que estas conexões são 99% advindas de fonte solar fotovoltaica”, conclui Santiago. Portanto, além de contribuir para um futuro sustentável, as organizações ainda se beneficiam na implementação dessas energias com a diminuição de custo e vantagens de mercado.

O cooperativismo e o futuro

Vimos até aqui que sem energia, as pessoas não vivem e o mundo não caminha. Hoje, energia é fundamental para a sobrevivência e propagação da sociedade e, para que consigamos ir mais longe, precisamos unir o útil ao agradável e também cuidar do nosso planeta. “Conheço experiências de cooperativas de crédito que têm sido protagonistas no financiamento, com juros mais baixos, de energias renováveis tanto na atividade de agricultura quanto em pequenas e médias indústrias. Todo mundo se beneficia desse movimento: as cooperativas, os cooperativados, as comunidades e o planeta”, afirma Voltolini.

O cooperativismo tem exercido um papel fundamental na utilização e implementação dessas novas energias. “Algumas cooperativas desenvolvem ações de redução de emissões de CO2, como instalação de painéis fotovoltaicos, gestão e minimização de resíduos sólidos”, comenta o Diretor de Negócios da Central Sicredi Centro Norte, Ezio Almeida.

A utilização de energias renováveis no cooperativismo, deixou de ser uma tendência para virar uma prática crucial que beneficia o movimento e demonstra seu cuidado e importância com o meio ambiente e preocupação com a população. “As cooperativas tem investido muito na geração e uso de energia renovável”, diz Fritsch.

Os sinais de desequilíbrio ambiental já foram dados pela natureza e a ONU alertou que nenhuma das metas de desenvolvimento que visam reduzir pela metade a pobreza poderá ser atingida sem grandes melhorias nos serviços de energia dos países em desenvolvimento. A sociedade precisa de energia e para isso, “é necessário trabalhar de uma forma cooperada para otimizar recursos humanos, físicos, financeiros e tecnológicos, valorizando as iniciativas locais, as pequenas empresas e respeitando o meio ambiente”, finaliza Santiago.

CASE

Um exemplo dessa questão exercido na prática é o “Programa Energia Verde”. Sendo uma iniciativa da Central Sicredi Centro Norte e o Sebrae MT, tem como missão a disponibilização de serviços de assistência técnica e de linhas de crédito para as pequenas empresas e produtores rurais em relação a implementação de energia fotovoltaica. “O foco do Programa é estimular a geração própria de energia nos empreendimentos sejam eles propriedades rurais, empresas comerciais, prestadoras de serviços ou da indústria, e com isso torná-los mais competitivos, de forma sustentável. Isso porque, com a geração fotovoltaica, os empreendimentos conseguem uma redução nas despesas com energia de até 95%, sendo que em muitos casos o valor economizado na conta é suficiente para pagar a parcela mensal do financiamento, o que faz com que o retorno do investimento seja rápido”, argumenta Almeida.

Desde o lançamento do Programa, em setembro de 2019, já foram atendidas cerca de 700 empresas por meio de palestras, orientação técnica e consultorias, além de prospectados 17 milhões de reais em volume de investimentos. “E vale ressaltar que o Sebrae em Mato Grosso disponibiliza para as pequenas empresas um subsídio de até 70% no valor dos serviços ofertados pela instituição no âmbito do Programa Energia Verde”, comenta Santiago.

Os recursos contratados dentro do Programa Energia Verde têm por finalidade o financiamento de projetos, a compra de equipamentos e tecnologia para captação de energia solar, destinados à geração de energia elétrica nos pequenos negócios. “O objetivo é tornar os negócios mais competitivos e sustentáveis, com redução no custo da fatura de energia, que passa a ser produzida de forma limpa, não poluente. Ao apoiar nossos associados nesses projetos contribuímos para o desenvolvimento sustentável, economicamente viável, ecologicamente correto e socialmente justo”, conclui Almeida.


Por Jady Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 93



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