A era dos criativos

Publicado em: 03 maio - 2019

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Inteligência Artificial, Internet das Coisas, robótica, conectividade e Big Data facilitarão sobremaneira a vida das pessoas mas centenas de profissões deixarão de existir abrindo espaço para os inteligentes emocionais

Se há 50 anos um bom e criativo escritor podia imaginar o futuro com boa dose de acerto, atualmente nem mesmo um poderoso computador se arriscaria a fazê-lo. Estamos vivenciando uma fase única de avanços tecnológicos tão acelerados que é impossível imaginar de que forma será nossa sociedade antes do final deste Século.

O que sabemos, e estudiosos e escritores como o cultuado historiador Yuval Noah Harari insistem em nos alertar, é que, em um futuro bem próximo, é difícil imaginar aonde a inteligência artificial não exercerá forte influência em nossas vidas. Teremos veículos autônomos – de automóveis de passeio a trens, aviões e navios – lares inteligentes e tudo quanto é coisa conectada pela internet. O termo IoT – Internet das Coisas – possivelmente já lhe é familiar.

Yuval Noah Harari, historiador

É quando tudo, ou quase, estará conectado à internet. Sua geladeira saberá quando você vai precisar de alimentos frescos e, mais ainda, quais são os mais recomendados para o seu biotipo. Provavelmente você permitirá que sua geladeira faça os pedidos e o supermercado do futuro lhe enviará tudo por drone. Seu robô receberá o pedido e o acondicionará direitinho na geladeira que lhe mostrará qual a data-limite ideal para consumi-los aproveitando ao máximo seus benefícios.

Bem, qualquer pessoa relativamente antenada com as novas tecnologias pode imaginar esse quadro acima sem muito esforço. Mas igualmente vai supor que, muito provavelmente, sua profissão, quando essa geladeira fizer tudo isso, já não existirá mais. Uma frase lapidar de Harari sintetiza inteligentemente essa angustia profissional deste início do Século 21: “O problema crucial não é criar novos empregos. É criar novos empregos nos quais o desempenho dos humanos seja melhor que o dos algoritmos.”

A princípio, parece impossível, especialmente quando, mesmo com muito esforço, tentamos pensar em alguma profissão que não pode ser substituída por uma máquina comandada por um supercomputador. Ou algo que a robótica não teria como executar tão bem, e muitas vezes melhor, que humanos. Pense bem. Sua profissão, por exemplo, vai existir daqui 50 anos? Já se fez essa pergunta? Faça e tente responder.

Clínico geral, contador, advogado, juiz, maquiador, ferramenteiro, montador, dentista, mecânico, eletricista, motorista. As profissões somam milhares. Essas citadas no início desta frase, aleatoriamente, para seu governo, serão muito melhor executadas por máquinas. E não pense que por estar no Brasil, historicamente mais atrasado que os países do Primeiro Mundo, você terá que se preocupar com isso bem mais tarde que estadunidenses, asiáticos e europeus. Fique certo, a velocidade tecnológica também reduzirá drasticamente, em breve, a diferença científica entre os países.

Hoje em dia novidades recém lançadas nos Estados Unidos já estão, também, disponíveis no Brasil. Nosso impeditivo ainda é o fator preço devido a nosso atraso econômico. Mas a boa notícia é que esses problemas são bem mais simples de se resolver que o desafio de começarmos a entender qual será o papel do ser humano no futuro.

Sabemos que vamos precisar trabalhar uma vez que nenhuma tecnologia será sequer desenvolvida para tornar todos os humanos socialmente iguais ou potencialmente inúteis. Está inserido em nosso código genético esse desejo por competição e distinção social. Podemos conviver bem com muitos avanços tecnológicos, mas a vida se tornaria demasiadamente tediosa e sem significado se perdêssemos nosso instinto combativo onde um precisa ser melhor que outro. Aliás, foi esse o princípio humano que deflagrou toda essa fantástica aceleração tecnológica que tende a ficar cada vez mais veloz.

Criatividade fará a diferença 

Diz o consultor e economista Carlos Alberto Santos: “O futuro não vai pertencer à tecnologia e sim às pessoas. Quanto mais tecnologia, mais as pessoas se tornarão imprescindíveis. O objetivo não é a tecnologia e sim a redução dos esforços humanos para a produção, bem-estar e geração de renda. O desenvolvimento se dá para as pessoas e com as pessoas. O foco nunca será as máquinas e sim os seres humanos. No final, quanto mais a tecnologia se tornar commodities, mais as pessoas farão a grande diferença”.

Steven Kotler, empresário, escritor e jornalista estadunidense, autor do best-seller “Super-humanos, como os atletas radicais redefinem os limites do possível”, sugere que “o futuro da prosperidade depende não apenas da inovação tecnológica, mas também da criatividade exponencial”. Segundo Kotler, com base em seus estudos e em pesquisa com centenas de estudantes, “o lado criativo será a habilidade mais importante para se prosperar no Século 21”.

Na mesma linha de raciocínio, Stephen Ibaraki, fundador e presidente da ITU – AI For Good Global Summit, aconselhou os jovens a concentrarem esforços no desenvolvimento de habilidades para a resolução de problemas: “As áreas em que a automação terá dificuldades para penetrar envolvem criatividade, inovação e imaginação”.

Stephen Ibaraki, fundador e presidente da ITU – AI For Good Global Summit

De fato, a criatividade proporcionou o desenvolvimento da Inteligência Artificial, Internet, robótica e todas as demais inovações tecnológicas deste e dos últimos séculos. E se o melhor atributo individual é a inspiração criativa, em grupo o que sempre colaborou para a prosperidade da humanidade, e vai continuar com grande valor no futuro, é a cooperação, princípio que permeia o sistema cooperativista.

Kotler ressalta que, desde o surgimento da humanidade, a evolução apresentou duas soluções para combater a escassez. A primeira opção – a que temos feito desde os tempos pré-históricos – é competir por recursos cada vez menores. “Mas há uma segunda opção. Uma que realmente aparece repetidamente em toda a natureza: cooperação e criação de novos recursos”, diz ele.

Por isso os humanos, além de mais criativos, vão precisar desenvolver ainda mais o espírito cooperativo. Inteligência artificial e internet vão ajudar a humanidade nesta nova empreitada. A primeira será capaz de criar jogos que estimulem cada vez mais a mente e a segunda, como já faz atualmente, conecta eficientemente as pessoas desconsiderando qualquer distância física.

Inteligência emocional

Portanto, quando se fala de automação, por exemplo, não se assuste, algumas profissões perderão o sentido, mas outras novas surgirão. Marco Aurélio Borges de Almada Abreu, presidente do Bancoob, é entusiasta defensor da valorização dos seres humanos a despeito dos avanços tecnológicos. “Ainda que um processo que passe a ser automatizado tenha uma redução drástica ou deixe de ser operado por um humano, percebe-se que esse impacto – pontual e de curto prazo – cria oportunidades em outras frentes. Novas tecnologias moldam cultura”, comenta o executivo.

De acordo com Almada Abreu, muitas profissões ainda serão criadas a partir da adoção das novas tecnologias disponíveis. “Quem imaginaria ser piloto de drone há dez anos? E quem mensuraria a quantidade de informações extraídas das diversas formas modernas de captura, tratamento e análise de dados? E que novos tipos de serviços poderemos oferecer tendo sensores em todas as coisas, até mesmo no corpo humano?  Vejo o papel do ser humano ainda muito presente no futuro, mas com habilidades distintas das atuais”.

Marco Aurélio de Almada, diretor-Presidente Banco Cooperativo do Brasil – Bancoob

O dirigente do Bancoob concorda que nos dias atuais é muito difícil imaginar quais serão as profissões do futuro. “As pessoas vão caminhar cada vez mais para a prestação de serviços, muitas vezes em um ambiente de economia colaborativa, relacional, fazendo coisas diferentes, em ciclos diferentes da vida. A sociedade há de se adaptar a essa situação de emprego. Aliás, como sempre fez”.

Em um ambiente com mudanças constantes, o aprimoramento permanente das habilidades técnicas é essencial a qualquer profissional. Segundo Almada Abreu, cresce a necessidade de pessoas que detenham as chamadas soft skills (boa comunicação, colaboração, resiliência, ética, pensamento crítico), habilidades consideradas mais subjetivas e relacionadas à inteligência emocional.

Mas se você é o tipo de pessoa que pensa apenas no curto e médio prazo, não se preocupe, especialistas apontam que as mudanças mais drásticas deflagradas com a conciliação de todas essas tecnologias chegarão, naturalmente, primeiro nos países desenvolvidos.

Luis Viola, diretor de tecnologia da Associação Brasileira de Internet das Coisas (ABINC)

Por aqui, de acordo com Luis Viola, diretor de tecnologia da Associação Brasileira de Internet das Coisas (ABINC), – sim já existe uma associação e foi criada em 2015 – apesar da reconhecida relevância das inovações para o sucesso dos negócios, um estudo elaborado pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) aponta que em países de Primeiro Mundo como EUA, Coreia do Sul e Alemanha, apenas 15% das empresas adotam a manufatura avançada, conhecida como Indústria 4.0. Já aqui no Brasil esse índice é de apenas 2%.

Segundo a ABINC, para que as empresas do País cheguem ao patamar competitivo dos negócios de outros mercados, é necessário pelo menos uma década de esforço contínuo, “mas que devem começar a ser feitos agora”, comenta Viola. Contudo, com essas mudanças que certamente virão na Previdência, por via das dúvidas, é melhor você começar a estimular seu lado criativo.


Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 87



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