Guerra sem quartel

Publicado em: 20 maio - 2020

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É sabido que as cooperativas sempre aparecem com mais vigor durante crises amplas, que afetam a sociedade em geral. Aliás, a base dessa afirmação está em Rochdale: embora a doutrina cooperativista já fosse antiga, as cooperativas só ganharam vida e expressão com a Revolução Industrial que gerou grande exclusão social na Europa durante o século XIX.

Foi assim também quando caiu o Muro de Berlim e a globalização da economia levou à concentração empresarial com milhares de trabalhadores perdendo empregos; foi assim nas crises econômicas dos anos 80 do século passado e em 2010, no atual, quando grandes bancos comerciais quebraram enquanto os bancos cooperativos cresceram, e assim por diante, a história se repete. As cooperativas se agigantam nas crises e, a partir delas, se transformam em elementos chaves para o desenvolvimento equilibrado das nações.

Pois bem. Estamos no limiar de uma crise global cuja extensão e prejuízos ainda não estão claramente avaliados, simplesmente porque não se sabe quanto tempo vai durar: trata-se da pandemia causada pelo novo coronavírus. Em alguns países os reflexos já são alarmantes. Governos têm tomado necessárias decisões duras que criam problemas dramáticos em algumas esferas sociais. Estão sendo proibidas aglomerações humanas de toda espécie, como congressos, seminários, espetáculos, manifestações, competições esportivas, e isso leva ao fechamento de cinemas, teatros, academias, restaurantes, bares, estádios. Aulas estão sendo suspensas em cursos os mais diversos, professores são mandados para casa, lojas fecham as portas, serviços e viagens são cancelados, aeroportos e estações ficam vazias, as ruas desertas, pessoas com mais de 60 anos são instadas a não comparecer ao trabalho, grandes empresas só querem que seus funcionários façam homework, e assim por diante.

Infraestruturas colapsam, o comércio diminui e milhões de pessoas ficam sem ter o que fazer. E sem receber salários. Quem tem posses corre para fazer estoques de mercadorias como alimentos, remédios ou material de limpeza, cortando precipitadamente estoques em supermercados e farmácias.

Bancos Centrais se apressam a criar crédito a pessoas físicas e jurídicas assim prejudicadas, a juros subsidiados ou zerados. Já se fala em assaltos organizados por quadrilhas que se aproveitam da situação.

Sem dúvida uma grande crise, e as cooperativas precisam comparecer com sua poderosa atuação mitigadora dela. 

As agropecuárias terão que ajudar seus associados a segurar as safras, visto que teremos uma colheita recorde de grãos e outros produtos, causada pela ótima prestação de serviços que as mesmas cooperativas fizeram ao fornecer os insumos mais indicados e ao melhor preço de mercado: a produtividade aumentou, mas o preço pode cair com a crise.

As cooperativas de crédito deverão criar linhas especiais e com prazos dilatados para atender aos menos favorecidos, seja na área urbana, seja na rural.

E as médicas, ah, essas terão uma missão fundamental: garantir a vida para aqueles e aquelas que forem alcançados pelo vírus. Nada mais importante nesse momento de dramas familiares insuportáveis.

Eia, cooperativismo brasileiro: à guerra contra o coronavírus. Sem medo e sem quartel, em busca da vitória.


Por Roberto Rodrigues, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV



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