Há espaço para crescimento no Brasil, inclusive da cobrança

Publicado em: 16 janeiro - 2019

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A ordem é não baixar a guarda para começar 2019, mas não há dúvidas sobre os sinais favoráveis à expansão do cooperativismo

Estudo feito pela CNDL, a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, em parceria com o SPC Brasil, o Serviço de Proteção ao Crédito, mostra que quatro em cada dez micro e pequenos empresários brasileiros, dos segmentos de comércio e serviços, estão dispostos a investir entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. Metade desse grupo está pensando em aumentar as vendas, inclusive aproveitando o mercado aquecido com as festas de final de ano. Há 26% que pretendem se preparar melhor para atender ao crescimento da demanda. A aplicação de recursos ainda abrange reforma da própria empresa, compra de equipamentos e maquinário, mídia e propaganda e expansão do portfólio de produtos e serviços. E o que o futuro do cooperativismo brasileiro tem a ver com tais estatísticas? Na verdade, tudo.

O interesse desses micro e pequenos empresários em investir pode ser visto como um bom sinal, uma reação positiva por conta de um horizonte supostamente mais favorável que se mostra ao País. Mas a grande oportunidade para o cooperativismo, sobretudo no ramo de crédito, vem mesmo de outro grupo, aquele que ainda está receoso de botar a mão no bolso ou emprestar capital para investir. “Os empresários esperam maior previsibilidade em relação aos rumos do Brasil e um quadro de menor risco para que possam tirar do papel seus projetos”, avalia José César da Costa, presidente da CNDL. Outra informação interessante desse levantamento: a maior parte de quem planeja investir recorrerá a capital próprio, e a principal razão é o juro elevado.

“As altas taxas de juros acabam inibindo a tomada de crédito por boa parte do empresariado.” – Roque Pellizzaro Júnior, do SPC Brasil (Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil)

Apenas 17% dos micro e pequenos empresários consultados têm intenção de tomar crédito. Roque Pellizzaro Júnior, presidente do SPC Brasil, explica porque esse índice não é maior. “As altas taxas de juros, que ainda seguem elevadas apesar das quedas recentes, acabam inibindo a tomada de crédito por boa parte do empresariado. Além disso, há o fator confiança. Embora exista um maior clima de otimismo em relação ao cenário atual, o quadro de dificuldades econômicas persiste para muitas empresas”, comenta. Sem contar que uma porcentagem significativa (36%) acha o processo de contratação de crédito muito difícil e excessivamente burocrático.

Copo meio cheio

De maneira geral, o cooperativismo já tem interpretado essa lista de limitantes como possibilidades de crescimento. Segundo dados da OCB, a Organização das Cooperativas do Brasil, o ramo crédito abrange 564 munícipios no país, e em quase metade dessas cidades a cooperativa de crédito é a única instituição financeira, pois as demais não se interessam por estar ali. Ao todo, de acordo com o Banco Central do Brasil, são 968 unidades espalhadas pelo território nacional. E cada vez mais a comparação com as condições oferecidas pelo sistema financeiro, no mínimo, desperta a curiosidade das pessoas, o que tende a se transformar em interesse, com grandes chances de chegar a participação de fato.

“O cooperativismo financeiro tem, em sua essência, grandes diferenciais que se apresentam como excelentes oportunidades de expansão de seu negócio. A participação nos resultados, os juros menores e o interesse pela comunidade são alguns pontos que diferenciam as cooperativas financeiras dos bancos comerciais”, explica Francisco Reposse, diretor de Desenvolvimento e Supervisão do Sicoob.

“Depois de já estarmos fortalecidos no interior, estamos chegando às principais capitais do país com tecnologia de ponta.” – Francisco Reposse, do Sicoob (Divulgação)

O executivo reforça que esse ramo do cooperativismo atua exatamente em lacunas deixadas pelo sistema convencional e o principal deles, que alavancou o segmento, veio da consolidação do sistema financeiro nacional. “Se retroagirmos ao ano de 1985, veremos que o sistema financeiro nacional era dividido em três grandes grupos de bancos – os públicos federais, que tinham cerca de 40% de mercado; os públicos estaduais, com 30%; e os privados, com os outros 30%. Com o processo de consolidação, o grupo que mais perdeu espaço foi o dos bancos públicos estaduais”, explica Reposse, acrescentando que essa situação gerou um gap de localização.

Segundo o executivo, esses bancos mantinham agências nas pequenas cidades por conta dos projetos de desenvolvimento regionais. A partir do momento em que passam a ser incorporados e fecham essas unidades, o cooperativismo de crédito entra para suprir a demanda local. “O fato de trabalharmos em gaps justifica a diferença da nossa estratégia comparada aos bancos convencionais. O déficit ainda existe e, por isso, estamos abrindo agências por todo o Brasil, que possam suprir essa necessidade”, diz Reposse. “Dessa forma, depois de já estarmos fortalecidos no interior, estamos chegando às principais capitais do país com tecnologia de ponta.”

A intensa procura pelos feirões “limpa nome”, eventos realizados em algumas capitais para que as pessoas pudessem renegociar suas dívidas é outro indicador de possibilidades para expansão. “Um dos pilares do cooperativismo de crédito é a educação financeira. Acreditamos que o crédito consciente seja a melhor forma para a recuperação da economia e a melhora nos índices de inadimplência no País”, observa Reposse. Não por acaso, têm crescido os investimentos das cooperativas do setor em inovações tecnológicas e capacitação de equipes para oferecer atendimento melhor e mais ágil, de forma personalizada, ou seja, de acordo com as necessidades de cada cliente.

Além dos ganhos operacionais, o Sicoob, que já superou a marca de R$ 100 bilhões em ativos, ainda conquistou prêmios por conta dos investimentos em tecnologia. Mais que isso, a instituição ainda recebeu autorização do Banco Central do Brasil para atuar com câmbio. Para manter, e até melhorar, essa condição, é essencial avançar em outro campo. “A comunicação é um dos aspectos fundamentais para o sucesso dos negócios. O nosso maior problema hoje é o desconhecimento do cooperativismo financeiro. Por isso, é preciso empenhar mais esforços para conseguir comunicar adequadamente os diferenciais que oferecemos para todos os públicos”, comenta Reposse. “O cooperativismo precisa mostrar de uma forma prática quais são as vantagens e os benefícios que as pessoas têm por meio de uma cooperativa.”

Campo fértil para crescer

A comunicação também é uma preocupação no ramo agropecuário, segmento em que a representatividade do cooperativismo é altamente expressiva. Quase metade de tudo o que se produz no agronegócio brasileiro passa, de uma forma ou de outra, por uma cooperativa. A futura ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a deputada federal Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, tem feito questão de destacar essa preocupação toda vez que tem oportunidade. “Precisamos nos comunicar melhor, aqui e fora do País. Conhecemos bem o próprio negócio, então não devemos deixar que nos apontem o dedo”, disse ela durante sua participação no evento Agro Cenário 2019, realizado pela Aprosoja Brasil (Associação Brasileira dos Produtores de Soja) e pela Corteva, divisão agrícola da DowDuPont, em Brasília (DF), no dia 12 de dezembro.

Sobre “apontar o dedo”, Tereza Cristina se refere aos questionamentos que a cadeia produtiva agropecuária recebe, aqui no Brasil e em diversas partes do mundo, a respeito do impacto no meio ambiente. Em grande parte dos casos, trata-se de mera falta de informação, ou até mesmo de estratégia comercial de nações que temem a concorrência com a produção brasileira. Para se ter ideia, de acordo com o terceiro levantamento da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) sobre a safra de grãos, na temporada 2018/19 o país deve colher 238,4 milhões de toneladas, ou seja, 10 milhões de toneladas a mais do que na safra anterior.

Somente a soja deve passar de 120 milhões de toneladas. O diretor-executivo da Aprosoja Brasil, Fabrício Rosa, afirma que a entidade também tem investido mais em comunicação e vem trabalhando para mostrar a importância do grão produzido no Brasil tanto na vida dos brasileiros quanto de estrangeiros. “A soja está presente na produção de alimentos como carnes, ovos e leite e vem substituindo derivados de petróleo na fabricação de maquiagens e até na produção de colchões”, conta.

Quando se fala no equilíbrio entre a produção agropecuária e a preservação do meio ambiente, as perspectivas para o próximo ano são, no mínimo, interessantes. Agora em 2018 o setor rural ganhou um reforço importante para discutir essa questão. Estudo realizado pela Embrapa Territorial e apresentado pelo Mapa mostra que a agropecuária utiliza apenas 30,2% das terras brasileiras, enquanto que 66,3% de todo território nacional representa áreas destinadas a vegetação protegida e preservada. E dessa área preservada, 25% se encontra dentro das fazendas, uma porção de terra que vale R$ 3,1 trilhões (quase metade do PIB brasileiro de 2017, calculado pelo IBGE em R$ 6,6 trilhões). “Embora a preservação favoreça toda a população, apenas o setor produtivo paga essa conta”, diz o executivo da Aprosoja Brasil.

“Precisamos nos comunicar melhor, aqui e fora do País.” – Tereza Cristina, futura ministra da Agricultura (Crédito Michel Jesus/Câmara dos Deputados)

Tudo indica que haverá um alinhamento positivo entre o Mapa e o Ministério do Meio Ambiente. O advogado Ricardo Salles, último nome a ser escolhido pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, para compor seu primeiro escalão, já deixou claro que pretende coordenar a pasta do Meio Ambiente de forma que preservação e produção evoluam sem que um setor atrapalhe o outro.

No setor de proteína animal, a perspectiva também é otimista, mas sem alardes, para a virada de ano. Levantamento da Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos) mostra que em novembro último as exportações de carne bovina foram superiores a 153,2 mil toneladas, 12% a mais do que no mesmo mês de 2017. A expectativa da entidade para o fechamento de 2018 é de crescimento de 10% sobre o ano passado. Entre janeiro e novembro, o volume exportado é de quase 1,5 milhão de toneladas, com receita de US$ 5,96 bilhões.

Na produção de carne de frango e suínos, as expectativas são mais contidas. A ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) informou que o volume de carne de frango produzida este ano deve somar 12,8 milhões de toneladas, 1,7% a menos do que no ano passado. As exportações também terão queda, passando de 4,3 milhões de toneladas em 2017 para 4,1 milhões em 2018 (5,1% a menos). A produção de carne suína chegará a 3,63 milhões de toneladas, 3,2% a menos que no ano passado (3,75 milhões de toneladas). Os embarques para o mercado externo ficarão em 640 mil toneladas este ano, 8% a menos do que em 2017.

Para o presidente da ABPA, Francisco Turra, o ritmo de produção deve aumentar em 2019, em especial pelas perspectivas de mais espaço no mercado internacional, com destaque para China e Rússia. Como nos demais segmentos do agronegócio, o de carnes de aves e suínos espera boas notícias da relação com o governo recém-eleito. A ABPA já entregou ao futuro presidente da República um documento com as principais demandas para a avicultura e a suinocultura, em que destaca fatores essenciais como a desburocratização no processo de habilitação de plantas frigoríficas, o fim do estabelecimento de frete mínimo, melhoria da infraestrutura logística, mais segurança nas estradas e a realização de acordos comerciais.

De olho na economia

Todo e qualquer passo do Brasil em 2019 depende diretamente do que acontece no cenário econômico. Claro que o político também será imprescindível para o avanço das decisões que definirão o futuro do país, mas os humores que vêm da economia serão determinantes. Pelo que se vê dos principais indicadores econômicos até o momento, o panorama parece ser favorável, sempre com a necessária dose cautela. O Copom (Conselho de Política Monetária) do Banco Central definiu a taxa Selic em 6,50% a.a. A taxa de inflação deve encerrar o ano em 3,7%, abaixo da meta prevista de 4,5%.

Para o economista Ricardo Amorim, as perspectivas para o Brasil são ótimas quando se avalia o mercado externo, sobretudo os Estados Unidos. Segundo ele, os norte-americanos estão no fim de sua maior onda de expansão dos últimos tempos, e o próximo período de recessão pode não estar tão longe. “A próxima recessão dos EUA está a trimestres, e não a anos. Por isso precisamos arrumar a casa aqui no Brasil antes que aconteça”, comenta o consultor. Na visão de Amorim, as disputas comerciais, como a que os EUA travam com a China, contribuem para esse quadro. “É uma situação que impede a concorrência no mercado interno e evita que preços caiam ou sejam mantidos, com isso cresce a taxa de juros, o crédito fica mais caro e começa um caminho contrário ao do crescimento, inclusive levando à recessão.”

Considerando os estragos causados na economia mundial pela crise financeira norte-americana em 2008, é melhor ficar de olho nas movimentações que possam vir por aí.



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