Humanizar o ambiente de trabalho para crescer

Publicado em: 21 outubro - 2019

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Criar ambientes corporativos mais amigáveis e menos opressores pode ser um bom caminho elevar a produtividade e a satisfação profissional.

“Uma única pessoa não faz coisas incríveis no mundo dos negócios. Uma equipe sim”, a frase imortalizada por Steve Jobs, o criador da Apple, dá a real dimensão de como é importante valorizar não apenas um único talento, mas toda uma equipe.

Todo mundo sabe que as novas e gigantes empresas de inovação têm algo em comum: um ambiente de trabalho mais humanizado, que valoriza as individualidades de cada colaborador. Essas empresas são bem-sucedidas não por conta de uma única mente brilhante, mas porque sabem valorizar seu maior patrimônio: sua mão de obra. 

No Brasil há um alerta assustador: cresce a insatisfação de quem está com uma ocupação garantida. Segundo pesquisa feita pela Locomotiva, instituto de pesquisa e estratégia, 56% dos trabalhadores formais se dizem insatisfeitos com seu emprego.

É claro que a insatisfação do trabalhador não é culpa de toda a gerência. Existem muitos fatores que contribuem para turvar a água. Ainda assim, há muito que as empresas possam fazer para melhorar significativamente a qualidade da experiência no local de trabalho.

A transformação digital, permitiu novas eficiências operacionais, ciclos de desenvolvimento de produtos mais rápidos, maior intimidade com o cliente e muitos outros benefícios para as empresas. Os funcionários, sobrecarregados pelas demandas do local de trabalho, têm lutado para acompanhar o ritmo acelerado dessas mudanças, o que prejudicou tanto a produtividade quanto o engajamento.

As empresas na pressão para atingir as metas, aumentar as vendas e continuar crescendo, perderam a noção do fato de que os funcionários são pessoas reais com sentimentos e emoções reais. Enquanto os funcionários focados em suas tarefas muitas vezes esquecem de suas necessidades primordiais, ou seja, de “ser” humano. Perderam de vista os instintos básicos que estão por trás de suas próprias interações comerciais diárias.

Humanizar o local de trabalho é um passo importante para melhorar o moral e a taxa de retenção dos funcionários e, por sua vez, melhorar a produtividade e a capacidade da empresa. Os funcionários que se sentem conectados ao seu local de trabalho têm muito mais probabilidade de exibir taxas mais altas de moral e níveis de satisfação do que aqueles que se sentem desumanizados por seus superiores e ambiente laboral.

Um local de trabalho humanizado é confiável e equivale ao sucesso quando há empatia e solidariedade. Coisas que são tipicamente humanas. Por isso é imperativo se evitar comportamentos parecidos com robôs, que podem causar alienação. Incentiva tempo para uma boa etiqueta – “por favor”, “obrigado”. Reconhece consistentemente as contribuições positivas dos colegas de trabalho. Coloca solicitações como perguntas, não exige. Põe ênfase em infundir alegria e riso no local de trabalho – tornando o trabalho mais divertido, inspirando as pessoas a colaborarem, promovendo mais criatividade e engajamento dos funcionários.

“Embora concentrar-se nos aspectos humanos seja fundamental para que os colaboradores se sintam valorizados, as empresas precisam tomar cuidado para não pecar pela humanização por si só, perdendo o foco do resultado, que pode fazer com que a produtividade dos colaboradores caia, ou colocar em risco o limite entre o que é vida profissional e o que é vida pessoal. Esses dois aspectos devem ser integrados, mas não misturados. Assim, a humanização deixa de ser um aspecto positivo e pode causar problemas para a empresa e para os funcionários”, explica a especialista em desenvolvimento humano Susanne Andrade, autora do best-seller O Segredo do Sucesso é Ser Humano.

Os funcionários por sua vez são uma vantagem competitiva para qualquer organização. Em uma economia baseada em serviços, o trabalho é feito com e através de pessoas, e as organizações dependem de conexões interpessoais positivas para atingir seus objetivos.  

Mas, o trabalho, fonte de satisfação do trabalhador, pode também se tornar não apenas difícil e frustrante, mas também desumanizador. Excesso de trabalho até o ponto de exaustão é desumanizante, como também tratar os funcionários como engrenagens de uma máquina, e não como sujeitos de necessidade que precisam de descanso e lazer.

No entanto, o excesso de trabalho não é a única maneira pela qual o ambiente de trabalho pode ser desumanizado, não promover a educação continuada, não oferecer treinamento profissional adequado, não tratar os funcionários com dignidade, não incentivar a inovação e a criatividade em todos os níveis pode ser igualmente desumano e, por fim, desastroso.

Quando os funcionários sofrem com a falta de moral devido a um ambiente de trabalho não saudável, o desempenho no trabalho também começa a sofrer. O moral dos trabalhadores é valioso porque serve como motivação, compromisso e engajamento para realizarem suas tarefas de maneira eficiente e eficaz. O baixo moral, por outro lado, tem o potencial de causar um aumento no absenteísmo, na rotatividade e na baixa produtividade, que são obstáculos para o resultado final do negócio. Como tal, manter o moral do empregado alto é uma iniciativa a ser levada a sério pelos empregadores.

O local de trabalho é um importante contribuinte para o bem-estar individual, em grande parte porque oferece o potencial para relacionamentos positivos. Humanizar o ambiente de trabalho não é criar mais regras, é justamente tornar mais humano. Focaliza-se na importância de processos centrados na pessoa.

Inúmeros estudos mostram que os relacionamentos e o trabalho são os dois principais contribuintes para o bem-estar individual. Embora os funcionários tendam a mudar de emprego com mais facilidade, a lealdade e o envolvimento com as organizações dependem de relações de trabalho e não de incentivos econômicos.

Um estudo da Glassdoor, plataforma de avaliação de empresas e salários publicada de forma anônima por funcionários, revela que para todos os níveis de renda, o principal motor de satisfação dos trabalhadores não é a remuneração e os benefícios, mas a cultura e os valores de cada organização, seguidos pela qualidade da liderança e oportunidades de carreira na empresa.

Papel do RH

Ao mesmo tempo em que o ambiente de trabalho tornou-se mais volátil, incerto e complexo, as pessoas começaram a questionar as interações com organizações que as fazem sentir que são tratadas como números e estatísticas, em vez de indivíduos valorizados. Agora, mais do que nunca, elas estão clamando por um ambiente de trabalho humanizado – onde possam se sentir seguros e respeitados, motivados para inovar e inspirados a trabalhar eficientemente.

Historicamente falando, as estratégias de negócios sempre giraram em torno da produção e dos resultados. E por mais tempo, o capital humano foi considerado um mero instrumento para atingir esses objetivos. O modelo cooperativista, por exemplo, destoa totalmente desta realidade quando consideramos princípios como “Gestão Democrática” e “Participação Econômica” dos cooperados.

Assim como acontece na maioria das cooperativas, uma organização humanizada é aquela que apoia a diversidade e a igualdade no local de trabalho. Grupos fechados e territorialidade sugam uma enorme quantidade de tempo e energia. Criar um ambiente colaborativo contribui para um ambiente de trabalho mais saudável.

Para os funcionários, o humor pode tornar o trabalho mais amigável e relaxar a tensão, por isso criar a “hora lúdica” fomenta um ambiente descontraído, aumenta a produtividade, a criatividade e reduz a licença médica.

Estratégias orientadas para as pessoas nem sempre precisam custar o olho da cara. Algo tão simples quanto permitir que os trabalhadores exibam itens pessoais, como fotos de família em sua área de trabalho, pode ter um efeito profundo em sua experiência e no desempenho deles.

Outra abordagem para humanizar o local de trabalho que não vai custar os recursos da organização é permitir sextas-feiras casuais, ou um código de vestimenta mais descontraído em geral. Ao permitir que os funcionários trabalhem como quiserem, a empresa viabiliza que eles expressem suas personalidades através de suas roupas.


Por Marcela Noschang – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 89



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