Humano e econômico: as duas faces da eficiência cooperativista

Publicado em: 10 novembro - 2020

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Norteadora do planejamento estratégico, a análise de eficiência cooperativista emprega os sete princípios como indicadores multimensionais

Sem pessoas, não há cooperativas. O fator humano é a chave. Ainda assim, são empresas, precisam de lucro. No entanto, seria um erro analisar os resultados de uma organização cooperativa somente a partir dos mesmos critérios utilizados pelas empresas mercantis. Isso porque, as cooperativas têm duas faces indissociáveis: a social e a econômica. Obter resultados positivos em ambos os aspectos é ser eficiente. É isso o que expressa o conceito de ‘eficiência cooperativista’, ao afirmar que o fator financeiro é sempre um meio para se atingir o fim, que é o social, o bem-estar dos cooperados.

“A eficiência cooperativista é o reconhecimento de que os resultados objetivados como fins da gestão de uma organização cooperativa são indissociáveis de sua dupla dimensão (social e econômica) e os princípios cooperativistas são balizadores desses resultados”, descreve Carlos Baioto, professor do Centro de Ensino Superior Rio Grandense (Cesurg), que cunhou o conceito em sua tese de doutorado, objetivando responder à indagação do que se espera de uma organização cooperativa em termos de gestão.

arlos Baioto, professor do Centro de Ensino Superior Rio Grandense (Cesurg)

“A eficiência cooperativista é uma forma de perceber gestão, para dentro e para fora da cooperativa. Serve como ferramenta ao planejamento estratégico e para dar visibilidade às ações da cooperativa na dimensão dos sete princípios”, aponta Baioto. “Também tem o objetivo de desmistificar a ideia de que os princípios do cooperativismo estariam ultrapassados. Diz isso quem não compreende sua profundidade e a possibilidade que eles dão em gestão cooperativista. A partir deles, temos meios de análise para saber se a cooperativa está no rumo”, defende.

Como forma de realizar essa avaliação na prática, o professor desenvolveu a ‘tríade da gestão cooperativa’. São critérios indicadores que evidenciam a análise de resultado muntidimensional. Por exemplo, analisando o principio da gestão democrática, em sua dimensão meio (econômica), poderiam figurar como indicadores ser uma organização transparente, cujos associados têm acesso a balanços e informações internas, canais de comunicação e relacionamento efetivos, garantindo a democracia; já na dimensão fim (social), a capacidade de estimular o associado a ser participativo e atuante.

“O conceito é universal, pode ser aplicado a qualquer cooperativa”, observa Baioto. O professor comenta que, por vezes, as cooperativas realizam ações importantes econômica e socialmente, mas não as mensuram. “A questão é conseguir evidenciar onde geram resultado econômico e onde geram resultado social. Mensurar é fator estratégico. Gestão sem indicador é ‘achômetro’”, ressalta. Uma forma de evidenciar essa diferenciação da boa gestão cooperativa é por meio dos relatórios de gestão e sustentabilidade. Ali, podemos ter indicações de quantos princípios cooperativistas estão sendo atendidos e que retornos geram.

Eficiência agregar valor

Em seus relatórios, a Unimed Londrina procura evidenciar sua eficiência cooperativista descrevendo suas ações e projetos econômicos, sociais e ambientais. O diretor-presidente, Omar Taha, acredita que “eficiência é obter resultados que agreguem valor de forma diferenciada e inovadora aos públicos da cooperativa, como cooperados, colaboradores, clientes e comunidade. Para nós, o desempenho econômico é fundamental, mas a satisfação desses públicos pelos serviços e pelas ações realizadas também tem destaque nas metas estipuladas”.

Omar Taha, diretor-presidente da Unimed Londrina

Uma das ferramentas que auxilia a avaliação da cooperativa é a pesquisa de satisfação aplicada aos públicos envolvidos. “Esses resultados impactam diretamente no planejamento estratégico, fortalecendo a marca Unimed Londrina e contribuindo para a sustentabilidade”, assegura. Taha aponta como um exemplo de resultado de eficiência cooperativista a campanha de comunicação e relacionamento chamada “A Casa É Sua”, lançada em 2019, cujo objetivo era fomentar o sentimento de pertencimento dos cooperados e estimular a participação efetiva das decisões e atividades da cooperativa. “Já estamos colhendo frutos. Quase 80% dos cooperados afirmaram que a marca Unimed agrega valor à atividade médica”.

Planejar para ser eficiente

A Cooperativa Vinícola Garibaldi, descreve em sua missão objetivar “gerar valor à cooperativa nos aspectos econômico, social, ambiental e cultural, e não somente no aspecto financeiro”. Alexandre Angonezi, diretor-executivo,afirma que a partir da gestão baseada em planejamento e de análise de resultados, essa intenção foi traduzida em grandes objetivos estratégicos – de gerar valor aos stakeholders, agir de forma sustentável, mirando o futuro e a perpetuação da cooperativa, além de trabalhar a especialização em espumante. Com indicadores estabelecidos de acordo com o perfil da cooperativa é possível medir o retorno financeiro, a sustentabilidade e os impactos sociais, analisados de forma a compor melhorias significativas à cooperativa.

Alexandre Angonezi, diretor-executivo da
Cooperativa Vinícola Garibaldi

Foi a partir dessa análise de resultados e reflexões sobre estratégia que a Garibaldi decidiu elevar a carro-chefe sua produção de espumantes. “É um produto que temos know-how, tecnologia, potencial de mercado, competitividade, o que nos levou a mudar a visão da cooperativa. Esse é um exemplo do quanto trabalhar essas métricas nos mostra caminhos”, defende o diretor-presidente. “Enxergar sistemicamente a cooperativa tem feito muita diferença. Mostra o quanto estamos sendo eficientes naquilo que planejamos”, diz.

Carlos Augusto Rodrigues de Melo,
presidente da Cooxupé

A comunicação e o relacionamento também ganham destaque para se alcançar a eficiência. Comitês internos, reuniões de equipe e de aproximação com fornecedores são algumas das ações relevantes nesse sentido. “E fazemos questão de dizer em todos os canais que somos cooperativa”, acrescenta Angonezi.

Da mesma forma, para a Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), sua eficiência está diretamente relacionada ao planejamento estratégico. Segundo Carlos Augusto Rodrigues de Melo, presidente da Cooxupé, “resultados eficientes são uma preocupação constante, tanto para o crescimento saudável da cooperativa quanto de nossos mais de 15 mil cooperados. O planejamento estratégico, junto com Conselho Fiscal e de Administração, permite-nos estar sempre de olho em oportunidades e na adoção de ações que impactam positivamente nossos públicos”.  

A cooperativa dispõe de Política de Sustentabilidade, que norteia ações integradas nos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais. O presidente avalia que a eficiência é alcançada, e defende que “o cooperativismo é exercido em sua essência desde que seus princípios sejam respeitados. Na Cooxupé, tanto cooperados quanto comunidades vivem o movimento cooperativista conosco e, assim, conseguimos alcançar nossos objetivos”.


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 96



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