Inovação e boa gestão não têm idade

Publicado em: 19 novembro - 2019

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Quem um dia irá dizer que para ser inovador é preciso ser jovem e quem irá dizer que um bom gestor não pode ser jovem?

Há incontáveis bons exemplos, no Brasil e no mundo, que desmistificam e jogam por terra alguns arraigados, equivocados e persistentes preconceitos corporativos. E vamos logo de cara, no primeiro parágrafo desta matéria, deixar bem claro: ser inovador não é prerrogativa de gente jovem bem como ser bom gestor não é atributo exclusivo de gente mais experiente. Espírito empreendedor e criativo, bem como sede de vitória e competência são, felizmente, atributos que não têm idade e que permitem que todos possam sim alcançar o tão almejado sucesso em qualquer fase de sua vida.

Aos 82 anos de idade, o tarimbado empresário do setor automotivo Abraham Kasinski resolveu fundar uma fábrica de motocicletas, scooters e triciclos. Isso foi no ano 2000 e, antes, ele havia criado uma das maiores marcas de amortecedores automotivos do Brasil, a icônica Cofap.

Exemplos como o dele e de muitos outros mostram que nunca é tarde para inovar, começar e empreender. Quando perguntavam ao senhor Kasinski de onde vinha sua disposição para continuar em frente, ele dizia: “essa disposição vem de um homem de origem humilde que sempre sonhou em crescer, cresceu bastante e ainda pensa em crescer mais.

Enquanto pôde, Abraham frequentou diariamente seu escritório desde as primeiras horas da manhã. Em 2009, um grupo chinês, CR Zongshen, comprou a fábrica de motos, mantendo o nome original – Kasinski -, que acabou se tornado uma grife para a empresa. O antigo dono teria se dedicado a uma paixão – cultivar orquídeas – se não tivesse adoecido. O inovador empresário partiu em 2012 deixando inspirador exemplo a todos brasileiros: empreender e inovar não tem idade.

O fundador de uma das maiores corporações da indústria alimentícia, Henri Nestlé, inventou o produto que faria sua empresa famosa aos 52 anos de idade. A farinha láctea ajudou famílias a lidar com a desnutrição de seus bebês e a necessidade deu origem à Farinha Láctea Nestlé.

Outro ícone mundial, a Coca-Cola, marca mais valiosa do planeta, foi criada por John Pemberton nos Estados Unidos quando ele tinha 55 anos de idade. Antes disso, ele passou décadas tentando fazer seu tônico revigorante emplacar no mercado.

São muitos os exemplos de histórias de pessoas que, depois de sua juventude, tiveram ideias inovadoras e criaram empresas de destaque. A IBM foi criada em 1911 por Charles Flint, do alto de seus 61 anos de idade. No Brasil, um exemplo bastante ilustrativo é o caso de Roberto Marinho, que fundou a Rede Globo de Televisão depois dos 60.

No cooperativismo, podemos contar a história mais famosa e célebre de todas. A do padre suíço Theodor Amstad. Em 28 de dezembro de 1902, aos 51 anos de idade, ele fundou o modelo do cooperativismo, dando origem ao sistema Sicredi.

Jovens cabeças

Do mesmo modo que há extraordinários exemplos de inovação após os 50anos, doutro lado do debate, estão histórias de empreendedores precoces, que na tenra idade criam empresas e iniciativas que deram muito certo. O pequeno britânico Henry Patterson é considerado um prodígio do mundo empreendedor. Aos 9 anos, Henry já abriu três empresas, sendo considerado o mais jovem empreendedor do planeta. Tudo começou quando Henry tinha apenas 7 anos e começou a vender adubos no site de vendas e-Bay. Posteriormente, investiu na revenda de produtos de brechó, ganhando um bom dinheiro com isso. Mas foi recentemente, aos 9 anos, que Henry criou seu empreendimento mais brilhante, com a ajuda de sua mãe. Juntos, eles tiveram a ideia de abrir uma empresa de venda de doces pela internet, a Not Before Tea (Não Antes do Chá, em tradução livre). A empresa se tornou um sucesso dias depois do lançamento. A meta de vendas estimada para o primeiro mês de funcionamento foi batida em apenas uma semana!

Henry Patterson – Surpreendeu economistas, educadores e empresários por atingir o sucesso aos 9 anos de idade.

O exemplo brasileiro vem de Alagoas. Davi Braga, aos 13 anos de idade, criou um aplicativo para melhorar a comunicação entre pais e empresas de material escolar, por meio da utilização de uma plataforma online. A ideia surgiu ao Davi presenciar a confusão da mãe, dona de uma papelaria, para organizar e entregar corretamente pedidos de material escolar durante o período de volta às aulas. O aplicativo criado pelo garoto apresenta uma lista para o cliente, que seleciona os materiais escolares de que necessita. A ferramenta encaminha a lista para a empresa parceira, que entrega todos os materiais solicitados diretamente na casa do cliente.

Davi Braga – Começou a empreender quando tinha apenas 13 anos de idade.

Aneli Joaquim, de 12 anos, representa o cooperativismo nesta turma. Ela é a mais jovem presidente de cooperativa do Brasil e lidera a Cooperativa Escolar do Cemef – Centro Municipal de Ensino Fundamental Leonel de Moura Brizola, a Coopemef, de Teutônia (RS).

Seu trabalho ajuda a disseminar o aprendizado do cooperativismo e fazer com que os alunos protagonizem as organizações, tendo contato com as rotinas do trabalho e participando de todos os processos, desde administração da cooperativa até a seleção dos produtos a serem comercializados, controle de vendas e outras atividades do cotidiano.

Sempre é tempo

As ferramentas digitais que hoje estão nas nossas mãos permitem uma grande pluralidade no acesso de pessoas, seja ao mercado de trabalho, seja ao mundo dos negócios e das cooperativas. Idade realmente não é documento para que se possa criar uma empresa ou uma cooperativa forte, que siga bons princípios e que seja regida por práticas sustentáveis. A onda de jovens super capacitados que cada vez mais estão entre os postos de comando das empresas e dentro dos principais departamentos de qualquer negócio é contraposta e apoiada, complementada, pela enorme quantidade de pessoas que já passaram dos 40 e que estão dispostos a emprestar sua bagagem e experiência para novas ideias, novos horizontes e novas formas de trabalhar, cooperar e prosperar.

Henrique Garcia – Ceo da SmartBrain

Um levantamento feito pela entidade que congrega Fintechs de todo o Brasil, a ABFintechs, com cerca de 350 associadas, em parceria com a PwC Brasil (PricewaterhouseCoopers), aponta que 58% dessas empresas não atingem o breakeven, ponto em que começam a ter lucro. Por conta disso, as fintechs passam a buscar profissionais mais experientes e maduros, fato que ajuda a empresa a ganhar uma sobrevida maior.

Outra pesquisa da PwC, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, aponta que profissionais de nível sênior possuem maior inteligência emocional. “A turma jovem pode ter capacidade técnica e tem muito a compartilhar com o pessoal um pouco mais velho que tem maturidade suficiente para analisar, ponderar, avaliar e não se desesperar diante do inusitado – afinal, já passou várias vezes por situações em que o fim do mundo parecia estar por um fio”, comenta Cassio Bariani, presidente da SmartBrain, fintech que vem contratando executivos mais grisalhos.

A possibilidade de unir a juventude com a experiência gera mais valor à empresa. “O fato de sermos seniores não significa que somos menos arrojados e empreendedores, pois estas são características pessoais e não relacionadas à idade. É isso que nós incentivamos em nossos colaboradores”, acrescenta Bariani.

Já em outra fintech que atua no Brasil, a SmartBrain, o foco é manter um ambiente de trabalho diverso, colaborativo. “Juntar profissionais com variadas expertises e diferentes idades dentro de uma empresa é essencial para o desenvolvimento de inovações”, destaca Henrique Garcia, CEO da startup.

Para a headhunter Carol Italiano, especialista em seleção de talentos e estudiosa sobre empreendedorismo, os tempos atuais pedem um mix de talentos e experiências, o que abre espaço para diversas faixas etárias nas empresas e corporações. Ela acredita que, na economia digital, existe um papel de destaque tanto para os jovens quanto para quem já passou dos 60. “Realmente sempre é tempo. Existem estudos que dizem que a faixa etária do empreendedorismo é entre 55 e 65 anos. As pessoas nessa faixa de idade têm uma boa vivência para empreender, mais ousados e mais sábios. Precisamos de profissionais mais especializados nos ônus e bônus do envelhecimento em todas as áreas. Por outro lado temos, na era digital, o jovem brasileiro que prefere  ter o próprio trabalho  ou seja,  empreender, inovar e gerar novas oportunidades diante das rápidas mudanças de cenário.” relata a headhunter.


Por Léo Doca e Mauro Cassane – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 90



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