Juventude cooperada

Publicado em: 05 agosto - 2019

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A despeito do descaso governamental, cooperativas e empresas privadas trabalham para valorizar e inserir os jovens no mercado de trabalho

Em cooperativas ou na iniciativa privada, a inclusão dos jovens nos negócios sempre traz imensuráveis benefícios. É o sangue-novo necessário para a inovação. Profissionais mais experientes sabem disso (aliás, claro, já foram jovens também), e aqueles que são mais seguros, naturalmente, assumem postura de valorizar e incentivar a participação dos jovens no ambiente corporativo. 

“Costumo dizer que a vida é um trem no qual embarcamos quando nascemos e desembarcamos numa outra hora, inevitável. Os trilhos sobre os quais ele corre são o amor e a justiça. O combustível é a esperança. Tudo isso faz parte do ideário juvenil, de modo que o cooperativismo se encaixa como uma luva a este ideário”. A frase cunhada por Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior de Agronegócio da FIESP e professor de Economia Rural da UNESP/Jaboticabal, demonstra perfeitamente bem como os jovens atualmente estão cada vez mais engajados e alinhados com a cultura cooperativista. 

Na última Assembleia Geral da ACI (Aliança Cooperativa Internacional), realizada em Oslo, Noruega, no ano passado,  chamou a atenção a participação do público jovem que buscava mais informações sobre o cooperativismo. No Brasil, esse movimento já se observa há mais de dez anos. Em agosto de 2002, ocorreu o 1º Encontro Nacional de Jovens Cooperativistas, em Bonito, Mato Grosso do Sul. Em São Paulo, o Sistema Ocesp/Sescoop-SP promove, anualmente, o Encontro de Jovens Cooperativistas. Cerca de 300 jovens participaram no ano passado. Neste ano, o encontro será realizado entre os dias 15 e 17 de outubro, em São Pedro, interior do Estado.

Investir nos jovens é uma necessidade para o futuro não só das cooperativas mas de qualquer negócio ou, ainda, de qualquer nação. Desperdiçar o talento e a energia dos jovens, é condenar o futuro de seu negócio. Um exemplo de empresa verdadeiramente interessada nas positivas contribuições dos jovens, é o programa realizado pelo Instituto Coca-Cola Brasil, batizado de Coletivo Jovem. A ideia é inspirar e empoderar jovens de 16 a 25 anos, moradores de comunidades urbanas de baixa renda, por meio da capacitação e desenvolvimento profissional, valorização da autoestima e conexão com novas oportunidades de geração de renda.

O programa se propõe a criar referências que ampliem a visão de mundo dos participantes, destacando a importância de se prepararem para o futuro. Além disso, promove condições para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, através de uma metodologia que promove o “aprender fazendo”, o protagonismo, a comunicação, autonomia e pensamento crítico – atitudes fundamentais para o jovem.

Os beneficiários, durante o curso, são convidados a pensar sobre seu plano de vida e sobre o que precisam fazer para alcançarem seus objetivos. Dessa forma, o programa apresenta ao jovem oportunidades de aproximar seus sonhos com a realidade em que vivem a partir do pensamento sobre o futuro, incentivando-os a enxergar o caminho para a inserção profissional como um caminho possível. 

 O programa tem como causa principal a empregabilidade e entende que o processo de desenvolvimento profissional dos jovens vai além da vaga de emprego. Por isso, sua metodologia trabalha com uma abordagem que incentiva o protagonismo e a liderança, fortalecendo a autoestima dos participantes. Os jovens são estimulados a realizar projetos práticos nas comunidades onde vivem em temas como marketing, vendas, comunicação e produção de eventos. Além de conteúdos teóricos, práticos e lúdicos, o programa também possui uma plataforma virtual de aprendizagem, que pode ser acessada dentro ou fora das salas do Coletivo.

Ao final do curso, os jovens são conectados com oportunidades de emprego, e aqueles que tenham outros objetivos profissionais, como empreender e continuar os estudos, são direcionados para parceiros que tenham expertise nesses temas. As parcerias do programa com ONGs locais e uma rede de mais de 250 empresas empregadoras espalhadas por todo o país são primordiais para que os resultados sejam alcançados. Desde o início de sua implementação, o Coletivo Jovem já impactou mais de 219 mil jovens em 75 comunidades brasileiras espalhadas em 14 estados, além do Distrito Federal. Desses, mais de 60 mil tiveram acesso ao mercado de trabalho.

Jovens cooperados

A Sicredi faz algo parecido com a Fundação Coca-Cola. Eles desenvolveram uma plataforma chamada Geração Cooperação que agrega jovens interessados em cooperativismo em um espaço de diálogo e disseminação de ideias.

“Eu vejo que o jovem tem um olhar muito mais empreendedor do que a minha geração, ou outras gerações passadas. O jovem acredita nos valores da cooperação e da cidadania, é algo que ele quer”, afirmou Marcos Schwingel, Gerente de Educação Cooperativa da Fundação Sicredi. Segundo ele, é preciso ajudar o jovem a entrar em contato com o funcionamento das cooperativas e seus valores, levando-o a descobrir que são uma solução econômica para ajudar o mundo.

Já a CICOPA – organização internacional que reúne cooperativas da indústria, do artesanato e serviços – lançou a campanha “We Own It” (Isso Nos Pertence) para incentivar os jovens a empreender cooperativamente. Diz o presidente da CICOPA Américas, Arildo Mota, “Muitos jovens dizem que querem isso, mas às vezes não sabem mesmo por onde começar esse processo. Os jovens querem participar coletivamente dos espaços de decisão, ter autonomia, e uma visão mais humanista, que as empresas não têm”.

Além dessas iniciativas de empresas e cooperativas para inserir o jovem no mercado de trabalho, há também iniciativas bem-sucedidas dos próprios jovens que se mostram cada vez mais interessados em participar de uma economia mais solidária e colaborativa. A Juvesol é um exemplo interessante que vem tomando corpo e ganhando adeptos em todo o País. Como são jovens interessados em economia solidária, uma aproximação com o sistema cooperativista certamente poderá gerar frutos promissores.


Por Mauro Cassane – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 88



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