Liderança


Gestão


A sabedoria está em viver no presente construindo para o futuro

Liderança é assunto recorrente e sempre atual, assim como a necessidade de desenvolver líderes no âmbito empresarial, social, político, e o Brasil não detém a primazia, pois o mundo carece de líderes.

Diferentemente do que era preconizado no passado, liderança se aprende e se desenvolve, tanto que o desenvolvimento de líderes se tornou atividade fundamental de muitos profissionais. Livros, vídeos, cursos, palestras sobre o tema é um mercado crescente. Teorias surgem todos os dias, assim como a busca de alternativas.

O entrevistado dessa edição é Eugenio Mussak, que fala sobre a construção de líderes e defende que a atuação desses profissionais seja fundamentada no tripé competência, caráter e causa. Também discorre sobre os tipos de líderes e defende a liderança educadora.

Eugenio Mussak atua em Educação Corporativa como consultor em Desenvolvimento Humano e Organizacional, iniciou a atuação em educação em 1971, contabilizando desde então cerca de 20 mil aulas e mais de mil palestras para empresas, universidades e congressos, no Brasil e no Exterior.

Professor da Fundação Dom Cabral e do Ibmec São Paulo, autor e coautor de mais de 10 livros, Mussak tem formação original em Medicina, pela Universidade Federal do Paraná, com especialização em Fisiologia Humana, disciplina da qual foi monitor, pesquisador e professor na própria UFPR, e obteve especialização em Análise de Sistemas e Negócios pela FAE Business School.

Quais as causas e quais os problemas que a falta de liderança gera?
As pessoas precisam de líderes, isso é histórico e da própria natureza humana. Sempre buscamos referência, apoio, orientação e direcionamento, é a história do ser humano. Na nossa vida, vamos substituindo os líderes, uns pelos outros, pais, professores, amigos, chefes no trabalho, ídolos esportivos, personalidades políticas. Há essa necessidade excessivamente humana de termos referências que são buscadas em líderes, a ponto de até os líderes precisarem de referências e de líderes, de modelos. Nos ambientes circunscritos, em especial nas empresas, isso é evidente e importante, com o agravante de que nesses espaços existem objetivos muito pragmáticos a serem atingidos e a prazos relativamente curros. E as pessoas precisam estar estruturadas para que isso aconteça. Essa estrutura parte de alguns elementos e, principalmente, da existência dos líderes.

Hoje, vivemos a carência de líderes ou as pessoas cansaram-se dos modelos convencionais de liderança?
Não sei se a carência de líderes que estamos vivendo é uma questão de um ciclo histórico, mas também existe uma certa saturação das velhas lideranças e uma transição para as novas lideranças. Talvez estejamos sentindo a falta de líderes porque os antigos já não sevem mais e os novos ainda não assumiram a sua postura de líderes. Observando o cenário internacional, percebemos claramente o cansaço que as pessoas têm dos líderes tradicionais e o surgimento de alguns novos. A sociedade precisa olhar para novos líderes, estar preocupada com isso, para no futuro termos um novo tempo.

Por que ainda há espaço para líderes autocráticos?
Fala-se muito que o líder deve ter um comportamento democrático, mas as pessoas preferem líderes mais autocráticos, talvez até porque o exercício pleno da democracia como instituição sociopolítica ainda é recente em nossas mentes, uns 200 anos no mundo. Ainda estamos aprendendo. Democracia é o espaço onde todos têm o direito de fazer valer seus pontos de vista, seus desejos, suas contrariedades. A democracia exige das pessoas a responsabilidade em participar da decisão. Então muitas vezes, preferem deixar que o outro resolva, faça e responda por isso. É interessante ver se realmente há democracia nas escolas, nos lares, nas empresas…

Qual o modelo de liderança mais indicado para o desenvolvimento dos liderados?
A liderança é observada de acordo com o olhar, que pode ser um olhar nos resultados ou nas pessoas. Com essas coordenadas, podemos formar uma matriz com quatro quadrantes. Se está mais no resultado, se não está preocupado com a pessoas e seu bem-estar, esse é o líder autocrático. O que se importa mais com as pessoas e sua felicidade, é o líder democrático. E há o terceiro tipo que é o líder educador, que tem nas pessoas o resultado. Esse líder tem em si os elementos dos dois outros: é autocrático quando precisa ser e democrático quando ele pode ser. Uma das funções do líder é estimular as pessoas a se desenvolverem, conseguir retirar das pessoas o que elas têm de melhor. Essa é a essência do líder que mais desejamos, aquele que consegue adaptar o seu estilo à situação do momento, uma liderança situacional, e, por isso, circula por todos os quadrantes.

Como conciliar o imediatismo do dia a dia com a visão de longo prazo que é fundamental para preservar as instituições?
Uma das grandes marcas da sabedoria de uma pessoa é conseguir conciliar esses dois tempos: tem de atender o imediato, porque dele depende a sobrevivência, mas não pode comprometer o futuro, que é o princípio da sustentabilidade. Isso é difícil e cria uma das questões mais complexas da gestão das empresas: como atender o curto prazo sem descuidar do longo prazo. O que está por trás é sabedoria. A conciliação entre os tempos talvez seja uma das coisas mais significativas para os bons líderes: vivem no presente, mas constroem para o futuro.

Como criar um novo modelo e educar a nova geração para dela saírem os líderes?
Sou contra mudar por mudar. Tem de mudar o que é necessário. Não mudar por mudar. O mundo mudou até pela influência da tecnologia na vida das pessoas. Não temos de sair por aí quebrando paradigmas apenas pela necessidade de quebrá-los. O caminho é substituir o modelo à medida que vamos construindo um novo modelo. Outro aspecto dos dias atuais é a falta de vínculo das pessoas e isso tem relação com a causa: o líder precisa saber como transformar uma tarefa em uma causa, conseguir mostrar para as pessoas o significado de uma pequena ação, porque ela está ligada a uma coisa maior. Estamos enfrentando alguma dificuldade com os jovens, nesse sentido, pois muitos deles estão com carências de causas e não estão encontrando uma âncora em coisas maiores do que elas mesmas. E, por isso, nesse momento, os líderes são ainda mais importantes.

Qual deve ser o ritmo da mudança e o que é prioritário mudar?
O mundo está em um momento tumultuado, dramático. Ainda há muitas regiões que precisam aprender sobre democracia. Essas mudanças muito rápidas, radicais, profundas e dolorosas, ao examinarmos a História, não deixam bons legados. A mudança deveria ser um pouquinho mais racional. Sempre digo que, quando se fala em mudança, tem três qualidades importantes de quem a sugere. Primeiramente, a coragem de quem a propõe porque as pessoas vão reagir contra qualquer proposta de mudança porque estão acostumadas com o status quo. A segunda é a persistência, porque a mudança nunca acontece rapidamente; temos uma sensação de que acontece rapidamente porque olhamos o momento da virada (turn point), mas o processo é mais lento, e quando a mudança se processa é porque já havia um movimento antes. E em terceiro lugar, está a renúncia da mudança proposta, e isso é muito importante. Se não tiver coragem, nem propõe uma mudança; se não tiver persistência desiste na primeira dificuldade; e, se não tiver renúncia, as pessoas não aceitam aquela mudança. Em resumo, as pessoas que têm coragem para propor, persistência para manter seus ideais e apresentam propostas relevantes são os líderes, não importa se têm o cargo ou não.

Como o cooperativismo pode contribuir para o desenvolvimento de líderes?
Costumo ver a ação das pessoas e das empresas pelo viés da biologia, pela minha própria formação inicial. Utilizando a teoria de Charles Darwin, vemos que as espécies que venceram a luta pela sobrevivência tinham duas características essenciais: a capacidade de se adaptar às mudanças ambientais e a capacidade de cooperar. Pessoas, empresas, países que tiverem a capacidade de cooperar ocupam mais espaços, cuidam mais do futuro e são mais sustentáveis em tudo o que fazem. Não vejo muita saída para a humanidade fora da capacidade de cooperar. E o cooperativismo é um exemplo pragmático, claro, evidente, forte, estabelecido dessa ideia da colaboração.



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