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Publicado em: 21 julho - 2020

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Setor de proteína animal visualiza ‘fatias generosas’ no mercado externo

Com os olhos voltados ao mercado externo, como ‘salvação’ para os negócios internos. É mais ou menos dessa forma que o empresário rural de proteína animal está se posicionando para conquistar fatias maiores do mercado internacional. O momento é especialmente favorável, em razão do tombo na produção chinesa, que abriu fatias generosas no mercado internacional.  Essa tendência é reforçada pelo presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, ao prever a expansão crescente das exportações de frangos e de suínos, no curto e médio prazos. “Vamos ter que direcionar algo a mais para o mercado externo”, adianta.

Tal decisão se baseia no diagnóstico de setor, feito pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), ao concluir que os estabelecimentos mais dependentes da demanda interna é que mais vão sofrer as sequelas da covid-19 na economia. O estudo aponta, ainda, que “os produtos de maior valor agregado, os não essenciais (com maior elasticidade-renda) e os mais perecíveis é que sentirão, de forma mais aguda, os impactos da crise. Isso porque houve retração sensível do poder de compra da população, como também mudanças na forma de consumo, que se voltou mais para a digitalização. No plano interno, o Centro admite que suínos e frangos poderão sofrer com oscilações de preços, devido à queda de demanda da alimentação fora do lar.

Era digital chegou para ficar

Bem-vindos à era do “frango hitech”. A expressão – que pode parecer exagerada – faz menção ao processo de transformação digital, irreversível, que está tomando conta das cooperativas do setor e já colhe resultados positivos. É o caso da Cooperativa Agrícola Mista Rondon Ltda (Copagril), que implantou, recentemente, um projeto tecnológico que cobrirá toda a cadeia de produção, agora inteiramente online. Por meio de um aplicativo, os cooperados podem acessar, em tempo real, dados sobre os lotes, peso dos animais, mortalidade, consumo de água ou de ração, diretamente do celular e a qualquer hora, sem necessidade de planilhas ou arquivos pesados. O inverso também ocorre, quando do envio de informações semelhantes, por parte do produtor. Ao mesmo tempo, funcionários da equipe Fomento Aves, formada pela Copagril, além de acompanharem as atualizações realizadas pelos usuários, interagem com o usuário, sanando dúvidas e oferecendo orientações.

Segundo o supervisor do Fomento Aves, Gleisson Trentini, o emprego da tecnologia permite um controle maior do processo produtivo por parte de cada propriedade. “Com uma produção controlada, é mais fácil obter um maior equilíbrio no peso das aves, no momento do abate. Isso é importante, tanto para indústria, quanto para o próprio consumidor”, afirma. Os técnicos da cooperativa também observam com atenção etapas como a programação da ração, assim como o agendamento e controle.

Caminho semelhante trilhou a Cooperativa Agroindustrial Consolata (Copacol), que vem colhendo resultados positivos no primeiro quadrimestre deste ano, ao prestar serviços de industrialização e comercialização de seus produtos, por meio de sua cooperada, Cotriguaçu (Cooperativa Central). A operação viabilizou a exportação de grãos e proteínas animais do oeste do Paraná (PR) para mais de 60 países.

“As exportações estão em ritmo forte e a Cotriguaçu está batendo recordes de embarques”, comemora o presidente da Copacol, Valter Pitol, ao destacar que a prioridade da empresa tem sido, desde o início da crise viral, garantir a continuidade das atividades dos produtores. Para se ter uma ideia, a média mensal de embarques atinge hoje 300 mil toneladas de soja e farelo de soja, comercializados pela Cotriguaçu. Somente pelo terminal graneleiro de Cascavel (PR), foram embarcados um total de até 50 mil toneladas, no final de maio último.

Outra boa notícia é o embarque, operado pela Cotriguaçu, de 10 mil toneladas de trigo, partindo de Palotina – onde se localiza o moinho do grupo – estourando o limite de sua capacidade. Também é digna de nota a exportação de outros mil contêineres de frango embarcados pelo terminal da Ferroeste, em Cascavel, também no Paraná. Na avaliação de Pitol, “a Cotriguaçu vem prestando bons serviços ao Porto de Paranaguá, como também às cooperativas, em especial, na moagem de trigo, embarque de contêineres e no embarque de soja.

Também descreveu trajetória positiva, no primeiro quarto do ano, a cooperativa Frimesa, localizada em Medianeira (PR), que industrializa e comercializa derivados de leite e de carne suína. Entre suas metas, a Frimesa pretende habilitar o frigorífico de Marechal Cândido Rondon, cujo abate de suínos, para fins de exportação à China, deverá ter início somente em 2023. O quadro é igualmente favorável para as cooperativas centrais, como a unidade de Unitá, em Ubiratã (PR) – sob gestão da Copacol, em conjunto com a Coagru – que atingiu a média de 350 mil frangos/dia, muito próxima da capacidade máxima – 380 mil frangos/dia. A atividade ganhou impulso com o embarque – partindo do Porto de Rio Grande (RS), com destino a Porto Príncipe, Haiti, na América Central – de contêineres com uma carga de 27 toneladas de pés de frango congelados da marca Dália Alimentos e com o selo “golden chicken”.

De acordo com fontes da empresa, o carregamento do produto foi feito na planta industrial de Arroio do Meio (RS), numa operação de exportação realizada pelo grupo dinamarquês Thomsen Food Line, em parceria, desde 2916, com a Copacol, voltada a cortes de suínos. A previsão é de que a carga exportada chegue ao destino final no dia 24 de junho. O feito continua a ser comemorado pelo presidente-executivo da empresa, Carlos Alberto de Figueiredo Freitas, ao lembrar da inauguração do empreendimento, em dezembro último, quando também esteve presente a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Tereza Cristina. A celeridade do processo impressiona. Dois meses após iniciadas as atividades, em abril, houve a primeira negociação comercial, que culminou com o embarque, em maio deste ano.

Forte exportadora de carne suína, a marca Dália agora se prepara para vender à China leite em pó, após atender a última exigência daquele mercado asiático, no qual marca presença desde 1992.  “Certamente, este embarque representará um marco histórico, nestes quase 73 anos de fundação da cooperativa”, ressalta Freitas. Tomando por base o ano de 2019, a Dália Alimentos exportou cortes suínos para Hong Kong, Cingapura, Vietnã, Uruguai, Costa do Marfim, Geórgia, Angola, Coreia do Sul, Egito, Libéria, Macau, Bahamas, Abkhazia, Turquia, Ilhas Seychelles, Cabo Verde, Moçambique e África do Sul.

C. Vale: cooperativismo é o segredo do sucesso da avicultura

Um dos maiores empreendedores do agronegócio no país, o presidente da cooperativa C. Vale, Alfredo Lang, entende que, sem o cooperativismo, não seria possível garantir a expansão importância econômica da avicultura no país. Para ele, um dos melhores exemplos desse caminho de sucesso pode ser dado pelo estado do Paraná, onde fica a sede da C. Vale. “Aqui a maioria das integrações avícolas está associada a cooperativas, que estimulam o desenvolvimento da atividade, seja na busca de mercados ou gerando renda e empregos”, explica.

Com um leque de 140 produtos, a C. Vale tem mantido uma média diária de 577 mil frangos (cortes in natura e prontos para o consumo), ao se referir ao mês de maio. Lang, porém, lembra que 60% da produção tem mais 70 países como destino, entre os quais, Alemanha, África do Sul, Arábia Saudita, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes, Inglaterra, Japão, México e Rússia. Para conquistar tantos mercados diferentes, a empresa criou uma linha específica de produtos com esse objetivo – em especial, asa, peito, coxa e pés. “A China tem preferência pela parte dos pés do frango, ao passo que, na Europa, a maior demanda é pelo peito”, revela o presidente da cooperativa paranaense.

Por ser “grande fonte de renda”, a avicultura acaba sendo responsável pela fixação do homem no campo, em especial, os pequenos, observa Lang. “São comuns os casos em que os filhos permanecem na propriedade, em virtude da renda que o frango oferece”, frisa Lang, ao salientar que a atividade, além da criação de empregos, permite o reinvestimento dos recursos arrecadados com a cobrança de ICMS do frango e do peixe, entre os municípios que fazem parte da região onde está localizada a C. Vale. Ele calcula que, somadas, as atividades de avicultura e piscicultura empregam, atualmente, mais de 6,4 mil pessoas diretamente, ou seja, é socialmente essencial.

O papel vital de transferência de tecnologia, das cooperativas aos produtores, não é esquecido pelo comandante cooperativo. “Tal transferência garante uma assistência, nem sempre suficiente para oferecer alternativas de renda”, explica. Lang acrescenta nesse rol, a importância político-institucional das cooperativas, no sentido de defender os interesses do campo, em articulações com os parlamentares no Congresso Nacional, por ocasião da votação do Código Florestal, no ano passado.

Momento oportuno

O momento atual é especialmente oportuno para a expansão da avicultura pelo mundo. É o que observa o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Dirceu Talamini, ao apontar como fatores para esse movimento, sobretudo a ocorrência da peste suína africana na China. O fato teve um impacto muito pesado na produção do país asiático, que ressente da perda de 17 milhões de toneladas do produto, devido à disseminação da doença. “Esse número é muito alto, o equivalente a duas vezes a exportação mundial desse produto no ano, além de ter tido efeito muito grande no mercado internacional, abrindo espaço para as carnes suínas, bovinas e de frango”, acentua o pesquisador. Para ele, a redução gigantesca da produção de suínos pela China, por motivos sanitários, é o fator mais relevante hoje no mercado internacional.  

Talamini lembra, ainda, que o país asiático responde hoje por mais da metade das exportações mundiais de suínos. “Além desse fato alterar muito a composição do mercado mundial, é bom lembrar que o dólar, agora cotado pouco abaixo de R$ 6, proporciona uma competitividade muito grande ao produto nacional”, destaca. Mas além do câmbio, o representante da Embrapa entende que a qualidade da estrutura produtiva e do próprio produto brasileiro são decisivos para a expansão desse setor exportador.

Último segmento a integrar as exportações brasileiras, a carne suína, depois de muitos anos, conseguiu, finalmente, superar a barreira das 700 mil toneladas exportadas por ano. “Nossa expectativa é de que as exportações brasileiras cheguem a 1 milhão de toneladas/ano, até o final de 2020”, calculou. A desvalorização veloz do real este ano, porém, não beneficiou a todos. É o caso do milho e da soja – que representam cerca de 70% dos custos de produção – que passam a ficar mais caros internamente, avalia o pesquisador da Embrapa. Nessa lista, entram, ainda, vitaminas, minerais e medicamentos importados. Apesar dos prognósticos nada otimistas com a crise viral, Talamini admite que existe hoje um “ambiente positivo no que toca a preço e rentabilidade da cadeia”.

Esse cenário róseo, porém, esbarra nas sequelas da crise pandêmica sobre o mercado. Dados divulgados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), dão conta de um recuo de 12,4% nas exportações brasileiras de carne de frango, em junho último (341,9 mil toneladas), se comparado a igual mês do ano passado (390,5 mil toneladas). Em valores, no mesmo comparativo, o saldo exportado despencou 30,95%, ao passar de US$ 646,2 milhões, em junho de 2019, para US$ 446,5 milhões, no mês passado.

Em contrapartida, a carne suína nacional continua conquistando o mercado externo, a julgar pelo crescimento de 15% das exportações desse item no primeiro semestre – a maior parte direcionada ao mercado asiático – em comparação com igual período de 2019. Médias mensais de vendas crescentes também podem ser vistas na África (Egito, Líbia e Angola), assim como no Oriente Médio (Kuwait, Iêmen e Catar).


Por Marcello Sigwalt – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 94



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