Normas para andar na linha

Publicado em: 08 novembro - 2019

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Cada vez mais empresas estabelecem regras firmes de conduta ética para mitigar problemas e criar um ambiente mais confiável e positivo, inclusive para a opinião pública

Um dos legados positivos da recente e tsunâmica crise econômica brasileira pode ser sentido nas empresas: nos últimos cinco anos é cada vez mais comum se falar em “regras de compliance”. De acordo com Paulo de Souza, diretor de Fiscalização do Banco Central do Brasil, qualquer organização, seja uma empresa ou não, está sujei-ta a uma diversidade de exigências legais e regulamentares. “Não cumprir com tais exigências pode levar a uma série de consequências, como multas, sanções dos órgãos reguladores, restrições na oferta de produtos e serviços, danos à imagem e à reputação e até mesmo proibição para operar”.

Depois que os brasileiros assistiram grandes corpo- rações nacionais envolvidas com pesados esquemas de corrupção, o tema, “compliance” virou mantra no mun- do corporativo. A palavra “compliance” deriva do verbo inglês “to comply”, que significa estar em conformidade. Diz Souza, “numa abordagem moderna, diante das crescentes regulamentação das atividades empresariais e demanda da sociedade por comportamentos éticos, as ativi- dades de “compliance” tornaram-se tão relevantes quanto outras funções organizacionais, como por exemplo, finan- ças, marketing e controladoria, para citar apenas algumas”.

Em 2017, o Conselho Monetário Nacional (CMN), baixou a Resolução 4.595 que determina que as instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcio- nar pelo Banco Central do Brasil (BCB) são requeridas a implementar e manter política de conformidade (com- pliance), bem como função compliance. “Isso significa que não basta ter regras a esse respeito, é necessário que cada entidade possua uma função “compliance” compatível com a sua natureza, o seu porte, a sua complexidade, o seu perfil de risco e o seu modelo de negócio, de forma a assegurar o efetivo gerenciamento do seu risco de conformidade “, explica Souza.

Já no cooperativismo, princípios éticos fazem parte da natureza do próprio negócio. De acordo com o especialista Wagner Giovanini, da consultoria Compliance Total, de São Paulo, o fortalecimento do combate à corrupção e a rigidez no estabelecimento e aplicação das legislações impõem riscos altíssimos, que podem custar a sobrevivência das organizações, não apenas do ponto de vista das penalidades como também do efeito danoso na reputação e imagem.

Segundo Giovanini, os profissionais irão agir de modo correto e adequado na preservação do meio ambiente, na mitigação de riscos ambientais, no cumprimento das regras, leis e normativas. Do mesmo modo, não haverá fraudes, irregularidades, delitos ou desvios de conduta, mantendo-se assim o ambiente saudável, seja no âmbito interno ou nas relações comerciais. “Desta maneira, desde a elaboração da estratégia até o pós-venda, as atitudes de todos preservam a empresa, sedimentando-se, assim, a condição mínima para a sustentabilidade da organização”, explica Giovanini.

Para o consultor, o ambiente adequado nas empresas e cooperativas traz satisfação para os associados e colaboradoras, reforçando o espírito de equipe e trazendo para perto do cotidiano a sensação de ser “dono”, ter “atitude de dono”. Com isso, é natural chegar à redução de custos e desperdícios, melhor atendimento aos clientes e maior produtividade. Do lado externo, sob o ponto de vista do mercado e do público, o reconhecimento pelas boas práticas torna-se uma consequência positiva, no curto e médio prazos, vistas pelo mercado onde a corporação atua.

Ética cooperativista

Em teste, os principais benefícios em adotar o “compliance” são: mitigar riscos operacionais, financeiros e jurídicos, fortalecer da imagem da marca, aumentar a retenção e atração de talentos, vantagens competitivas e ganhos
na produtividade. De acordo com a doutora em direito, Márcia Carla Pereira Ribeiro, “o compliance contribui para o próprio ambiente empresarial, na busca pela ética, colabora na busca por melhores resultados para todos, através do desenvolvimento individual. Essas atitudes fortalecem o processo. Se quisermos um ambiente melhor, com melhores práticas de compliance todos devem es- tar inseridos. Todos devem ter a noção dos riscos que sofrem quanto a si mesmo, e dos riscos que trazem para a cooperativa. Além de observar qual é o tipo de conduta que fará com que todos tenham resultados e ambientes melhores”.

Um dos grandes exemplos de expansão e de operações bem-sucedidas no mundo do cooperativismo é a COOP, Cooperativa de Consumo, que nasceu no ABC Paulista e hoje conta com uma rede de supermercados de grande rotatividade na Região Metropolitana de São Paulo. Lá, a cultura interna mostra que a implementação de um programa de “compliance” foi importante para a organização e o crescimento da cooperativa.

O presidente da Coop, Márcio Valle, conversou conosco e trouxe um ponto de vista que tem se mostrado positivo e eficiente nos dias atuais. Ele crê que “compliance” não é custo, é investimento, e que fazer ações de boas práticas nos campos do meio ambiente, social e financeiro é, comprovadamente, uma vantagem e um elemento de diferenciação competitiva nos negócios em que a cooperativa atua.

“Além de direcionar as ações para um ambiente mais seguro e, ao mesmo tempo, saudável, onde todos os processos são revisados com o objetivo de mitigar ou eliminar riscos que podem afetar o caixa e a imagem da empresa, é, para uma cooperativa, ainda mais importante na medida em que atuamos em nome do cooperado, e por interesse dele. Precisamos ter um sistema de compliance não só para o ambiente externo, mas também para dar tranquilidade ao “dono”, que confia a estratégia e a gestão a um Conselho de Administração e a uma Diretoria, respec- tivamente”, diz o presidente da Coop.

Boas práticas, métodos e regras sempre foram a receita para a perenidade dos negócios e de qualquer ação humana. O estabelecimento de padrões e o investimento na preservação do meio ambiente, na promoção do consumo consciente, no engajamento de pessoas em torno de objetivos de impacto positivo é a diferença que tem feito de muitas cooperativas e empresas grandes líderes de seus segmentos e bons exemplos a serem seguidos.


Por Léo Doca e Mauro Cassane – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 90



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