O grande momento da suinocultura

Publicado em: 09 setembro - 2020

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Com amplo destaque internacional, a carne suína vem caindo no gosto do brasileiro e conquistando um espaço crescente no mercado

Adentrando cada vez mais culturas e hábitos alimentares, a carne suína tem se sobressaído no decorrer dos anos como uma opção mais acessível, saborosa e saudável no dia a dia da população. Segundo pesquisa divulgada em 2019 pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), de todas as proteínas animais existentes, a suína é a mais consumida do mundo, chegando a representar 42,9% do consumo mundial no ano anterior a divulgação. Dos dez países que mais consomem carne suína, sete encontram-se entre os com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Organização das Nações Unidas, ou seja, países onde as pessoas vivem mais e melhor. Mas como esse mercado tem se destacado na produção agropecuária nacional?


Marcos Antônio Zordan, Diretor de Agropecuária da Cooperativa Central Aurora Alimentos

Segundo dados consolidados pela Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), o Brasil produziu 4,117 milhões de toneladas de carne suína em 2019, sendo o 4º maior produtor mundial, equivalente a 3,8% da produção no mundo. Para o Diretor de Agropecuária da Cooperativa Central Aurora Alimentos, Marcos Antônio Zordan, o país hoje tem crescido muito devido a vários fatores, entre eles, as condições climáticas para a produção de suínos. “Com sua extensão territorial, estrutura adequada e vocação para produção de grãos — matéria prima para os suínos — disponibilidade de água e status sanitário, tudo isso concorre para elevar a competitividade brasileira. Essa possibilidade que o Brasil tem de bater recorde de produção de milho e soja, aliada aos investimentos que faz na produção de suínos – manejo, genética, nutrição e sanidade — sem dúvida nenhuma, está dando para o país uma forma diferenciada de produzir”, explica.

Atualmente, a suinocultura brasileira se modernizou muito e está em condições de igualdade ou acima da cadeia produtiva global. “Há uma preocupação muito grande, que é o respeito ao uso de produtos e medicamentos. É um status que nós precisamos manter”, afirma Marcos. Além disso, a assessora técnica da Comissão Nacional de Aves e Suínos, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ana Lígia Aranha Lenat, acrescenta que “os principais concorrentes do Brasil não têm condições de aumentar a produção sem colocar em risco a sanidade e bem-estar dos animais. Além disso, na questão dos dejetos, problema na maior parte do mundo, o Brasil tem uma das melhores políticas de controle, tratamos isso com seriedade e tecnologia, gerando biogás e biofertilizantes, dando sustentabilidade à atividade”.

Ao expandir a produção, o ramo brasileiro de suínos também encontrou desafios a serem ultrapassados. Para a assessora técnica, um dos principais hoje é garantir o abastecimento constante de milho ao longo do ano e desenvolver a cultura de gerenciamento de riscos. “O suinocultor é um transformador de milho e farelo de soja em proteína animal da maior qualidade. Seu foco principal deve ser a garantia de aquisição de insumos dentro do ponto de equilíbrio e vender bem seu animal para a agroindústria. Outro concorrente importante do suinocultor nos últimos anos é a exportação. Todos esses potenciais consumidores fizeram o preço do milho subir no Brasil. Especialmente em 2020, o setor só não entrou em colapso porque a demanda internacional garantiu bons preços nas principais praças produtoras. Mas há exemplos de regiões produtoras do Brasil que não exportam, como cidades do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo, em que os produtores que não tinham acesso ao mercado exterior e chegaram a ter sérios prejuízos”, contextualiza.

“Há uma preocupação muito grande, que é o respeito ao uso de produtos e medicamentos. É um status que nós precisamos manter”

– Marcos Antônio Zordan, Diretor de Agropecuária da Cooperativa Central Aurora Alimentos

Mesmo entre as oscilações que o mercado atual tem oferecido, a suinocultura gera mais de 1 milhão de emprego diretos e indiretos e se tornou uma das mais importantes atividades agropecuárias do Brasil transformando o panorama futuro no melhor possível. “No cooperativismo, então, a cadeia produtiva é mais forte ainda. As cooperativas do país, como um todo, têm se especializado muito tecnicamente, buscado investir para atender as exigências do mercado, dando uma condição muito importante para que o pequeno produtor se viabilize. Este é o trabalho que o cooperativismo faz com muita competência, viabilizando o pequeno produtor através da suinocultura. Hoje ele não é visto apenas como um suinocultor, mas como um produtor de alimentos e está consciente desta responsabilidade”, acentua Marcos.

Do Brasil para o mundo

Em 2019, 16% da produção de suínos brasileiro foi exportada, equivalente a 750 mil toneladas. E, para 2020, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) estima que o Brasil produzirá mais de 4,2 milhões de toneladas, o que representa um crescimento de 4 a 6% em relação ao ano passado. Isso deve-se, em grande parte, ao aumento das exportações, principalmente para a China. A projeção é que, pela primeira vez, o Brasil exportará acima de 1 milhão de toneladas de carne suína. 

Ainda nesse cenário, a saída da proteína suína cresceu muito em relação às outras carnes em 2020. “Nós temos um desafio muito grande que é mantermos a exportação. Com o volume de carne que o Brasil produz, não conseguiremos crescer sem exportação. A nossa responsabilidade é cumprir com contratos, com a qualidade da carne, com a segurança sanitária e com cotas de exportação.  Isso faz com que o nosso produtor sinta mais segurança”, acrescenta Marcos.


Ana Lígia Aranha Lenat, assessora técnica da Comissão Nacional de Aves e Suínos, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

Fazendo um comparativo entre o acumulado de exportações de carne suína entre janeiro e julho de 2020 e de 2019, é possível constatar que nesse ano já foram exportadas quase 580 mil toneladas de carne suína – crescimento de quase 40% em relação a 2019. Em termos de faturamento também houve alta e a carne suína gerou, até julho, mais de US$1,28 bilhões de divisas para o Brasil, crescimento de quase 50% em relação ao ano passado, ou seja, houve crescimento real no preço do produto brasileiro. Segundo dados do sistema COMEXSTAT do Ministério da Economia.

Para Ana Lenat, as perspectivas são boas e a demanda internacional permanecerá aquecida pelo menos até 2022, mas algumas questões precisam entrar em foco para que o cenário não mude negativamente. “Com a perspectiva do desenvolvimento da vacina contra a COVID-19, algumas cidades estão retornando suas atividades, o que beneficia o food service, principal demandante de carne suína no Brasil. Temos visto isso claramente nos preços das bolsas suínas estaduais desde o final de abril. O que me preocupa é como o produtor está vendo esse cenário atual. A suinocultura saiu recentemente de uma das suas piores crises e a demanda chinesa pela carne suína brasileira é uma janela de oportunidade que tem hora para se fechar. Eles vão se recuperar e voltarão mais fortes e tecnificados, podendo até se tornar um player exportador. Eu entendo que o momento seja de recuperar os prejuízos acumulados e investir em melhorias na produção, modernização das instalações e boas práticas de produção agropecuária”, explica.

Na mesa do brasileiro

Outro elemento importante para o setor é o constante aumento do interesse nacional pela carne suína. No Brasil, a média de consumo de suínos em 1996 era de 11,6kg/per capita/ano, passando para 15,1 em 2016 e alcançando 15,6 kg atualmente, segundo dados da ABPA. E, mesmo que esteja abaixo da média mundial, os números têm crescido significativamente no decorrer dos anos, deixando a proteína em terceiro lugar na preferência do brasileiro, atrás apenas do frango e da carne de boi respectivamente. Isso indica que a população está mudando a visão sobre esses produtos e sendo incentivada pelo menor preço em relação à carne bovina. Ainda, nas previsões do USDA, a demanda do consumo brasileiro deve crescer em 2020, atingindo 3,1 milhões de toneladas. Essa projeção também considera crescimento da economia em 2%, o que deve elevar o poder de compra dos brasileiros.

A forte mudança do estigma da carne suína, mostrando comprovadamente os benefícios da proteína, é um trabalho constante que tem refletido nos números grandiosos que o setor apresenta. Segundo a publicação “Suinocultura: Estrutura da cadeia produtiva, panorama do setor no Brasil e no mundo e o apoio do BNDES”, o suíno padrão, nos últimos 30 anos, perdeu 31% de sua gordura, 14% das calorias e 10% do colesterol. Tudo graças ao meticuloso trabalho de melhoramento genético. Assim, atualmente, alguns cortes suínos estão tão magros quanto alguns cortes de frango.

A posição que o Brasil alcançou na suinocultura mundial só foi alcançada devido à profissionalização dos produtores e o intenso desenvolvimento das agroindústrias. Esses dados, alinhados às tendências de uma produção sustentável e a mudança no gosto do brasileiro, fazem com que as perspectivas sejam as mais positivas possíveis. Para Marcos, o ritmo da suinocultura, hoje, é um dos melhores dos últimos anos em consumo, custo e preço. “Pode ter certeza que este é o melhor ano da suinocultura e, esta, a melhor época. Por incrível que pareça, a cadeia melhorou na pandemia e se continuar neste ritmo, sem dúvidas, teremos dois semestres muito bons pela frente. Mas é importante reforçar que nós defendemos a continuidade da exportação, fator preponderante para a cadeia porque, se tivermos algum problema no mercado externo, encontraremos dificuldades”, conclui.


Por Fernanda Ricardi – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 95



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