O novo mercado consciente para o produtor rural

Publicado em: 10 novembro - 2020

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A comercialização de carbono tem se destacado como ótima alternativa sustentável e rentável ao mesmo tempo que acentua o grande potencial do Brasil

Em tempos onde a sustentabilidade tem alcançado grande expressão, o lucro tem dividido cada vez mais o protagonismo com a consciência. E esse novo cenário tem delineado as discussões internacionais que influenciam diretamente o futuro dos países ao redor do mundo.

Em dezembro de 2019, aconteceu a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP25), onde líderes e representantes mundiais se reuniram para discutir soluções para o aquecimento global. Um dos principais temas desse encontro foi o artigo sexto do Acordo de Paris – marco na história da política ambiental mundial que representa um compromisso entre toda as nações-membro em reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) no planeta – sobre a regulação do mercado de carbono. Mas afinal, o que é esse mercado?

Transformando o CO2 em ativo econômico, nações que promovem redução das emissões de gases do efeito estufa recebem uma certificação de redução que contará como créditos de carbono e podem ser comercializados com os países que não reduziram ou têm metas a cumprir. Cada crédito corresponde a uma tonelada de carbono equivalente (tCO2e) que deixou de ser emitida. Sendo assim, o mercado de carbono promete acelerar o alcance das metas de redução de gases de efeito estufa e a transição energética para um modelo mais sustentável, além de promover a cooperação entre os países.

A partir disso, o Brasil conquistou a chance de entrar nesse grande mercado cogitado como maior aposta promissora. Por possuir uma grande extensão de reserva florestal, o país se torna um fornecedor de créditos de carbono em potencial, uma vez que países muito industrializados precisam neutralizar a poluição que geram. Com isso, iniciativas brasileiras já estão surgindo e pretendem revolucionar o cenário nacional nesse novo segmento, como é o caso da Iniciativa Carbono Bayer.

Destaque nacional

A agricultura não é só uma das maiores riquezas brasileiras, como também é o berço de inovações que tem garantido o desenvolvimento do país. A Bayer, em parceria com a Embrapa, se atentou a essa questão e lançou a iniciativa que irá recompensar agricultores no Brasil, e nos EUA, pela geração de créditos de carbono, incentivando práticas agrícolas sustentáveis, que contribuam com a redução da pegada de carbono e os gases de efeito estufa (GEE). “Enquanto vemos que esse mercado movimenta mais de US$ 210 bilhões globalmente, praticamente nenhuma fatia desse valor envolve o agricultor brasileiro. Agricultura de baixo carbono é uma tendência em ascensão para o combate às mudanças climáticas e para a criação de novos modelos de negócios na agricultura. O mercado de carbono na agricultura é possível se nos juntarmos aos produtores para construir negócios viáveis em torno do uso de suas terras e produção para sequestrar o carbono no solo ou reduzir as emissões de carbono das culturas. Para isso é preciso ter modelos de medição de redução e protocolos baseados em ciência. Os produtores precisam ter acesso às ferramentas corretas (tecnologias, incentivos, estrutura de carbono)“, relata o Diretor de sustentabilidade da divisão agrícola da Bayer para América Latina, Eduardo Bastos.

Diretor de sustentabilidade da divisão agrícola da
Bayer para América Latina, Eduardo Bastos

Criando um mercado com clientes, parceiros, produtores e cooperativas, a Bayer selecionou cerca de 500 produtores rurais, localizados em 14 estados brasileiros (RS, SC, PR, SP, MG, MS, GO, MT, RO, TO, PA, BA, PI, MA), com cultivos principalmente de soja e milho. Os participantes terão acesso às práticas de agricultura sustentável que favorecem o ganho de produtividade e o sequestro de carbono no solo nas áreas de cultivo, tornando-se “protagonistas dessa nova fronteira da agricultura no Brasil”. 

Com o programa, os agricultores terão a mensuração do carbono em suas áreas piloto e a oportunidade de acessar o mercado de carbono, quando estabelecido no Brasil. “Ao adotar tais práticas, são esperados outros benefícios resultantes, como uma maior produtividade, o aumento da renda e qualidade de vida do produtor, de uma forma ambientalmente correta. Enfim, uma maior sustentabilidade da atividade agrícola dos agricultores envolvidos. Ressaltando-se que, nas etapas futuras espera-se um aumento de escala no número de agricultores beneficiados”, ressalta o Pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária, Giampaolo Pellegrino.

A Iniciativa, que já teve início na safra 2020/2021 em cerca de 60.000 hectares, recebeu o título de mundialmente inédita e, como todo pioneirismo, ainda possui alguns obstáculos pela frente. Segundo Eduardo, os três principais desafios são: aumentar o uso de tecnologias ABC (Agricultura de Baixo Carbono) no campo; melhorar o sistema de MRV (Medição, Reporte e Verificação); e viabilizar o mercado voluntário e regulado, tanto nacional quanto internacional. “Este mercado já existe, é enorme, mas não vê o agro ainda como uma fonte confiável de sequestro de carbono. Queremos mostrar que o uso racional do solo pode ser a principal solução global”, comenta.

Para Giampaolo, uma das dificuldades dos agricultores brasileiros acessarem esses recursos internacionais, mesmo os que já adotam práticas sustentáveis, é justamente a capacidade de demonstrar aos gestores desses fundos que essas ações sustentáveis e adaptadoras da agricultura promovem redução das emissões e melhoram o balanço do carbono no sistema agrícola. “Esse projeto piloto, que deve desdobrar numa nova fase mais longa dando-lhe sequência, visa estabelecer protocolos e bases técnico-científicas que permitam quantificar de forma transparente e por métodos aceitos internacionalmente a redução de emissões promovida por essas ações e dar acesso aos nossos agricultores a esses fundos”, acrescenta.

Entretanto, na contramão dos desafios, o investimento nesse mercado é um novo caminho de oportunidades para quem movimentam o dia a dia do agronegócio brasileiro. Como, por exemplo, o cooperativismo. Com estruturas já enraizadas na agricultura, as cooperativas se tornam um excelente instrumento de difusão de avanços como esse. “As cooperativas serão fundamentais no nosso projeto Carbono Bayer, como referências regionais na disseminação de conhecimento e inovação aos seus associados. Temos mais de 100 dos 500 produtores que participam do projeto ligados ao sistema cooperativista. Estamos inclusive trabalhando com uma grande cooperativa nacional para acelerarmos a implantação do projeto na região em que ela atua, algo que esperamos que se concretize e que seja possível detalhar em breve”, reforça Eduardo.  

Disruptura brasileira

Um dos aspectos mais importantes da iniciativa, advinda da cooperação entre Bayer e Embrapa, é envolver efetivamente a participação dos produtores e estimular a valorização da inovação e das novas tecnologias. Como em um efeito dominó, o projeto piloto já se inicia no campo e, assim, poderá incentivar cada vez mais produtores a participarem do programa. Tornar plenamente visível os benefícios das práticas sustentáveis contribui para que o exemplo perpetue e amplie seu alcance.

Para um país como o Brasil, que deve aumentar a participação de energia limpa em sua matriz energética para 18% até 2030 e também reflorestar 12 milhões de hectares de áreas degradadas para atingir as metas estabelecidas oficialmente, há ainda muito trabalho a ser feito e uma longa jornada a cumprir, mas sem dúvidas será o poder da coletividade que irá trazer o avanço necessário.

Pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária,
Giampaolo Pellegrino

Giampaolo destaca que a relação do agronegócio brasileiro com o desenvolvimento sustentável “não se trata de uma “causa ambiental”, mas da busca de soluções e práticas que visam o equilíbrio entre as diversas vertentes da sustentabilidade, garantindo que essas atividades possam se manter de forma indefinida, ou seja, que possa se suster e sustentar indefinidamente”. Além disso, o resultado se torna mais eficaz quando impulsionado por aqueles que são a base do país. Os produtores são recompensados por sua produção e nada mais justo que serem também comtemplados por atividades conscientes. “Promover o acesso a informações, técnicas, métodos e insumos, respaldados cientificamente, é essencial. Contudo, não se deve fazê-lo baseando-se apenas em experimentos científicos e insumos caros, distantes da realidade do agricultor, mas aproximando-se dele e permitindo-lhe perceber na sua realidade, os benefícios que essas ações e práticas sustentáveis podem lhe proporcionar. O agricultor perceber que seu vizinho está adotando essas práticas e obtendo resultados e qualidade de vida muito melhores é mais convincente que uma ampla explanação técnico-científica teórica”, conclui.

Para os produtores rurais, a sustentabilidade não é uma novidade, onde muitos, inclusive, já apostam nas técnicas mais sustentáveis para aumentar a eficiência da produção agrícola. E, agora, eles também vão poder transformar as plantações em grandes aliadas da preservação do planeta.“Há muito potencial envolvido, já que os créditos de carbono podem tanto ser comprados em um primeiro momento para neutralizar as emissões de carbono do grupo Bayer, quanto logo também de outras organizações e até Governos que almejem reduzir ou zerar suas emissões de gases de efeito estufa. Estimamos que nos próximos anos será possível fazer a ponte de ao menos US$ 1 bilhão de recursos de grandes emissores — que precisam reduzir sua pegada de carbono — para as mãos dos produtores rurais”, finaliza Eduardo.


Por Fernanda Ricardi – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 96



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