Por uma sociedade mais justa e sustentável

Publicado em: 12 junho - 2020

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O impacto sustentável na sociedade toma forças para mudar o mundo

Historicamente, conflitos das mais diversas formas causaram revoluções que impactaram drasticamente países e refletiram no mundo inteiro. Um exemplo disso foi a Revolução Industrial que trouxe mudanças econômicas e sociais que construíram a sociedade que existe atualmente. Entre prós e contras, esse período impulsionou o surgimento de um movimento contra a corrente, que lutava contra a exclusão social e concentração de renda da época, o cooperativismo.

Em 1844, na Inglaterra, foi criada a primeira cooperativa do mundo – uma cooperativa de consumo formada por 28 tecelões, 27 homens e 1 mulher – foram os chamados Pioneiros de Rochdale. E, a partir daí, esse modelo socioeconômico se disseminaria e conquistaria amplitude global, mudando diversas realidades com seus princípios, convicções e essência. 

De década em década o planeta sofreu transformações e órgãos, governos e entidades tiveram que ser criados e readequados às prioridades e planejamentos em prol das novas necessidades coletivas. Quesito esse que o cooperativismo já cumpria naturalmente. E pensando nisso, foram estabelecidos, entre tantas outras determinações e metas, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas. Os chamados 17 ODS são muito falados e discutidos, mas aplicá-los na prática é um constante desafio que deve ser enfrentado e priorizado pela humanidade.  


Quando a questão é desenvolvimento sustentável global, grandes influências nacionais e internacionais já enxergam na cooperação e no trabalho colaborativo a saída para muitos problemas das populações ao redor do mundo. “O cooperativismo reduz desigualdades, promove o desenvolvimento da região que está inserido, assim como o crescimento econômico local, preocupa-se com o bem-estar e saúde de seus cooperados e empregados”, declara a jornalista e integrante da equipe de Comunicação e Projetos da FECOVINHO – Federação das Cooperativas Vinícolas do RS, Jessyca Leon Bolzan.

Com 4 bilhões de pessoas globalmente envolvidas direta e indiretamente, as cooperativas não são só aliadas dos governos democráticos para alcançar os objetivos de desenvolvimento, mas também um dos maiores movimentos sociais do mundo. “O cooperativismo promove distribuição de renda e inclusão social, contribuindo para a justiça social. Não há um movimento maior para a paz e a democracia”, reforçou o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, em pronunciamento como embaixador especial da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

Em 2018, a OCB, o Serviço Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop) e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) oficializaram a parceria que prevê o comprometimento das cooperativas com a construção de uma sociedade e economia mais justa, sustentável e equilibrada. “A ONU considera o cooperativismo uma ferramenta essencial para construir uma sociedade mais justa e sustentável. Onde uma cooperativa se instala, ali são disseminados os valores desse modelo de negócio e, o resultado disso é o fortalecimento dos direitos humanos em todos os níveis”, afirmou, durante a ocasião, Niky Fabiancic, coordenador-residente do Sistema Nações Unidas no Brasil e representante-residente do PNUD. 

O modelo de negócio das cooperativas tem como base os valores e os princípios que colocam as necessidades de seus membros acima do simples objetivo de gerar e maximizar o lucro. Por meio do fortalecimento e reinvestimento em suas comunidades, as cooperativas alimentam uma visão de longo prazo para o crescimento econômico sustentável, o desenvolvimento social e a responsabilidade ambiental. E, como acentua Rodrigues em seu artigo A segunda onda do Cooperativismo, “há tempos, o cooperativismo ressurge. Não mais como um rio fluindo entre as duas margens – capitalismo e socialismo, cada um de um lado. Mas uma ponte juntando as margens – de um lado, o mercado, e na outra margem, o bem-estar das comunidades, a felicidade das pessoas. O cooperativismo é essa ponte; é a defesa da democracia e da paz, na medida em que ele combate a exclusão e a concentração”. 

“Trabalhemos nas fortalezas das cooperativas enquanto juntamos os esforços para implementar a Agenda 2030 e assegurar que ninguém fique para trás”  

Guy Ryder, diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT)

A cooperação, a transformação e o equilíbrio são as bases do cooperativismo e aplicados na prática, fazem com que essa dinâmica chegue em locais muitas vezes inalcançados por outras organizações. “A Cooperativa gera contratação de mão de obra local, o que consequentemente movimenta o mercado financeiro da região. Da mesma forma que retorna aos cooperados as sobras do exercício anual, contribui com causas locais (7º princípio – interesse pela comunidade), gera cultura e turismo em diversas oportunidades, em sua grande maioria preocupa-se com o meio ambiente e por isso é promotora de muitas ações sustentáveis, entre outros exemplos. Existem muitos municípios que tem como sua maior empregadora uma Cooperativa. Vamos fazer o caminho inverso. Pense, qual o impacto que geraria caso uma cooperativa fechasse?”, acrescenta Jessyca Bolzan.

Considerando a relação interligada entre a visão das Nações Unidas de um futuro sustentável e a do movimento cooperativista, fica evidente que as cooperativas podem contribuir, e muito, para tornar os ODS uma realidade. Por isso, o constante alinhamento do trabalho das cooperativas a esses objetivos, contemplando as metas e indicadores que acompanharão a realização dos ODS até 2030, são de extrema importância.

A diferença entre um país desenvolvido para um país não desenvolvido está na estrutura organizacional de sua população. As decisões precisam ser tomadas por quem vai ser realmente afetado por elas e tem consciência de suas consequências. Essas que deixam de ser negativas se o pensamento seguido é o baseado na sustentabilidade. Seja em âmbito social, ambiental ou econômico, o ato de escolher ser sustentável é dar um passo à frente em direção ao futuro próspero. Dessa vez verdadeiramente para todos. 

Agenda 2030 e ODS 

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram instituídos pela ONU como um apelo universal para proteger o planeta e garantir que todas as pessoas tenham dignidade. Eles compõem a Agenda 2030, um conjunto de programas, ações e diretrizes que conduzem os trabalhos da ONU e dos países membros rumo ao desenvolvimento sustentável e à paz universal. A Agenda 2030 substitui a antiga Agenda 21, e tem um prazo para ser cumprida até o ano de 2030. 

Os ODS foram criados no Brasil, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável no Rio de Janeiro, em 2012, mas as discussões que levaram ao lançamento da Agenda 2030 – e de suas 169 metas – finalizaram em 2015, em uma reunião em Nova York dos 193 Estados-membros da ONU, com a oficialização do documento “Transformando o Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”. 

Os ODS orientam governos, empresas e sociedades para um mundo mais sustentável e servem como diretrizes para que os países superem os desafios ambientais, políticos, sociais e econômicos mais urgentes. São 17 no total: 

Crédito: Ideia Sustentável

Intercooperar para crescer 

Se o cooperativismo dialoga perfeitamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável todas as suas ramificações, variações e possibilidades fazem o mesmo. Esse é o caso da intercooperação. 

Sendo pauta recente e uma visão que pode favorecer o movimento fortalecendo seus integrantes, a intercooperação se tornou um símbolo de sustentabilidade dentro de um movimento que congrega um número enorme de pessoas. E o motivo é o fato desse princípio cooperativista representar a união de duas ou mais cooperativas que tendem a trabalhar juntas para atender com mais eficácia os seus cooperados.  

“A intercooperação caracteriza-se como um estágio avançado da cooperação.”

Jessyca Leon Bolzan

Se uma cooperativa já consegue ter um impacto transformador na região que ocupa, a junção com outras intensifica esses resultados e gera reflexos extremamente positivos para cooperados e não cooperados também. Questões como diferença de cultura organizacional e medo da perda de autonomia ainda são obstáculos que surgem quando uma cooperativa pensa na intercooperação, mas ao analisar os resultados positivos, esses pontos se tornam apenas desafios superáveis, como quaisquer outros. Escolher apostar nesse princípio gera o desenvolvimento de parcerias e alianças, novos produtos e serviços, negócios em conjunto e a percepção de novos horizontes possíveis. “Acredito que precisamos avançar ainda mais e intercooperar nas ações do dia-a-dia, como uma cooperativa agro trabalhar com uma cooperativa de médicos para atender os planos de saúde e com uma cooperativa de crédito para atender as transações financeiras, por exemplo. Ainda podemos ir mais longe, que tal a contratação de mão de obra através de uma cooperativa de trabalho? E a de transporte para a demanda de fretes? Somos hoje 7 ramos dentro do cooperativismo, temos tudo para fortalecer ainda mais o movimento”, finaliza Jessyca.

Um dos pontos mais positivos do cooperativismo é, sem dúvidas, sua capacidade de apresentar alternativas para as mais diversas realidade e necessidades. A intercooperação é um promissor caminho para ampliar o alcance desse modelo humanizado, adaptável e duradouro que impacta tanto seus componentes quanto a sociedade ao redor na mesma positiva intensidade. Afinal, não há desenvolvimento sustentável sem cooperação. Se o objetivo é a construção de um futuro próspero, as ferramentas estão dispostas e a direção universal deve ser apenas uma, a sustentabilidade.

A intercooperação na prática!

A Intercooperação nas Cooperativas Vinícolas da Serra Gaúcha

“Desde 2015, há um grupo de compras coletivas situado na Serra Gaúcha/RS, que através da união de 4 cooperativas vinícolas e uma cooperativa agrícola, vem trabalhando para gerar melhores resultados aos seus cooperados (Juntas, Cairú, Nova Aliança, São João, Pradense e Garibaldi). O grupo organiza coletivamente a compra de insumos de 1.132 cooperados (dados de 2018), o que dá mais poder de barganha ao grupo, podendo baratear os custos da compra em uma margem de 8 a 9% menor que comparado com o preço no mercado convencional. Ou seja, o cooperado ao participar deste grupo deixar de gastar este valor, resultando em mais rentabilidade na sua propriedade familiar.  Outro benefício, é a compra do insumo indicado, além do grupo comprar, ele também faz um estudo criterioso de quais produtos são melhores para manter uma boa qualidade de produção, o que resulta em mais saúde ao agricultor, meio ambiente, e também ao consumidor final, pois impacta na qualidade final do produto. É possível visualizar o tripé da sustentabilidade neste case de intercooperação? Gera mais rentabilidade ao cooperado, cuida do bem-estar social do agricultor, do meio ambiente e do consumidor final, que como consequência gera a sustentabilidade da propriedade familiar e que por sua vez propicia a manutenção das cooperativas e dá mais forçar ao movimento cooperativista”, relata Jessyca Leon Bolzan.

União de cooperativas gera intercoopração

Em 2011, a união de 5 cooperativas tradicionais do Rio Grande do Sul originou um case de sucesso. Quando as Cooperativas Aliança e São Victor, ambas de Caxias do Sul, a Cooperativa São Pedro e a Cooperativa Santo Antônio, de Flores da Cunha, e a Cooperativa Linha Jacinto, de Farroupilha, uniram suas histórias e experiências, surgiu a Cooperativa Nova Aliança.

Essa intercooperação, hoje, auxilia aproximadamente 900 famílias associadas, além de ter gerado empregos e também já ter sido premiada por seus produtos de alta qualidade. Com princípios de cooperação, desenvolvimento sustentável, qualidade e inovação, a Nova Aliança conta com 220 funcionários. Sua sede fica em Flores da Cunha e tem capacidade para processar até 60 milhões de quilos de uva por ano. (informações de plataforma Geração Cooperação).


Redação MundoCoop – Matéria publicada no Anuário Brasileiro do Cooperativismo 2020



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