Procura-se energia

Publicado em: 02 maio - 2019

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O risco de um colapso nos próximos anos pode ser evitado com uma gestão governamental competente e incentivos aos empreendedores

O desenvolvimento da economia trará o risco de novos apagões elétricos no país, principalmente porque 64% da geração e oferta de energia elétrica no Brasil depende das hidrelétricas. Uma análise nos dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aponta que a energia armazenada nos reservatórios das regiões Sudeste e Centro Oeste vem sendo reduzida anualmente e nos últimos dez anos caiu 40%. Apenas dezoito meses de estiagem, entre os anos de 2014 e 2015, foram suficientes para que muitas turbinas em usinas hidrelétricas fossem desligadas.

Segundo dados do ONS, sobre os reservatórios, desconsiderando o efeito sazonal, em média, nos últimos anos os períodos chuvosos não têm compensado o déficit.

A construção de novas usinas hidrelétricas não é algo que acontece em curto espaço de tempo. É necessário vencer obstáculos legais, ambientais e políticos, até que a usina tenha, de fato, suas obras iniciadas e algumas extrapolam o limite da razoabilidade. Apenas como exemplo, a usina de Belo Monte, levou trinta e cinco anos para que as obras pudessem ter início em 2010, a partir dos estudos iniciais da Eletronorte em 1975. O cronograma atrasou por questões legais, ambientais, indígenas e políticas. Após a liberação do Ibama em 2010 a usina conseguiu atingir a capacidade de 7,5 GW em dezembro de 2018, representando 5% da capacidade instalada no país.

Matriz energética no Brasil

A oferta de energia elétrica no Brasil para o sistema atingiu 628.000 GWh (valor médio entre 2017 e 2018), incluindo a importação de eletricidade. Além das fontes hidráulicas, que somam quase dois-terços desse total, pouco mais de 9% foram gerados a partir da utilização do gás natural, 8% provenientes da biomassa, 7% da energia eólica e 9% das demais fontes, que englobam carvão mineral, derivados de petróleo e central termonuclear. A geração solar fotovoltaica não foi significativa no período.

O consumo total de eletricidade no País atingiu 529.000 GWh sendo o setor industrial o maior consumidor com 32%, os quais incluem a parcela de autoprodução de eletricidade. Em seguida estão os setores residencial e comercial, respectivamente com 22% e 14%. Demais setores respondem por 16% do consumo e as perdas no sistema, com pouco mais de 15%.

Projeções futuras

A expansão da economia brasileira entre os anos de 2005 e 2014 fez com que o Brasil subisse vários degraus nos índices internos de consumo. Esse cenário fez com que o consumo de eletricidade saltasse de 345.000 GWh em 2005, para 475.000 GWh em 2014, um crescimento de 38% em nove anos, o que, para o setor é um índice considerável e pode gerar efeitos colaterais.

A relação do crescimento do consumo de eletricidade com a expansão do PIB é direta e, na média dos últimos anos, o consumo cresceu meio ponto percentual a mais do que o PIB. Mesmo com a crise a partir de 2015, o consumo anual de energia elétrica manteve-se acima de 460.000 GWh.

Os próximos anos, no Brasil, projetam crescimento da atividade econômica, com aumento de domicílios, retomada industrial, expansão comercial e até um grande volume previsto para vendas de aparelhos de ar-condicionado que hoje, entre os eletrodomésticos, representam 17% do consumo de eletricidade e em 2027, segundo os dados da EPE, devem ultrapassar o índice de 25%.

Segundo projeções da MA8 Consulting, é possível que o consumo total de eletricidade em 2027 alcance 650.000 GWh, um crescimento de 40% sobre os índices atuais. Dessa forma, não é impossível que tenhamos novo colapso no fornecimento de energia elétrica no País.

A atual matriz energética está comprometida por suas limitações naturais e essa situação trará novas oportunidades de negócios, com sistemas alternativos de geração de energia elétrica. É certeza que as termoelétricas trabalharão muito na próxima década, onerando as tarifas e consumindo, tanto recursos naturais como renováveis.

Investimentos alternativos

Conscientes do fato que o Brasil continuará crescendo e que o fornecimento de energia elétrica pode tornar-se um fator impeditivo, muitas empresas, condomínios e atividades essenciais vem optando por manter geradores em backup (emergência), ou até mesmo, utilizando esses equipamentos para reduzir o gasto com energia elétrica nos horários de pico, quando o custo do KWh é mais caro e assim, gerando uma economia que pode chegar até 25%.

O mercado de grupos geradores possui fornecedores e marcas consolidadas e o coração do equipamento consiste em um motor acoplado a um alternador, gerenciado por um painel de comando eletroeletrônico.

A Cummins, tradicional fabricante de motores diesel, assumiu recentemente a liderança no mercado de geradores. Segundo Luís Pasquotto, presidente da empresa no Brasil, o foco nas atividades de geração de energia é muito elevado. “Detemos atualmente, mais de 40% de participação no mercado brasileiro de geradores e continuamos investindo no negócio, no desenvolvimento do produto e na rede de distribuição e assistência. Entendemos que as formas naturais de oferta de energia elétrica no país não conseguirão atender à demanda em um futuro próximo e o mercado de grupos geradores deverá crescer ainda mais”.

José Eduardo Luzzi, presidente da MWM

De olho nesse mercado e nas oportunidades de expansão de negócios, a MWM, outra tradicional fabricante de motores diesel, acaba de entrar no setor de geração de energia, inaugurando uma linha de montagem para esse produto no Brasil. O presidente da empresa, José Eduardo Luzzi, disse que o setor de energia registra aumento da demanda de consumo e a empresa enxerga grandes oportunidades com o crescimento da economia nos próximos anos.

“Nossa estimativa é que sejam vendidos mais de 10 mil geradores de energia por ano no Brasil. O FMI elevou as projeções para o crescimento do País e o melhor desempenho da economia resultará numa alta da demanda por energia, o que, somado à falta investimentos em infraestrutura nos últimos anos, impulsionará o mercado de grupos geradores”.

A matriz energética no agronegócio

O setor agropecuário consome 5% da energia elétrica no Brasil e nele encontram-se grandes oportunidades de negócios para geração de energia própria, com entrega do excedente para a rede. É importante ressaltar que esse setor tem atuado como um hedging para a economia nos anos recentes, com sucessivas safras recordes e grandes investimentos em tecnologia, que fazem com que a produtividade em toneladas por hectare continue crescendo, ou seja, a área plantada não cresce na mesma proporção da produção de grãos, por exemplo.

Os derivados de petróleo, gás natural e carvão mineral representam 55% das fontes para geração de energia nesse setor. Contudo, está nele uma grande oportunidade para instalação de sistemas mini, micro e médio geradores de energia com fontes renováveis, mas para isso, é preciso reduzir a burocracia legal e ambiental para um nível justo e o sistema financeiro fomentar a instalação de pequenos parques eólicos, fotovoltaicos e sistemas a gás procedente de biodigestores.

Segundo Marcelo Prado, presidente da MPrado Consultoria, especializada no agronegócio, o custo da energia para o setor é bastante relevante. As oportunidades de negócios para geração existem e o setor possui enorme potencial natural de oferta de energia excedente para a rede elétrica. “É fundamental que a legislação para esse setor seja simplificada. O bagaço da cana, por exemplo, é grande fonte de geração de energia e as demais alternativas, como eólico, fotovoltaico e sistemas biodigestores, precisam de mais incentivos governamentais. Acredito que as pequenas iniciativas bem-sucedidas dos produtores rurais se tornarão referências para o setor e fora dele”, completa o consultor.

Para a MA8 Consulting Group, a atual matriz energética está condenada se não houver vultosos investimentos em todas as formas renováveis de geração de energia elétrica no país. Considera-se que investimentos em centrais e usinas hidrelétricas demoram muito tempo para colocarem em prática os projetos concebidos.

É preciso evitar um colapso no sistema de integração e distribuição. O Brasil não pode contar com a energia elétrica produzida nos países vizinhos na América do Sul, pois eles também têm seus problemas, suas demandas e projeções internas de crescimento. Investir no setor energético e na geração de energia limpa e renovável é mais que uma oportunidade de negócios é assegurar o futuro do País.


Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 87



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