Quando a motivação se esvai

Publicado em: 05 maio - 2019

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Entenda e saiba identificar a Síndrome de Burnout, enfermidade comum no mundo corporativo que pode prejudicar seriamente seu desempenho profissional

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Mais do que estar simplesmente irritada ou cansada com a carga de trabalho, uma pessoa que sofre de Síndrome de Burnout se sentirá constantemente exausta. É como se ela tivesse concepções distorcidas e muitas vezes pessimistas de si e de outros. O esgotamento profissional pode prejudicar a memória, comprometer a atenção e provocar isolamento e baixa autoestima, além de causar, em sua fase mais aguda, problemas emocionais mais severos, como a depressão.

O termo burnout, derivado do verbo inglês to burn out, “queimar por completo” ou “consumir-se”, foi cunhado pelo psicólogo Herbert Freudenberger, na década de 1970, após constatá-la em si mesmo, o qual descreveu burnout como um sentimento de fracasso e exaustão causado por um excessivo dispêndio de energia e recursos internos motivado por condições de trabalho desgastantes. No Brasil, o termo burnout é conhecido como “síndrome do esgotamento profissional”, também identificada como “sensação de estar acabado”.

Esta síndrome pode ser diagnosticada quando o alto grau de estresse envolve o ambiente de trabalho, ou seja, o burnout é traduzido como uma resposta aos estressores laborais crônicos, conforme afirma a autoridade internacional na área de stress, Marilda Lipp, psicóloga pós doutorada em stress social, e diretora fundadora do Centro Psicológico de Controle do Stress, “o que torna o burnout particular é seu caráter predominantemente ocupacional. ”

Marilda Lipp, psicóloga pós doutorada em stress social

De acordo com Ana Maria Rossi, psicóloga doutora em psicologia clínica e presidente da International Stress Management Association no Brasil (Isma – BR), associação voltada à pesquisa e ao desenvolvimento da prevenção e do tratamento de stress, 72% dos trabalhadores economicamente ativos no país sofrem com sequelas do estresse desde o nível mais baixo ao mais alto, sendo que dentro desse grupo 32% sofrem com a síndrome do esgotamento profissional. Destes, 94% se sentem incapacitados para trabalhar, mas continuam pelo medo de serem demitidos.

O esgotamento prolongado pode ser caracterizado por três dimensões. A primeira, segundo a psicóloga Ana Maria, é a exaustão, uma falta de energia e esgotamento emocional, que não se recupera com um final de semana de folga, ou férias. Ou seja, a pessoa mesmo em repouso não consegue descansar. A segunda, perpassa um sentimento de despersonalização, que é o desenvolvimento do ceticismo, muitas vezes confundida com a depressão, a pessoa se torna insensível e alienada. E, por fim, a sensação de ineficácia, caracterizada pelo sentimento de incompetência e baixa realização pessoal.

A síndrome é comum entre homens e mulheres, porém afeta-os de maneira diferente. As mulheres são mais propensas a sofrer exaustão emocional, os homens, por outro lado, tendem a experimentar mais a despersonalização, conforme aponta Marilda Lipp. Ainda segundo a psicóloga, “há risco maior em indivíduos com nível educacional mais elevado e em solteiros, viúvos ou divorciados”.

Os impactos aditivos das três dimensões do burnout implicam em consequências físicas, psíquicas, sociais, e ocupacionais afetando diretamente a qualidade de vida do indivíduo e do trabalho. Segundo pesquisa realizada pela Isma-BR (International Stress Management Association) no Brasil, 97% das pessoas que tem burnout relatam sentir exaustão, sem condições físicas e emocionais para fazer qualquer coisa, enquanto 91% dizem sofrer com desesperança, solidão, raiva e impaciência.

O esgotamento profissional torna-se cada vez mais acentuado no mundo do trabalho devido as exigências, cobranças e o estresse que excedem as capacidades físicas e mentais de seus funcionários, o que pode resultar em criatividade reduzida, perda de foco, desorganização, baixa produtividade e até mesmo alta rotatividade.

Fatores de risco 

Qualquer um que esteja continuamente exposto a altos níveis de estresse pode experimentar burnout, independentemente da idade, sexo ou atividade profissional. Porém há alguns fatores de risco, como é o caso de pessoas com traços de personalidade perfeccionista, empática e altruísta, ou pessimista. A Pós Doutorada em Stress Social destaca ainda outras características que podem estar associadas a maiores ou menores índices de burnout, tais como, “indivíduos competitivos, esforçados, impacientes, com excessiva necessidade de controle das situações, dificuldade em tolerar frustração”.

Pessoas com um descompasso entre a vida profissional e pessoal também apresentam maior probabilidade de se esgotarem rapidamente. Além disso, ambiente de trabalho excessivamente competitivo, equipe hostil, carga de trabalho extenuante, aumento das demandas sem benefícios proporcionais, falta de reconhecimento ou feedback e perda de confiança na liderança podem contribuir significativamente para o aumento do risco de esgotamento profissional.

Outro fator de risco importante é a falta de envolvimento do funcionário com a tomada de decisão, o qual ao se sentir obrigado a sempre dizer sim para aquelas tarefas as quais não se sente qualificado, seja por destoar dos seus valores morais e éticos, ou seja por medo de perder o emprego, deixa de respeitar os seus próprios limites e passa a ver o trabalho com as lentes do pessimismo.

Segundo Ana Maria, dois fatores são determinantes para expressar a possibilidade de uma ou outra pessoa em um mesmo ambiente de trabalho, isto é, em condições similares de estresse, que envolvem pressões e exigências, desenvolvam ou não a síndrome de burnout, são elas: a capacidade de resiliência e o grau de satisfação no trabalho, “a pessoa que se sente satisfeita no trabalho e gratificada dificilmente chegará a desenvolver burnout” destaca a psicóloga.

As principais diferenças entre estresse e bornout

A linha entre estresse e burnout é tênue e muitas vezes difícil ver onde um termina e a outra começa. Conhecer a diferença é fundamental para gerenciar cada um de forma eficaz.

O estresse refere-se a uma resposta adaptativa a qualquer tipo de demanda causada por circunstâncias adversas. Já burnout refere-se a um estado de esgotamento mental ou emocional, que resulta da exposição prolongada ao estresse.

Segundo Ana Maria, “estresse é a adaptação requerida a um indivíduo”. Em geral, o estresse parece negativo, mas também tem uma dimensão positiva. Quando o estresse é positivo, é conhecido como eustresse. O nascimento de um filho, uma promoção desejada no trabalho são exemplos de estresse positivo. Diz-se que o estresse é negativo, ou distresse quando está relacionado a uma demissão indesejada ou a perda de um familiar, por exemplo.

“Se as adaptações são muito frequentes e prolongadas corre o risco de adoecimento”, como é o caso da síndrome de burnout, que não tem nada de positivo, descrito pela psicóloga como “um nível de estresse devastador”. Portanto, em sua empresa, é fundamental não confundir estresse com síndrome do esgotamento profissional não são sinônimos e requerem tratamentos diferentes.

O que pode ser feito

Qualquer pessoa é suscetível ao burnout no local de trabalho e, se por um lado o estresse pode ser inevitável, por outro lado o esgotamento é evitável. Portanto, tanto os funcionários como os gestores podem tomar medidas para superar as condições que levam a exaustão.

A especialista Ana Maria dá algumas dicas para evitar a síndrome: ter consciência de seus próprios limites, focar em um ou mais aspectos positivos no trabalho, nutrir seu lado criativo, levar um estilo de vida saudável, praticar bons hábitos de sono e alimentação, diminuir o consumo de álcool e cafeína, praticar atividade física, cultivar o networking (família, amigos), ter um hobbie, e escolher pelo menos uma técnica de relaxamento.

“Quando o gestor é antenado, se importa com sua equipe, demonstra preocupação em ouvir os colaboradores e não apenas os vê como mais um na empresa, as pessoas tendem a sentir-se mais apoiadas e amparadas. Atitudes simples assim já minimizam riscos de se contrair a enfermidade”, afirma a psicóloga Ana Maria.


Texto Marcela Langer Noschang

Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 87



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