Quase da idade do Brasil

Publicado em: 07 outubro - 2019

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Cultivada desde o início da colonização do País, a cana-de-açúcar é sustentável e vital para a economia brasileira

O cultivo de cana-de-açúcar é o mais antigo registrado pelos colonizadores no Brasil. Desde 1530, quando os portugueses começaram a se fixar em terras brasileiras já começaram com as lavouras de cana-de-açúcar nas regiões litorâneas, com destaque as capitanias de São Vicente (no litoral paulista) e Pernambuco. No Século 16, esse gênero agrícola era um dos produtos mais importantes da economia do País.

O Brasil além de possuir dimensões continentais é rico em terras agrícolas, com aproximadamente 330 milhões de hectares de áreas aráveis, equivalente à 38,8% de sua área total. Em 2018, cerca de 8,66 milhões desses hectares de cultivo foram dedicados às plantações de cana-de-açúcar segundo dados do IBGE e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A cana-de-açúcar é a terceira maior atividade agrícola em termos de área de produção e de valor bruto produzido, perdendo apenas para soja e milho. 

O País oferece clima propício para cultivar cana-de-açúcar com ótimo rendimento – clima quente e úmido, boa quantidade de chuvas regulares e de iluminação. Essa gramínea perene, nativa das regiões tropicais da Ásia e da Nova Guiné, é rica em água (74,50%), fibra (10%), e sacarose (12,50%). Os outros 3% são outros ingredientes orgânicos. 

A cana-de-açúcar é uma planta de múltiplas aplicações e dela pode se aproveitar literalmente tudo, embora o seu uso na produção do açúcar e do álcool sejam os mais conhecidos, dessa planta pode ser reaproveitado até o bagaço, que serve para alimentar as usinas do setor gerando energia elétrica. Mas a sua versatilidade não para por aqui, além disso, do bagaço é possível fabricar um polímero para produção de bioplástico (sustentável, não?).

O Brasil é de longe o maior produtor de cana-de-açúcar e o maior exportador de açúcar do mundo, exportando principalmente para os Estados Unidos, Europa e Rússia, e o principal país do mundo a implantar, em larga escala, um combustível renovável alternativo ao petróleo – o etanol. Além disso, a maior cooperativa do mundo de açúcar e álcool também fica aqui, é a Coopersucar, criada em 1959, em São Paulo, e hoje é praticamente uma multinacional com operação em todo o mundo. 

Nos seus 60 anos de atividade, a companhia atingiu o número de 34 usinas operando nos estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. A cooperativa também foi responsável por 15% do açúcar exportado pelo Brasil, equivalente a 7% do comércio mundial.

História

Quando os portugueses chegaram aqui com a planta de cana, em 1530, já havia plantações em Cabo Verde, nas ilhas dos Açores e da Madeira, todas introduzidas por Portugal. 

Como os descobridores não sabiam exatamente o tamanho do Novo Mundo, decidiram dividi-lo e explorá-lo. O Tratado de Tordesilhas foi um acordo entre Portugal e Espanha, que determinou uma linha imaginária que separava as partes do continente para os dois países: a oeste da linha, as terras pertenciam à Espanha; para o leste, para Portugal.

Para administrar sua parte, Portugal dividiu o Brasil em 15 capitanias hereditárias, partes da terra que iam da costa até a linha estabelecida no Tratado de Tordesilhas. Cada uma dessas partes foi dada aos membros da aristocracia portuguesa, que deveriam gerenciá-los. De todas as capitanias, apenas Pernanambuco (no Nordeste) e São Vicente (no Sudeste) prosperaram, devido à plantação de cana-de-açúcar nas usinas de açúcar.

A cana se deu tão bem em solo brasileiro que em pouco tempo, o Brasil se tornou o maior produtor de açúcar do mundo. Em meados do século XVII exportava para todo o mundo. Depois perdeu sua posição por muitas décadas, reconquistando-o desde a década de 1970, quando o governo criou o ProÁcool ou Programa Nacional do Álcool.

Em novembro de 1975, o ProÁcool foi criado para promover o uso do álcool da cana-de-açúcar como combustível alternativo para automóveis. O uso do etanol (que é o nome desse combustível à base de álcool) começou logo após a Crise do Petróleo em 1973, quando os preços do petróleo quadruplicaram. Desde então, a produção de cana-de-açúcar cresceu muito rápido no Brasil e, na safra 1976/1977, já atingia 100 milhões de toneladas por ano.

Últimas safras 

Considerando a safra anual como correspondente ao período de abril a março, na safra 2017/2018, foram 633,26 milhões de toneladas  de cana produzidas em quase todo o País. A safra 2018/2019, está estimada em 620,4 milhões de toneladas, o que corresponde a uma redução de 2% em relação à safra anterior, segundo os dados levantados pela (Conab). 

Esse decréscimo de quase 10 milhões de toneladas na produção e de 8 milhões de toneladas na quantidade exportada em relação a temporada 2017/2018, justifica-se pelo baixo nível de preço da commodity nos últimos dez anos, decorrente do excesso de oferta de açúcar no mercado mundial influenciada diretamente pela produção subsidiada em grandes países produtores que respondem por cerca de 30% da oferta global (170 milhões de toneladas).

Na estimativa da Archer Consulting, realizada em abril deste ano, a previsão para a safra 2019/2020 de cana-de-açúcar no Centro-sul do Brasil é de 572 milhões de toneladas, representando 1,06% aumento em relação à safra passada (566 milhões de toneladas). 

Açúcar e Álcool em 2018/2019

De acordo com levantamento final da safra de cana-de-açúcar 2018/2019 realizada pela Conab, a despeito da retração na produção total de cana nessa temporada, houve alta na produção de etanol o que corresponde a 3,58% ante a safra anterior (2017/2018 – 25,42 bilhões de litros). O combustível renovável alcançou 33,14 bilhões de litros, registrando aumento de 21,7% ou de 5,9 bilhões de litros. Deste total, 9,56 bilhões de litros foram de etanol anidro, 13,1% a menos que na temporada passada, e 23,58 bilhões de litros de etanol hidratado, 45,2% a mais que no ciclo anterior. 

Foram comercializados 30,61 bilhões de litros de etanol carburante pelas usinas e destilarias brasileiras, aumento de 20,44% sobre àquele apurado no ciclo agrícola 2017/2018 (25,42 bilhões de litros). Desse total, 21,43 bilhões de litros de etanol hidratado foram comercializados, com aumento de 39,71%. Em sentido contrário, a comercialização de etanol anidro correspondeu 9,18 bilhões de litros, diminuiu 8, 88% em comparação ao ciclo anterior. 

Desde o início do ciclo (2018/2019) até o último dia do mês de abril, foram 29,04 milhões de toneladas de açúcar, correspondendo a um decréscimo de 23,3% em relação aos últimos dados da safra 2017/2018. A baixa dos números se deu em grande parte pela desvalorização da commodity, mas também pela devolução de terras arrendadas e por problemas climáticos. O clima afetou lavouras e diminuiu a produtividade especialmente nas regiões Sudeste e Sul. 

Pelo levantamento da Conab, o aumento na produção de etanol na safra deveu-se, principalmente, à queda de preços do açúcar no mercado internacional e a um cenário mais favorável para o etanol no mercado interno, frente à alta do dólar e do petróleo. 

Cana-de-açúcar sustentável no Brasil

O uso da cana-de-açúcar como produto sustentável para energia limpa e renovável e para a redução do impacto ambiental em plásticos empurra a demanda global para novas alturas a cada ano. A cana-de-açúcar é uma solução ideal para reduzir as emissões de carbono porque consome mais carbono do que é emitido durante o processamento. Isso cria, no mínimo, um impacto de carbono zero e, em muitos casos, provoca um efeito de carbono negativo no ambiente.

Isso levou a um aumento na demanda por etanol e plásticos à base de cana-de-açúcar, também conhecido como bioplásticos. Em 2011, a Braskem, empresa líder mundial na produção de biopolímeros e a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, lançou no mercado as primeiras embalagens plásticas de polietileno derivadas dessa planta, ou chamado plástico Verde I’m greenT. Cada tonelada dessa resina renovável exige 27,5 toneladas de cana para ser produzida. Um dos principais produtores de cana-de-açúcar sustentável é o Brasil.

Um benefício da produção de cana-de-açúcar nesta terra é que o País tem sido capaz de substituir quase 43,2% do seu consumo de gasolina por etanol limpo e renovável, segundo cálculos da DATAGRO, empresa de consultoria agrícola. O impacto das colheitas na terra e na água locais é uma consideração importante para aqueles que desejam ser altamente sustentáveis, e alguns ambientalistas acreditam que é o tratamento das terras agrícolas e da água que determina o efeito sustentável líquido.

Certificação e sustentabilidade

A Associação Brasileira da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) é membro do Conselho de administração da BONSUCRO (Better Sugarcane Initiative) – a iniciativa Better cana – que é uma ação global sem fins lucrativos dedicada à redução do impacto ambiental da produção de cana-de-açúcar. Atualmente, a BONSUCRO tem mais de 480 membros globais. E, como membro, o Brasil concordou em mensurar com precisão o impacto de sua produção de cana-de-açúcar e relatar dados como parte de seu processo de certificação.

Na Global Reporting Initiative (GRI), uma organização internacional que ajuda empresas, governos e outras instituições a compreender e comunicar o impacto dos negócios em questões críticas de sustentabilidade, o compromisso do Brasil com a transparência e a melhoria contínua provaram ser componentes chave na classificação da indústria de cana-de-açúcar do País. Em 2010 a GRI concedeu ao Brasil uma classificação a +, a mais alta qualificação possível.

Erosão do solo

Comparado a outros países, a erosão do solo nos campos de cana-de-açúcar no Brasil tem sido baixa. A cana é altamente sustentável porque normalmente só precisa ser replantada uma vez a cada seis anos.

Além dos atributos naturais sustentáveis da planta, as práticas agrícolas no Brasil agregam à sua sustentabilidade. Por aqui, os agricultores utilizam vários elementos estratégicos para produzir cerca de 80 toneladas de produto por hectare. Estas estratégias sustentáveis incluem: sistemas de plantio direto, rotação de culturas, adubação verde por plantio de culturas de cobertura, uso de palha de cana-de-açúcar remanescente para cobertura do solo após a colheita mecanizada, uso mínimo da água.

O Brasil tem o clima perfeito para o crescimento dessa planta. Na região Centro-Sul do Brasil, a cana-de-açúcar geralmente não é irrigada porque há chuvas mais do que suficientes em um ano típico para hidratar as plantas.

À medida que a água responde por dois terços do peso da cana-de-açúcar, o benefício de usar a água da chuva para crescer aumenta consideravelmente a sustentabilidade dos produtos à base de cana.

Isto ajuda a reduzir a quantidade de água utilizada no processo de usinagem. De fato, as usinas brasileiras de cana-de-açúcar utilizaram 70% menos água nos últimos 20 anos do que anteriormente e este é outro benefício de sustentabilidade. Além disso, cerca de 95% da água utilizada pelas usinas no Brasil é posteriormente tratada e reutilizada no processo industrial. O objetivo de cada moinho é eliminar a descarga de água inteiramente.

Versatilidade da cana-de-açúcar 

O vasto mercado global de derivados de cana-de-açúcar mantém a indústria em expansão. O açúcar é predominante na dieta moderna e cada vez mais uma fonte de biocombustíveis e bioplásticos. Isso faz com que seja uma cultura economicamente valiosa. Como os preços do petróleo sobem, há um mercado crescente de etanol a partir da cana-de-açúcar. 

Além disso, estima-se, em 2050, que a população global deverá passar dos atuais 7,7 bilhões para 9,7 bilhões. Logo demandas globais de energia dobrarão durante esse tempo e o mundo vai depender muito da cana-de-açúcar do Brasil e de outros provedores sustentáveis ainda mais do que hoje.


Por Mauro Cassane – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 89



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