Sua organização está preparada para a juventude?

Publicado em: 09 setembro - 2020

Leia todas


As mudanças no mercado de trabalho têm redirecionado demandas profissionais e oportunidades para novas gerações

Grande familiaridade com a tecnologia, fácil adaptação e pluralidade cultural são características essenciais para qualquer cenário de coletividade, mas, principalmente, fundamentais dentro do ambiente de trabalho. Elas, por sua vez, são muito comuns e prevalecentes em um grupo que está ocupando um espaço cada vez maior na sociedade: os jovens. Mas como o mercado de trabalho tem se relacionado com essa nova geração?

A geração z é definida como aquela formada por pessoas que nasceram entre, aproximadamente, 1990 e 2010 e possuem o imediatismo, espírito empreendedor e uma vontade constante de melhorar o mundo em seu DNA. Porém, por mais que congreguem essas e muitas outras qualidades, essa juventude ainda precisa vencer os desafios que surgem e impactam suas – atuais e futuras – carreiras.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego entre os jovens brasileiros de 18 a 24 anos de idade ficou em 27,1% no primeiro trimestre de 2020, bem acima da média da população geral de 12,2% no país. Agora, a pandemia provocou uma piora no cenário e, segundo dados da LCA Consultores, a taxa de desemprego desse público deve crescer para 38,8% no terceiro trimestre deste ano. Se a projeção se confirmar, 7,9 milhões de pessoas de 14 a 25 anos estarão nas ruas em busca de trabalho.

Ricardo Sales, sócio-fundador da consultoria Mais Diversidade

Esse panorama não tão positivo advém de vários fatores sociais e econômicos do país que se intensificaram com a crise fruto da pandemia. Entretanto, iniciativas de empresas e organização vem crescendo continuamente para auxiliar e criar oportunidades para esses jovens que, uma vez dentro do ambiente institucional, geram benefícios para ambas as partes.

Geração conectada

Desde os anos 70, a discussão sobre diversidade e inclusão tem acontecido dentro de empresas americanas e, no fim dos anos 90, começa a adentrar também as organizações brasileiras.  Entre todos os temas que esse debate contempla, a diversidade geracional e a necessidade de olhar para as especificidades de cada uma das gerações ganhou intenso foco. 

Para o sócio-fundador da consultoria Mais Diversidade, a maior da América Latina em sua área de atuação, Ricardo Sales, a questão geracional já vem influenciando o ambiente de trabalho que é ocupado por diferentes gerações e que, muitas vezes, se encontram coexistindo e não realizando uma verdadeira troca. “A convivência intergeracional é um dos maiores desafios das organizações hoje, onde nós temos pelo menos 4 gerações atuando juntas. Essa convivência gera valor na forma de inovação e melhores relacionamentos, mas demanda um envolvimento com projetos de diversidade e inclusão e atenção para que a cultura da empresa ou organização seja de fato inclusiva para todas as pessoas”, acrescenta.

Definitivamente, a pandemia foi um marco de transição dos séculos e acelerou muita coisa que estava em processo de adaptação dentro das organizações e das cooperativas. Sobretudo, ao que diz respeito as novas formas de relacionamento e interação social impulsionando, também, uma verdadeira reflexão baseada na cooperação.

Tiago Schmidt, Presidente da Sicredi Pioneira RS

Para o presidente da Sicredi Pioneira RS, Tiago Schmidt, todo mundo teve que embarcar nessa mudança para manter seus negócios vivos e isso vai proporcionar sim uma participação efetivamente maior dos jovens no mercado de trabalho. “No meu entendimento, os melhores jovens serão imediatamente absorvidos pelo mercado e as cooperativas deveriam estar muito atentas para trazer eles para dentro para que, assim, possam trazer também questões comportamentais que certamente vão contribuir com uma nova cultura. Uma cultura de inovação, uma cultura de resultado por propósito e uma cultura de respeito às diversidades. Isso vai ser um ganho incalculável para o cooperativismo como um todo porque essa mudança vai possibilitar a entrada do movimento em novos mercados no cenário brasileiro”, comenta.

Essas novas dinâmicas sociais também trouxeram consigo, indiscutivelmente, uma inserção que se tornou definitiva para o mundo corporativo, a da tecnologia. Justamente o aspecto dominado naturalmente pelas gerações mais novas. Tanto para o cooperativismo quanto para as empresas em geral, ter a compreensão mais ampla dos ecossistemas de comunicação associados a internet e aprimorar competências afim de alcançar um mindset digital deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade atual e muito real. Para Ricardo, ultimamente, a tecnologia tem estimulado a criação de uma série de novos empregos no Brasil, porém a pergunta que tem que ser feita é: quem tem ocupado essas funções? “A tecnologia tem um potencial muito grande, mas é importante que todos nós, enquanto sociedade, façamos a preparação de todas as pessoas para que elas possam usufruir de fato daquilo tudo que a tecnologia traz de bom”, reforça.

Assim como todas as coisas, essa onda tecnológica tem pontos benéficos que devem ser valorizados e pontos que ainda precisam ser levados em consideração. “A tecnologia pode trazer uma série de consequências positivas, mas ela também tem trazido uma gig economy que criou postos de trabalho que não garantem direitos e oportunidades iguais para essa geração. Não podemos mascarar a precarização do trabalho”, complementa Ricardo.

*Gig economy é o conceito que engloba as formas de emprego alternativo, que vão desde a prestação de serviços por aplicativo ou o trabalho de freelancers, por exemplo.

Conduzindo carreiras

Alguns modelos de negócios, como o cooperativismo, já têm em sua cultura uma tendência maior de inserir a diversidade dentro de suas organizações. Porém, ainda assim, estão passando por um processo onde precisam se reinventar e se adequar as demandas, principalmente, do público jovem. No entanto, como as cooperativas estão planejando delinear essas novas realidades?

Em linhas gerais, o cooperativismo, e a própria Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), tem se esforçado para colocar essa pauta nas cooperativas, mas ainda há um longo caminho pela frente. “A nova geração não quer mais participar apenas de canais passivos, mas sim de programas de duas vias, onde possa expressar sua opinião, colocar sua voz, mostrar seus pensamentos e, principalmente, ter atitudes e eu acho que esse é o maior desafio apesar do cenário ser plenamente favorável. Os jovens vêm na busca de empresas, organizações e entidades que entreguem de fato um propósito sólido, mais social e humanitário e de fato preocupado com as pessoas, sem deixar o viés econômico de lado. As cooperativas entregam isso, mas precisam entender como funciona a cabeça desse jovem e possibilitar a ele programas que de fato proporcione uma participação efetiva”, conclui.

Na visão de Gabriel Feitosa, que é Jovem Aprendiz na Sicredi Sul MT, características como uma cultura organizacional bem definida, receptividade com a diversidade de opiniões, oportunidades de protagonismo e um espaço de aprendizado constante e mútuo são importantes dentro de uma empresa ou organização que quer se destacar em meio as novas demandas profissionais. “Acredito que o cooperativismo tem espaço para o jovem e é um modelo de negócio superatrativo e jovial. O jovem quer isso. Um lugar onde ele se sinta parte e se sinta uma peça importante para o desenvolvimento da empresa ou da cooperativa. Onde ele não é só uma pessoa que realiza processos, mas uma pessoa que é levada em consideração na hora do planejamento. E penso, também, que toda cooperativa pode sim ser ou se tornar um espaço de relevância para os jovens que estão iniciando sua carreira de trabalho”, acrescenta. E, adentrando esse ponto em específico, Thiago também faz questão de destacar que “todos querem fazer parte, mas fazer parte com ações é o que cria engajamento”.

Em meio as mudanças irreparáveis, preparar a juventude para as novas carreiras, tem que ser uma escolha enquanto sociedade, garantindo para esse jovem, independentemente da raça, classe social ou gênero, ter acesso a empregabilidade e ao desenvolvimento de competências associadas a esse mundo emergente. “Eu acredito que a diversidade precisa ser trabalhada antes de ser exercida. Antes de pensarmos em inclusão e diversidade, nós precisamos olhar para o que já temos e alcançamos. Será que os colaboradores que eu já tenho se sentem recebidos e se sentem ouvidos? O tema da diversidade precisa ser trabalhado e promovido entre os colaboradores para que eles entendam do que se trata e porque é importante na cooperativa. Todos precisam estar familiarizados ou vamos ter uma única frente, que muitas vezes é a área de gestão de pessoas, focada nisso”, reforça Gabriel.

Entre teoria e prática, desafios e conquistas, uma coisa é fato, a diversidade está associada ao próprio futuro não só da sociedade, mas das organizações. “Não haverá futuro sem diversidade. Uma empresa que ainda não está atenta a essa pauta já ficou para trás, só não percebeu ainda. É fundamental que as empresas se envolvam com essas ações para dar conta das assimetrias e desigualdades que a gente ainda enfrenta em sociedade. Mas além disso, é um tema que traz uma contribuição muito significativa nos resultados, ou seja, uma empresa que olha para essas temáticas, é uma empresa que vai ter resultados melhores em termos de inovação, engajamento e produtividade, entre outros tantos aspectos”, finaliza Ricardo.

Jovens no mercado

“Acredito que o cooperativismo é um agente de mudança e impulsionamento para que haja maior acessibilidade e inclusão dos jovens no mercado de trabalho. Sinto que no meio cooperativista não somos apenas números para “cumprir tabela”, mas profissionais com potencial tamanho! Outro ponto que corrobora para esse meu pensamento é o fato de que em quase 100% dos casos os Jovens Aprendizes ou Estagiários são efetivados nas cooperativas, isso me brilha os olhos, pois deixa evidente o quanto o cooperativismo é sim uma ótima escolha para início e consolidação de carreira. Para nós, jovens, ver outros jovens em espaços de liderança e espaços de protagonismo é muito especial. É ter ali uma prova de que você também é capaz de alcançar aquilo e ter suas qualidades e afinidades valorizadas”Gabriel Feitosa, 17 anos, Jovem Aprendiz em Gestão de Pessoas na Sicredi Sul MT.


Por Fernanda Ricardi – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 95



Publicidade