Cooperativismo: Tendências e ideias para 2020

Publicado em: 17 março - 2020

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Lideranças e especialistas projetam um ciclo financeiro mais inovador e virtuoso sem que o segmento abra mão das suas raízes

O cooperativismo brasileiro está confiante em um 2020 promissor. O universo de 6,8 mil associações, cujo patrimônio é estimado em R$ 351 bilhões pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), tem manifestado otimismo com a recuperação econômica do País, nos mais diversos canais de comunicação. A maior atenção com a profissionalização, a capacitação e gestão de pessoas e processos, em todos os níveis da cadeia produtiva e de valor é notória. A manutenção dos princípios democráticos, do desenvolvimento sustentável e da devolução de valor às comunidades ainda são pressupostos básicos a serem perseguidos.

MundoCoop ouviu lideranças e especialistas em cooperativismo que ressaltam: as estratégias integradas de valorização do modelo de negócio perante o Governo Federal, o Congresso Nacional e a sociedade são imprescindíveis. As destinadas à segurança jurídica, regulatória e de comunicação precisam avançar para a maior competitividade em relação à concorrência.

O entendimento, em linhas gerais, é de que os lançamentos e melhorias em produtos e serviços, os investimentos em logística e no incremento tecnológico, e o melhor aproveitamento de recursos do ambiente digital e das oportunidades de relações humanizadas são indispensáveis para as cooperativas. A diversificação para evitar dependências de lucratividade em momentos de alta volatilidade, a intensificação das transações por e-commerces, das vendas ao exterior e até mesmo o desenvolvimento de moedas próprias estão entre as tendências e ideias para um período de maior rentabilidade de longo prazo.

A seguir confira os depoimentos de quatro convidados de Mundocoop que nos ajudaram no desenvolvimento dessa matéria.


“Por reconhecimento do poder público ao empreendedorismo coletivo”

Marcio Lopes – Presidente da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB)

Nossa expectativa para 2020 é crescer! Com vontade e muito foco, poderemos ser mais criativos, inovadores e encontrar as melhores soluções para problemas do mercado. O nosso papel, ao lado da Frente Parlamentar do Cooperativismo (Frencoop), é continuar atuando junto aos Três Poderes para garantir um ambiente regulatório seguro. A Frente Parlamentar contribui muito com a ampliação dos nossos canais de interlocução com o Governo Federal. Nas diversas interações com equipes de ministérios e de agências reguladoras é possível mostrar os diferenciais do nosso modelo de negócios, bem como as necessidades e possibilidades das cooperativas brasileiras.

Nós costumamos dizer também que as cooperativas buscam constantemente a melhoria da própria gestão. É algo que faz parte do DNA delas. Além do mais, o mercado exige isso. Já o Sistema OCB (formado pela OCB, Sescoop e CNCoop) apoia as cooperativas com programas, treinamentos, cursos, eventos e premiações, de acordo com as demandas.

A sucessão é outra demanda urgente. Por isso, usamos estratégias de comunicação que atraiam os jovens. Temos além do Movimento SomosCoop, os Jovens Embaixadores Coop e, ainda, os Jovens Líderes. Programas que estimulem a formação de lideranças dentro desse público, e claro, a participação deles nas cooperativas.

Ser cooperativista é justamente isso, querer empreender, buscar espaço, trabalhar de forma autônoma, estar inserido na sociedade, tanto econômica quanto socialmente, mas não sozinho. É acreditar no empreendedorismo coletivo, que dá força ao modelo de negócio cooperativo. Várias pessoas trabalhando pelo mesmo objetivo, para prosperarem juntas.


“Inovação em startups, no banco de dados e nas remunerações”

Orestes Pullin – Presidente da Unimed do Brasil

O cooperativismo é uma alternativa para melhorar a situação da saúde no Brasil e importante força diante de cenários de instabilidade econômica. O modelo brasileiro é reconhecido mundialmente e parte vital da saúde suplementar. A Unimed é embaixadora do movimento SomosCoop, da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), que visa fazer o cooperativismo ainda mais conhecido e reconhecido pela sociedade. Nós trabalhamos para que as federações e singulares façam o mesmo em suas regiões, alcançando seus próprios clientes e cooperados.

Nesse sentido, estamos certos de que o alinhamento com novas ferramentas e tendências marcará os próximos anos. Desde o início deste ano, o Sistema Unimed conta com o Unimed Lab, em São Paulo, para reunir as equipes de nossas cooperativas, integrar projetos e demandas e conectá-las com hubs de tecnologia, startups e universidades ligadas, principalmente, à saúde.

Nós fortaleceremos, também, a implantação do Registro Eletrônico de Saúde (RES), que suporta toda a base de dados clínicos dos beneficiários Unimed, envolvendo questões técnicas, de governança clínica e jurídicas que atendam às normas de confidenciabilidade, individualização e segurança de dados.

A otimização da gestão também estará na pauta, com a adoção de novos modelos de remuneração, como o DRG (Grupo de Diagnósticos Relacionados), e o foco na inserção da Atenção Primária à Saúde na cadeia assistencial.

Neste sentido, entendemos que seguir inovando seja o grande caminho para não só garantir a sustentabilidade econômica do sistema cooperativista como, também, mantermo-nos fiéis aos princípios que o norteiam.


“Maior inclusão social favorece as cooperativas de crédito”

Marcela Rocha – Mestre em Economia pela Insper e economista-chefe da Claritas Investimentos

Após o fim da maior recessão da história brasileira, o crescimento doméstico e o PIB cresceram cerca de 1% nos últimos três anos. No entanto, as condições econômicas atuais permitem uma aceleração de 2,2% do PIB, em 2020, e 2,7%, em 2021. Devido ao baixo patamar da taxa de juros, atualmente em 4,25%, os canais de crédito devem ser o motor deste movimento.  O cenário favorável é acompanhado de inflação controlada, expectativa de trajetória declinante da dívida bruta e continuidade da agenda de reformas do Governo Federal.

Logo, o ambiente de estabilidade macroeconômica possibilita maior inclusão social, traz ganhos para o ambiente de negócio e favorece as cooperativas de crédito. Elas possuem grande possibilidade de expansão devido à agenda favorável do Banco Central. A autoridade monetária reconhece a importância das cooperativas para fomentar o crédito e busca uma agenda que viabilize o crescimento das cooperativas.

Há abertura para as cooperativas de crédito captarem recursos de fontes diferentes, como poupança para o financiamento imobiliário, poupança rural e LIGs.  As cooperativas participam ainda de um movimento de “desbancarização” e o surgimento de “fintechs”. A rede de cooperativas pode ser empregada como um instrumento de humanização e distribuição de fundos, inclusive, em regiões com presença tímida de bancos tradicionais. É preciso investir também na atuação digital.


“Cooperativas terão suas próprias criptomoedas”

Arthur Igreja – TEDx speaker e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Especialista em Inovação, Tecnologia e Negócios

Há alguns anos ouço falar em economia compartilhada como uma solução significativa, uma tendência. Ela nada mais é do que o cooperativismo. É como se houvesse isso somente no Vale do Silício (ironia). Quem está no universo do cooperativismo sabe. Quem está fora não. Vejo aqui uma oportunidade imensa para a disseminação do cooperativismo, sempre preocupado na devolução de valor às comunidades.

Penso que as cooperativas agrícolas  seguirão desenvolvendo seu potencial incrível de negócios, inclusive exportando mais. Já as de crédito têm campo para se beneficiar do fechamento dos bancos, dada a migração dos serviços para o ambiente digital. A necessidade de crédito é evidente quando se tem o desemprego alto, bem como de relações humanizadas. Há quem já seja referência de mercado.

A incorporação da tecnologia às operações está evidente nas cooperativas. O gap em relação às empresas tradicionais vem sendo encurtado. Já está superado em boa parte dos casos.

Tenho comigo que as cooperativas vão despertar no futuro para os chamados blockchains, bitcoins e outros. Haverá uma revolução das cooperativas acerca do poder, do fluxo financeiro e de valor a partir de suas próprias criptomoedas. Imagine membros de cooperativas destinando recursos em suas próprias comunidades, em postos de gasolina, mercados e outros estabelecimentos… O marketing e a inovação passam pela diferenciação. Há bons caminhos pela frente.


Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 92



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