Novos modelos de indústria e sociedade que podem favorecer empresas brasileiras

Publicado em: 22 março - 2019

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Empresas no Brasil podem se beneficiar com a Indústria 4.0 e se inspirar com a Sociedade 5.0 sem necessariamente precisar fazer altos investimentos.

De alguns anos para cá o novo ambiente social e corporativo tornou-se repleto de nomes e termos que, há pouco mais de uma década eram coisas de ficção científica. Big data, inteligência artificial, machine learning, equipamentos autônomos, Indústria 4.0, criptomoedas, blockchain, aplicativos de gestão a distância. Coisas que estão presentes no dia a dia e fazem muitas pessoas sentirem-se analfabetos digitais.

Desmistificando um pouco tudo isso e sem entrar nos detalhes de cada uma dessas tecnologias, é fato que esse novo mundo não é algo apenas ao alcance de uma privilegiada geração digital.

Empreender é não ter medo do novo, aproveitar momentos e enxergar oportunidades naquilo em que a maioria das pessoas veem barreiras. A inovação é parente próxima do empreendedorismo e por meio dela as pessoas buscam novos métodos de fazer as coisas.

No mundo 4.0 não há nada novo nas leis da Física que estiveram presentes até aqui. A tecnologia apenas desenvolveu novas formas de atender necessidades. Bem, é verdade que algumas necessidades não existiam antes e vieram à tona com a evolução da comunicação. Um aparelho smartphone possui, hoje, mais memória e capacidade de processamento de dados do que um computador, que na década de oitenta ocupava uma sala inteira. Como efeito colateral o dia ficou mais curto. Surgiu então a necessidade de otimizar o tempo e a mobilidade. Com ela, os aplicativos que permitem às pessoas, fazerem quase tudo a distância.

Muitas das novas tecnologias ainda enfrentam dificuldades para serem implementadas no Brasil. Deficiência em logística e infraestrutura certamente atrasarão o País na corrida do mundo 4.0 e os equipamentos e veículos autônomos são um bom exemplo de um futuro que chegará primeiro em países mais desenvolvidos.

O empreendedor no Brasil verá grandes oportunidades, enquanto o pessimista ficará a lamentar esse atraso.

Esses novos conceitos baseiam-se em duas colunas de sustentação, indissociáveis: ferramentas de comunicação e conectividade plena.

Olhando por um lado otimista, o Brasil possui sistemas de comunicação e conectividade avançados. Então, está presente um ambiente que possibilita empresas no País, de todos os setores, participarem desse novo mundo.

A Indústria 4.0, ao contrário do que muitos pensam, não é apenas um sistema de manufatura cheio de robôs autônomos que controlam a linha produção sem a interferência do homem. Isso ainda é parte da Indústria 3.0. No mundo 4.0 os sistemas de manufatura, cadeia logística e distribuição estão interligados em nuvens e toda a gestão do processo é feita de forma descentralizada. Não há mais barreiras para nada, nem de tempo e nem fronteiras físicas.

As pequenas e médias empresas no Brasil podem se beneficiar desses novos conceitos, buscando inovar em seus processos de gestão. Há muitas oportunidades, mesmo que a empresa não possua recursos para realizar grandes investimentos. Celebrar parcerias e conhecer as novidades no mercado, por meio de seminários, já é um bom começo e muitas vezes todas essas informações estão disponíveis online, em plataformas plenamente acessíveis a todos. Basta para isso uma boa conexão de internet e um sistema operacional atualizado.

Incentivando a criatividade e as mentes abertas

Para tirar proveito das oportunidades que as novas tecnologias trazem as empresas devem incentivar a criatividade de seus funcionários. Alguém que esteja, por todo tempo, amarrado apenas em processos repetitivos ou burocráticos, dificilmente conseguirá criar algo novo que beneficie a própria empresa. Isso requer maturidade de gestão e uma liderança atualizada e sem medo de que novos líderes surjam.

Um dos gurus da gestão no século 20, ainda presente nos dias de hoje, Jack Welch, disse: “Um líder não é alguém a quem foi dado um trono, mas a quem foi dada a responsabilidade de fazer sobressair o melhor que há nos outros. O verdadeiro líder é aquele que sabe formar novos líderes, sem medo de concorrência na organização”. Outros nomes da administração também pronunciaram frases semelhantes, mas como ouvi, pessoalmente, tal citação do próprio Welch em um seminário, prefiro creditar a ele a autoria.

A Sociedade 5.0

Subindo mais um degrau nessa escala evolutiva o Japão apresentou há quatro anos o conceito da Sociedade Super Inteligente 5.0, que utiliza toda a evolução tecnológica do mundo 4.0 para beneficiar a sociedade e resolver seus problemas por meio da incorporação da quarta revolução industrial a uma avançada e disciplinada cultural. Assim, a sociedade em um futuro próximo consolidará valores e desenvolverá serviços que tornem melhor a vida das pessoas, mais sustentável e adaptável.

A previsão é para que a Sociedade 5.0 ofereça soluções para o envelhecimento, longevidade humana, cura de doenças extremas, previsões e soluções de catástrofes, mobilidade personalizada, infraestrutura e a consolidação das fintechs – o dinheiro será virtual. Devolver os movimentos para quem os perdeu e reduzir a dependência física na mobilidade, ter drones e robôs como membros da família e criar uma nova definição para o termo “velhice”. Veja quantas oportunidades de novas ideias e novos negócios.

Por quê 5.0?

O conceito considera que a sociedade já superou três fases evolutivas e vivemos hoje a sociedade 4.0 (a era da informação). As três primeiras foram: a sociedade caçadora-coletora e nômade (sociedade 1.0); a sociedade agrária e organizada em estados (sociedade 2.0); a sociedade da produção em massa e do consumo (sociedade 3.0).

A Indústria 4.0 tenta colocar o domínio da máquina no centro de tudo e a Sociedade 5.0 vai recolocar o Homem no centro dos processos.

A Sociedade 5.0 engloba, além da integração tecnológica, aspectos culturais e o Japão pode sonhar com essa nova sociedade, antes dos demais países.

Oportunidades para o Brasil.

Por enquanto, poucas empresas brasileiras e muitas multinacionais estão entrando, efetivamente, no ambiente 4.0, pois trazem parte da evolução e recursos de suas matrizes, mas seus conceitos e processos, em boa parte, estão disponíveis para as pequenas e médias empresas que querem se inspirar e aprimorar seus próprios métodos de produção e gestão.

Ao incentivar as mentes criativas, os empreendedores brasileiros podem desenvolver produtos que estejam alinhados com esses novos conceitos ou então, patrocinar e associar-se as centenas de startups que buscam mentores e financiadores para produtos inovadores que estão em desenvolvimento. Muitas dessas oportunidades são encontradas nas várias incubadoras de startups pelo país. Há dezenas delas, com centenas oportunidades para novos negócios.

Sobre empreendedorismo e a motivação para a criatividade das pessoas, Richard Branson, fundador do grupo Virgin, diz: “Uma mente aberta favorece o empreendedorismo e as pessoas cujo otimismo as leva a se preparar para muitos futuros possíveis, basicamente pela alegria de fazê-lo”. Para isso, é fundamental que o ambiente corporativo ou empreendedor esteja envolto em uma atmosfera de mentes abertas. É papel da liderança fomentar tal atmosfera corporativa.

As incubadoras consistem em um modo de estimular a criação e o desenvolvimento de pequenas empresas ou colocar em prática, grandes ideias inovadoras. Segundo o Sebrae, o índice de mortalidade entre as empresas de tecnologia incubadas é de aproximadamente 20%, enquanto nas pequenas empresas independentes, este índice atinge 50% nos primeiros dois anos de atividade. O objetivo das incubadoras é dar suporte estratégico aos pequenos negócios em seus primeiros anos de vida e as empresas brasileiras podem e devem fazer parte dessa rede de apoio.

Não é necessário investir dezenas de milhões de reais para fazer parte do novo mundo 4.0. Inovação inteligente também é crescer ou empreender por meio de parcerias estratégicas, mas deve-se ter em mente que um produto inovador não precisa ser complexo. Diz Elon Musk, fundador da Tesla e SpaceX, “qualquer produto que precise de um manual para funcionar está mal feito”.


Por Orlando Merluzzi, consultor de empresas, estrategista, gestor, escritor e palestrante, atua no mundo corporativo há mais de 30 anos. 

Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 86.



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