Você conhece a adhocracia?

Publicado em: 21 julho - 2020

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A descentralização na tomada de decisões tem se tornado a melhor saída para incertezas que atingem a coletividade

Cada vez mais a capacidade de se reinventar tem se tornado uma necessidade e um caminho para garantir uma boa perspectiva de progresso, fazendo com que o poder de ação seja a diferença fundamental em muitos cenários. E no mundo corporativo isso não é diferente.

Dentro de organizações, a rapidez na tomada de decisões e a visão ampla das situações estão redesenhando tendências que vêm ganhado o mercado e, principalmente, a cara do futuro. Esse é o caso do modelo organizacional adhocratico, que ocupa crescente evidência na gestão de negócios.

Se popularizando a partir de 1970, a adhocracia é um conceito trazido pelo sociólogo e futurólogo, Alvin Toffler, em seu livro Future Shock (Choque do Futuro, em tradução livre), onde anteviu um futuro em que a existência excessiva de informação causaria uma paralisia na tomada de decisões, defendendo que as empresas teriam de ser mais flexíveis para conseguir aproveitar as oportunidades tecnológicas e, com isso, ganhar vantagem no mercado, utilizando pequenos grupos informais para gerar soluções inovadoras.

Diretor Executivo da PromoCoop e consultor internacional em cooperativismo e desenvolvimento sustentável, Rodrigo Gouveia

Com a proposta de ser uma alternativa versátil e contrária à burocracia, esse modelo se apoia na cooperação para simplificar processos e alcançar a solução rápida de problemas. Tudo isso buscando manter o colaborador motivado coletivamente, incentivado a utilizar a criatividade e mudando a cultura da hierarquização dos processos. Atualmente, um exemplo de implementação da adhocracia no ambiente de trabalho pode ser visto com mais frequência em empresas de comunicação que reúnem diversos profissionais de áreas distintas para pensar e conceber uma solução específica para um cliente.

Uma das principais vantagens da adhocracia é abrir a possibilidade para as pessoas trabalharem juntas dentro da organização, valorizando a troca de conhecimento e a diversidade da equipe de colaboradores. Esse ponto em específico, por sua vez, se torna benéfico para o universo cooperativo aprimorar os trabalhos e processos que já realizam em seus negócios. “Naturalmente, este modelo deve ser apelativo para as cooperativas uma vez que espelha a própria natureza da cooperação, centrada nas pessoas com igualdade e diversidade. As cooperativas podem beneficiar muito deste modelo dado que ele permite maior rapidez e flexibilidade na tomada de decisões. Por outro lado, a adhocracia permite também a experimentação de soluções inovadoras que refletem uma maior diversidade de opiniões e saberes e que pode, portanto, corresponder melhor às necessidades e expectativas dos cooperados, sobretudo em mercados em que a inovação é determinante para o sucesso empresarial”, acentua o Diretor Executivo da PromoCoop e consultor internacional em cooperativismo e desenvolvimento sustentável, Rodrigo Gouveia.

Pensando no contexto cooperativista, o modelo organizacional da adhocracia pode fazer com que os gestores resolvam problemas urgentes e pequenas crises da forma mais eficaz possível, sendo inovadores, criativos e pioneiros. Os benefícios são inúmeros, mas só têm eficácia se implantados por uma gestão que adota em sua cultura organizacional um constante exercício de autocrítica e descentralização. “Na prática, a cooperativa que cumpre os princípios da base filosófica do cooperativismo já carrega traços de uma gestão voltada ao modelo organizacional de adhocracia, no entanto, mesmo diante de um modelo societário que favoreça essa gestão, há ainda muito espaço para se construir internamente outras frentes de trabalho voltadas a efetivas resoluções de conflitos e falhas em processos internos, isso significa que não adianta adotar uma postura democrática e aberta junto aos cooperados mas não estender isso aos seus colaboradores”, declara a advogada e professora de Governança Corporativa e Consultoria Jurídica, Juliana Bernardo.

Uma ferramenta para o futuro

Se o contexto atual é repleto de inseguranças e dúvidas causadas pela pandemia do coronavírus que se instaurou globalmente, estar atento as possiblidades se tornou indispensável. O modelo cooperativista, por exemplo, já possui inúmeros fatores e diferenciais que garantem seu sucesso há tantos anos, mas mesmo organizações consolidadas precisam acompanhar as mudanças.

A inovação nunca foi tão necessária, assim como saber tirá-las do campo das teorias para transformá-las em prática. “Em um momento de incertezas, a única certeza é de que o mundo não será o mesmo após a crise que estamos enfrentando, considerando o protagonismo do consumidor, a publicização e a velocidade das informações e o dever com o coletivo. Ao passo que a burocracia é rigidez, a adhocracia é a simplificação de processos urgentes dissociada da autoridade, extremamente indispensável para as tomadas de decisões das cooperativas do futuro”, acrescenta Juliana.

Para Rodrigo, esse modelo focado coletividade funciona melhor precisamente em contextos de imprevisibilidade, ou seja, se encaixa perfeitamente com a cultura imediatista que adentra cada vez mais a sociedade e o mundo corporativo. “A adhocracia é mais eficiente em pequenas organizações e em setores econômicos onde existe grande dinamismo e inovação porque aí são necessárias respostas rápidas e criativas”, ressalta.

Entretanto é relevante ressaltar que, fomentando sempre a escolha livre, adaptável e vantajosa a partir da análise da própria organização, é possível optar pela adhocracia ou pela burocracia na hora de ditar os processos da organização, mas também é viável fazer um equilíbrio entre os dois. Todas as escolhas devem acontecer a partir das necessidades daquele ambiente e grupo.

Juliana Bernardo – advogada e professora de Governança Corporativa e Consultoria Jurídica

Se as vantagens de apostar nesse modelo são facilmente vistas na prática, possibilitando uma maior inclusão, dinamismo e capacidade de se reinventar mais rapidamente, os desafios de implantação continuam sendo os mesmos que muitas organizações já enfrentam há anos, o de executar efetivamente essa teoria baseada na inovação. Para Juliana, a comunicação é um dos principais fatores que definem o sucesso das mudanças e escolhas de uma gestão. “Para saber o que dizer é primordial que se saiba ouvir. Entender o que os colaboradores, os cooperados, os consumidores e terceiros que se relacionam com a cooperativa querem, é fundamental. É preciso exercitar uma escuta ativa e livre de viéses. É necessário exercitar o debate democrático para pensar em soluções que gerem um resultado coletivo positivo”, finaliza.

Seja em pequenos projetos ou objetivos maiores, a adhocracia é, acima de tudo, um método que vai adentrar cada vez mais o mundo das organizações em meio as mudanças que surgem diariamente. Apostar na diversidade, coletividade e igualdade, dando voz aos colaboradores através da descentralização de poder, é muito mais do que uma forma orgânica de agilizar os processos e minimizar a burocracia organizacional, representa o que a sociedade espera do futuro. O poder está na cooperação.


Por Fernanda Ricardi – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 94



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