Leite: produtores driblam a crise se unindo a cooperativa


OCB


Estratégia permite obter melhores preços pelo produto, baixar custos, receber assistência técnica e voltar a investir na atividade

Em Mato Grosso, produtores estão driblando a crise no setor leiteiro por meio do cooperativismo. Com essa estratégia, além de conseguir preços melhores pelo leite, os pecuaristas recebem assistência técnica e voltam a investir na atividade. A Cooperativa Mista Agropecuária de Juscimeira (Comaju) atua no sul do estado e já trabalha com lácteos há 40 anos. De seus 1.700 associados, 550 produzem apenas leite.

A preocupação da entidade é fomentar a cadeia leiteira em Mato Grosso através do suporte aos produtores rurais.

“A gente não está dizendo que aqui eles estão em um mar de rosas, estamos dizendo que estão conseguindo sobreviver, porque sabemos que temos hoje no país regiões em que os produtores de leite estão passando por situações muito difíceis”, diz o presidente da cooperativa, Sebastião Reis Borges.

Alexandre Feliz é um dos pecuaristas que conhecem a diferença entre trabalhar sozinho e com o apoio da Comaju. Em épocas de seca, ele chegou a perder animais por falta de alimento. Com custos de produção elevados, incompatíveis com o produto de baixa remuneração pelo mercado, Feliz quase abandonou a atividade. O quadro se modificou, segundo ele, após passar a integrar a cooperativa e a seguir as propostas do quadro técnico da entidade.

O pecuarista conta ter percebido que o melhor alternativa para a propriedade era adotar o sistema rotacionado de pastagem. “Fizemos adubação e começamos a mudar; aí, como já havia água em bom volume, achamos melhor optar pelo sistema de irrigação para conseguir rotacionar o capim. Agora, o nosso gado come pasto verde o ano todo”, diz.

 Novo cenário

O técnico agropecuário Marcílio Pereira da Silva foi o responsável pela mudança de cenário na pequena propriedade de 44 hectares do pecuarista. Ele conta que, antes da adoção do rotacionamento, a pastagem da área era formada por braquiarão. Entre 2015 e 2016, foi implantado 0,5 hectare de capim-mombaça irrigado – com a utilização da estrutura de regas de uma horta –, dividido em 24 piquetes. Hoje, a área foi ampliada para 1,5 hectare.

“A cada dia se abre um piquete, que foi adubado e onde todo ano fazemos calagem, corrigindo o solo com toda a recomendação técnica para esse capim”, diz o técnico, que afirma que a área sustenta 19 animais.

Segundo o coordenador técnico da Comaju, José Andrade de Oliveira Junior, é preciso tomar algumas precauções importantes antes de se atingir esse estágio de sucesso, para que os resultados não sejam frustrados e causem prejuízo. Ele lembra que o sistema de pastejo rotacionado e irrigado é ideal para gado de genética mais apurada, animais com produção média diária de 12 a 15 litros de leite.

Oliveira também afirma que não se deve considerar a irrigação como solução. “Em uma lista de dez itens, a água é o décimo; antes tem que se fazer uma análise de solo, uma correção com calcário, correção com adubo…Você tem que controlar a altura de pastejo na hora em que o gado entra e na hora que o gado, o que depende de luminosidade e de temperatura para o capim crescer”, afirma.

“Sobrando comida”

Com a adoção do manejo correto, Alexandre Feliz diz ter obtido melhores índices reprodutivos no rebanho. “Melhorou porque sobrou pastagem para recria, vaca seca e bezerro. Então melhorou o sistema completamente”. Segundo ele, a área da produtividade que o gado ocupa diminuiu cerca de 60% e “está sobrando comida”. Ele também afirma que os custos foram reduzidos com alimentação a pasto, suplementada apenas com milho e ureia. “Aqui a gente tinha uma média de 7 a 8 litros por vaca, hoje a gente está com uma média de 17 litros, mas tem vaca produzindo mais”, conta. Segundo Feliz, a área de mombaça teria capacidade para suportar até 27 cabeças. “Estamos aumentando o rebanho e vamos ampliar a área do sistema rotacionado, porque temos mais animais para entrar em reprodução”. A ideia é dobrar o tamanho do rebanho a partir do ano que vem, duplicando também a produção. Ainda faz parte do projeto investir em melhoramento genético, por meio de inseminação artificial. “Aqui hoje já não trabalhamos mais com monta natural, retendo todas as fēmeas para a gente ter uma produção alta”, diz o pecuarista.

Remuneração

A remuneração do produto é outro ponto comemorado por Alexandre Feliz. Ele acredita que, sem a atuação da Comaju, o preço recebido pelo leite seria muito inferior ao atual. “Estou vendendo leite a R$ 1,28 (o litro), enquanto outros laticínios estão pagando R$ 0,90, no máximo R$ 1. Fora o acompanhamento (técnico) que a cooperativa dá, e as compras de nutrição feitas através dela, que saem muito mais em conta”, diz.

De acordo com o presidente da Comaju, é possível remunerar os associados com valores um pouco acima da média de Mato Grosso porque “a cooperativa não tem fins lucrativos para empresas”. Além disso, se o volume de leite fosse menor, diz ele, as condições de pagamento não seriam as mesmas. “Estamos assim porque (a cooperativa) uniu um grupo maior de produtores, para que conseguíssemos ter melhor forma de comercializar”, diz Sebastião Reis Borges, Outra vantagem apontada pelo dirigente é o investimento na qualidade do leite. “Na nossa região, isso tem sido monitorado permanentemente por entidades avaliadoras e temos hoje um leite que tem nível internacional, com CBT (contagem bacteriana total) abaixo de 100 mil bactérias por unidade, portanto acima da média nacional”, diz o presidente da Comaju.

Texto de Pedro Silvestre, de Juscimeira (MT) para o Canal Rural – publicado em 6 de Novembro de 2017



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