Olhar que agrega

Publicado em: 05 dezembro - 2018

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O fortalecimento do cooperativismo brasileiro mostra que somar é um valor forte de nossa população, que ainda precisa conhecer melhor os benefícios do sistema

“Você acredita que poderia ser um cooperado?” Esta é uma pergunta bastante oportuna e apropriada para diversos profissionais, considerando o panorama social e econômico em que o Brasil se encontra. Porém, para se chegar a uma resposta assertiva é preciso conhecer bem os conceitos, as características e os benefícios do sistema cooperativista, independentemente do ramo de atuação.

De acordo com Carlos Alberto dos Santos, vice-presidente de Relações Internacionais e Intercooperação do Instituto Sicoob e consultor da Cosinergia Finanças & Empreendedorismo, a perícia na atividade nem sempre é suficiente para uma transição de carreira bem sucedida, pois “profissionais de mercado enfrentam desafios novos no cooperativismo, muitos deles relacionados com a [até então desconhecida] governança cooperativa, cuja complexidade pode provocar insegurança e dificuldades no novo ambiente de trabalho, mesmo para aqueles com larga experiência”.

As peculiaridades do sistema cooperativo podem mesmo representar um desafio no início, mas nada que o conhecimento não possa resolver. Ronaldo Scucato, presidente do Sistema Ocemg, comenta que este é um ambiente muito atrativo em função da diversidade de atuação de mercado, pelos valores e princípios exemplares que apresenta e pela proposta sustentável de gestão e de desenvolvimento simultâneo do individual e do coletivo.

Ronaldo Scucato, da ocemg: em Minas, temos cursos de graduação e pós-graduação em cooperativismo em instituições como a Faculdade Unimed, Universidade Federal de Viçosa, PUC e Unihorizontes. Aprimoramento e conhecimento são sempre bem-vindos

Então, por que muitas cooperativas têm tanta dificuldade em atrair talentos para serem colaboradores ou mesmo cooperados? Para Scucato, é o desconhecimento que atrapalha. “Precisamos tornar o cooperativismo mais familiar à sociedade, porque quem se relaciona com o setor certamente acredita nele como solução para a construção de uma sociedade melhor, seja no âmbito econômico, seja no social e até mesmo no comportamental.”

A opinião do dirigente da Ocemg é complementada por Luciana Cândido, gerente de Gestão de Pessoas da Unicred: “Nosso maior desafio é o de equalizar os interesses dos envolvidos. Para atrair talentos, temos de encontrar a pessoa certa para a posição certa, dentro das muitas circunstâncias que temos, seja cultura, comportamento, mercado, expertise, formação e interesses pessoais versus salário, pacote de benefícios e entendimento do mercado de cooperativa”. Luciana entende, ainda, que a estrutura organizacional é o diferencial do negócio e, ao mesmo tempo, o desafio. “Contudo, quando compreendemos o modelo e o mecanismo sistêmico fica muito mais fácil atuar, as relações tornam-se de cooperação e todos percebem resultado.”

Como enfrentar esse desafio? Da parte dos profissionais de mercado, Santos diz que devem aliar seu conhecimento e sua experiência ao desenvolvimento de habilidades relacionais, de representação e de team work. E, adicionalmente, estudar a história e os princípios do cooperativismo, para compreender o contexto cultural e ideológico do sistema. Do lado das cooperativas, a gerente da Unicred reforça que a área de Recursos Humanos tem como condição, praticamente obrigatória, proporcionar ao recém contratado o conhecimento do sistema, e o compromisso de manter, como estratégia, a educação continuada para seus executivos e dirigentes, incluindo formação internacional.

Perfil para ser cooperado

Além do conhecimento e de estar disposto a enfrentar um novo desafio profissional, aqueles que buscam no cooperativismo uma solução de negócio devem considerar se têm o perfil para embarcar nesta “aventura”. É imprescindível entender que ser um cooperado é também ser um dos donos da cooperativa, e deve-se agir como tal. E compreender que as principais decisões de uma cooperativa – tais quais a eleição da diretoria, a escolha dos conselheiros e a definição da política de distribuição dos resultados – são tomadas pela Assembleia Geral, composta por todos os associados ou representantes destes. Transparência em todos os atos é palavra de ordem, assim como ética nas intenções e ações, respeito absoluto ao ser humano e o interesse genuíno pelas parcerias.

Ronaldo Scucato elenca uma série de outras características importantes para quem quer cooperar: “São profissionais que buscam o desenvolvimento para si e para todos, com perfil participativo, integrador, competente, que entendem a lógica da forma societária e atuam como agente multiplicador de resultados para o negócio. Além disso, precisam ter austeridade no uso de recursos, comunicação intensa, honesta e transparente, administração equânime de conflitos, postura proativa, cidadania, universalidade e compromisso com a felicidade”.

O papel do RH

Inspirar talentos é a principal competência da área de Gestão de Pessoas de uma cooperativa, na opinião de Scucato. “Cada pessoa tem um tempo, uma característica e competências específicas. A grande questão é aproveitar o que cada um tem de melhor para o desenvolvimento das atividades cotidianas do empreendimento. Assim ganham o colaborador e a cooperativa”, comenta.

Mas para chegar ao ponto de inspirar, o departamento, em muitas cooperativas, precisa passar por processo de transformação, com o propósito de encontrar os talentos e incutir neles o espírito cooperativista, de atuar com propósito, com vontade, leveza e eficácia.  “O RH deve ser e estar atento ao mercado, acompanhar as tendências do segmento, trazer a inovação para cultura da empresa e, se for possível, reforçar a necessidade das melhores ferramentas e consultorias para apoiar essa transformação”, descreve Luciana Cândido, completando: “Nosso papel é justamente ter a expertise de customizar e adaptar as melhores práticas de recursos humanos à realidade de cada negócio e cooperativa”.

Além disso, é função de quem faz a gestão de pessoas colaborar para a profissionalização da administração da empresa. Se por muito tempo as cooperativas atuaram apenas localmente, de algumas décadas para cá esse quadro foi alterado. Com isso, os investimentos em formação profissional cresceram muito, especialmente após a criação do Sescoop, para uma atuação mais competitiva considerando esse mercado sempre mais globalizado e agressivo do qual participamos. “Pessoas preparadas tomam as melhores decisões e os resultados, consequentemente, são mais adequados à realidade de atuação focada no sucesso das cooperativas”, finaliza o presidente da Ocemg.



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