Um apoio ao recomeço

Publicado em: 08 outubro - 2018

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Voltar ao mercado de trabalho costuma ser um grande desafio para mulheres que se afastam de sua atividade profissional por um período mais longo, a exemplo da licença-maternidade

Iniciativas do setor privado começam a mostrar a possibilidade de uma nova perspectiva


 

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É difícil encontrar pesquisas sobre mercado de trabalho e atividades profissionais comparando gêneros que não mostrem as mulheres em alguma desvantagem. Em muitos casos, essa diferença é uma consequência da maternidade. Para conciliar o emprego com a responsabilidade de cuidar dos filhos, por exemplo, acabam buscando ocupações com uma jornada reduzida. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) mostram que 28,2% das mulheres têm empregos de até 30 horas semanais, enquanto que 14,1% dos homens estão nessa condição.

Até por uma questão biológica, a única maneira de colocar as mulheres em condição de igualdade para concorrer com os homens na escalada da realização profissional é ajustando o sistema – as leis e o ambiente de trabalho. Mais do que isso, trazer equilíbrio a este cenário é essencial para conseguirem se manter no mercado. Para se ter ideia, uma pesquisa realizada pela FGV EPGE (Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas) com 274.455 mulheres, com idade entre 25 e 35 anos, mostrou que metade delas estava sem trabalho após 12 meses do afastamento pela maternidade. O estudo, baseado em dados do Ministério do Trabalho, foi feito com profissionais que tiraram licença-maternidade entre os anos de 2009 e 2012.

Quando o período de garantia do emprego termina, após o quinto mês do início da licença, os riscos de perder o posto de trabalho vão aumentando conforme o tempo passa. De acordo com o levantamento da FGV, 5% das mulheres deixam o emprego assim que passam dessa etapa. No sexto mês, já são 15% desempregadas. Depois dos 12 meses o índice chega a 48%. Vale dizer que nem sempre essa saída é definida pelo empregador, pois em muitos casos as mulheres deixam o emprego por não terem com quem deixar os filhos pequenos.

O nível de escolaridade também pesa na definição dos afastamentos. Dados da pesquisa mostraram que, passados os 12 meses do início da licença-maternidade, as mulheres com escolaridade acima do ensino médio representaram 35% das que deixaram o emprego. O grupo que tinha até o ensino médio completo era 49%, as que tinham até o ensino fundamental completo eram 53% e as que ainda não haviam completado nem o fundamental, respondiam por 51%.

Nova oportunidade

As diversas manifestações ao redor do mundo cobrando um ambiente igualitário, tanto em relação às condições e oportunidades de trabalho quanto à remuneração, têm levado várias empresas a promoverem significativas mudanças e adequações em seus procedimentos. E a criarem iniciativas condizentes com um mercado de trabalho mais justo. É o caso da PepsiCo, que no ano passado lançou o programa global “Ready to Return”, destinado a profissionais experientes que interromperam a carreira por um período maior que dois anos para se dedicar aos filhos, acompanhar os cônjuges em mudanças de cidade ou país, ou em decorrência de problemas de saúde e até mesmo da realização de projetos pessoais, inclusive a pausa para um período sabático.

As candidatas selecionadas para o programa permanecem dez semanas na companhia, com direito ao salário e aos benefícios do cargo ocupado. Durante esse período, trabalham em projetos relacionados a suas áreas de conhecimento e experiência, com garantia a mentoria, treinamentos e imersões para atualização e capacitação. Nos Estados Unidos, onde o programa começou, participaram oito mulheres, das quais sete tiveram o contrato estendido após o término das 10 semanas e, por fim, três acabaram sendo efetivadas.

Rafaela Pogrebinschi, da PepsiCo Brasil: valorizamos o que torna cada indivíduo único, essa cultura nos torna mais fortes, diversos e criativos

O Brasil é o segundo país em que a  PepsiCo lança o “Ready to Return”, e as oportunidades chamaram a atenção: foram mais de duas mil inscrições. “A seleção levou em conta a experiência e a identificação das candidatas com a cultura da empresa”, afirma Rafaela Pogrebinschi, gerente de Talent Aquisition da PepsiCo Brasil. “Valorizamos o que torna cada indivíduo único, acreditamos que é essa cultura que nos torna mais fortes, diversos e criativos”, acrescenta a executiva. O processo, na prática, teve início em agosto, e as participantes já estão trabalhando na sede da companhia, em São Paulo (SP), em cargos de liderança nas áreas de finanças, marketing, recursos humanos e vendas.

Rafaela comenta que esse programa é fruto do forte compromisso que a PepsiCo tem com o crescimento da participação de mulheres no mercado de trabalho. “A companhia realiza esforços para incrementar o número de líderes mulheres por meio de iniciativas de recrutamento e desenvolvimento ao redor do mundo”, afirma. É por isso que as participantes passam por treinamentos e imersões para atualização e capacitação, assim fortalecem o desempenho profissional e sua confiança. “Essa é uma oportunidade de reciclagem que vai colaborar para reinserir as candidatas no mercado de trabalho, seja na PepsiCo ou em outra companhia.”

Ambiente acolhedor à diversidade

Para que as candidatas sejam bem recebidas e tenham condições de aproveitar o máximo de seu potencial, há uma preparação dos líderes e das equipes com quem vão trabalhar. “As participantes terão uma análise sobre seu currículo e sua experiência e serão apoiadas por gestores, mentores e parceiros a se reinserirem no ambiente corporativo”, ressalta Rafaela. O objetivo é que a energia e os novos olhares trazidos pelas participantes causem uma sinergia positiva para essa relação, gerando resultados favoráveis para todos.

Essa receptividade é fundamental, pois essas mulheres terão a chance de participar de projetos de grande relevância e impacto para os resultados da empresa. A PepsiCo já vem trabalhando há tempos essa adequação do ambiente profissional em suas unidades ao redor do mundo, o que abre oportunidades de forma igualitária no que diz respeito aos gêneros e a outros fatores relacionados à diversidade. “Esse é um desafio que a empresa abraçou há mais de dez anos, com o lançamento de sua estratégia global de negócios chamada Performance com Propósito (PwP)”, diz Rafaela, que continua: “Entre as metas de diversidade da PepsiCo no mundo todo está promover, cada vez mais, uma agenda de liderança feminina dentro e fora da companhia”.

Segundo a gerente, a PepsiCo Brasil já conta com 43% de mulheres em sua liderança sênior, número que sobe para 46% nas posições de liderança júnior. “Nossa missão no Brasil é ter 50% de representação feminina em todos os níveis e áreas até 2025”, afirma. Esse movimento também visa a apoiar o avanço das mulheres e estimular seu desenvolvimento social e econômico em comunidades ao redor do mundo. Tanto que, em parceria com a PepsiCo Foundation, pretende-se investir, também até 2025, US$ 100 milhões em iniciativas para beneficiar 12,5 milhões de mulheres e meninas.

Outro projeto abrangente da empresa que começou pelo Brasil é o “Mulheres com Propósito”, um programa baseado em oportunidades de educação, empreendedorismo e emprego. Com investimentos de US$ 1,5 milhão, a PepsiCo pretende apoiar cerca de 10 mil mulheres na América Latina. No Brasil, serão beneficiadas duas mil, com o diferencial de que 50% das vagas serão destinadas a mulheres. “Aqui representamos a maioria da população e lideramos quase 40% das famílias. Esta iniciativa tem o potencial de alavancar esses núcleos em todo o País e melhorar a qualidade de vida de milhares de pessoas”, comenta Rafaela.

Apoio ao empreendedorismo

Outras ações de apoio ao desenvolvimento profissional das mulheres estão mais diretamente relacionadas com o empreendedorismo. É o caso do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), que traz a recolocação das pessoas no mercado de trabalho em todas suas ações. Recentemente, a instituição oficializou sua adesão aos Princípios de Empoderamento das Mulheres da ONU (Organização das Nações Unidas).

Heloisa Menezes, do Sebrae: as mulheres têm a capacidade de transformar

O Sebrae passou a integrar um grupo com mais de 170 entidades públicas e empresas que incorporam em seus negócios valores e práticas que visam à equidade de gênero e à consolidação do papel das mulheres na sociedade e na economia. “Essa iniciativa ajuda a deixar mais clara nossa proposta, que é o empreendedorismo que transforma. E as mulheres têm a capacidade de transformar”, afirma Heloisa Menezes, presidente da instituição. Segundo o Sebrae, as mulheres representam 24 milhões de empreendedoras em todo Brasil, um pouco menos do que os homens, que são 25,4 milhões. Mas quando se fala em negócios criados de três anos e meio para cá, essa balança se inverte. Elas somam 14,2 milhões, enquanto eles são 13,3 milhões. No fator remuneração média, a comparação segue desfavorável às empreendedoras.

 

 



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