Artigo elege dez temas centrais do agronegócio para discussão em sala de aula

Publicado em: 10 fevereiro - 2021

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Uma força decisiva que garante a oferta de alimentos no país e a própria riqueza nacional. Com essa visão da importância vital do agronegócio nacional – cujas exportações somaram US$ 100 bilhões em 2020 – o engenheiro agrônomo e doutor em Administração, Xico Graziano, e o professor das Faculdades de Administração da USP, Marcos Fava Neves, publicaram artigo no site “Poder 360”, em que sugerem que sejam ‘eleitos’ dez novos temas ligados ao agro, a serem trabalhados por estudantes dos ensinos fundamental e médio.

No documento, Graziano e Neves dão destaque ao efeito distributivo exercido pelo agronegócio exportador, cuja receita “contribui para o desenvolvimento dos municípios, criando empregos e oportunidade de negócios”. Segundo os autores, “o conhecimento dessa ‘contribuição’ à economia e a sociedade precisa ser repassado às crianças e jovens, já no início da vida escolar, para que eles reflitam sobre entre essa relação essencial entre o campo e a cidade”.

 ‘Cooperativismo no Agro’ é o primeiro tema selecionado pela dupla autoral, sobre o qual comentam que “as cooperativas agropecuárias e outras formas aglutinadoras de produtores rurais são responsáveis hoje por 50% da produção de alimentos do país. “Força em prol da solidariedade, o cooperativismo tem trazido milhares de agricultores familiares ao ciclo da prosperidade”, subscrevem. O tópico enfatiza, ainda, que “as muitas histórias contadas por milhares de agricultores familiares constituem um subsídio precioso para melhor conhecimento da atividade cooperativista, a ser transmitido pelos professores aos alunos, como reconhecimento do papel essencial desempenhado pelos produtores rurais”.

O segundo tema trata do aproveitamento dos alimentos, que inclui questões correlatas como desperdício, suas causas e o combate necessário, assim como a reciclagem e reutilização de descartes, “que podem fazer a diferença num planeta onde milhões passam fome, ao lado de imensas perdas, todos os anos, devido ao transporte deficiente da safra, durante o período de colheita, o mesmo ocorrendo nos restaurantes e nas mesas das famílias. A intenção aqui é turbinar o engajamento dos jovens, que poderão fazer simulações, exercícios, seguidos de sugestões, voltadas, sobretudo, ao consumo municipal local.

Na pegada da sustentabilidade, do terceiro tema, os autores reforçam a necessidade de preservação de áreas às margens dos cursos de água, prevista no Código Florestal no país, medida que vem permitindo a regeneração gradual das matas que protegem nossa biodiversidade, bem como a recuperação de espécies nativas de aves e animais. No entendimento de Graziano e Neves, este tema “encanta a juventude e auxilia na causa da preservação do meio ambiente. Na sequência, os estudantes poderão produzir trabalhos relacionados ao reconhecimento das matas ciliares existentes em seu município, além de identificarem aves e animais que estão escapando do riso de extinção, por conta dessas medidas.   

A instituição de práticas amigáveis e respeitosas com os animais é a síntese do quarto tema, que versa sobre a adoção de novos sistemas de condução e produção de animais, que respeitem seu espaço livre e sua senciência*. Como exemplo, os autores citam o trabalho de domar cavalos, antes sujeitos a maus tratos, mas que agora contam com regras baseadas no bem-estar animal. A busca e aceitação de uso de fontes alternativas de alimentos é o quinto tema, que aborda, entre outros subtemas, o uso de ingredientes artificiais (como carne de laboratório e outros produtos plant-based), “produzidos a partir de fontes não tradicionais de proteínas”, como atrativo para que crianças e adolescentes descubram formas alternativas de produção de alimento, como algas e insetos, além de novas frutas que estão surgindo no mercado, como a pitaia, e castanhas nativas pouco conhecidas do consumidor tradicional, a exemplo do baru, muito comum no Cerrado. O resultado esperado é o incentivo ao desenvolvimento de novos hábitos alimentares.

Sexto tema, a bioeconomia – nova disciplina que abrange segmentos como biomassa, bioplástico, biocombustível, bioeletricidade, biodiversidade – abre oportunidades quase infinitas, devido ao avanço tecnológico que tratam de plantas, animais e microrganismos como elementos geradores de valor. É o caso do bagaço da cana-de-açúcar, antes jogado fora, e que hoje serve para gerar energia elétrica, assim como o caldo da cana, transformado em etanol para movimentar os carros, ou a soja que, moída, gera biodiesel que movimenta caminhões, ou ainda o milho, que dá origem ao plástico biodegradável. Isso sem contar com tratores e caminhões que podem ser convertidos para aceitar o biometano como combustível natural. Os articulistas entendem que são “inúmeros os exemplos aplicáveis em sala de aula, tendo em vista valorizar o conceito de agricultura energética, 100% renovável e ecológica”.

Tema da hora, a agricultura digital corresponde ao sétimo tema da proposição, o que inclui trabalho de gestão remoto, modelos de ação realizados à distância, fazendas inteligentes e agricultura de precisão, entre as principais ferramentas digitais. O tópico também contempla o uso, pelas propriedades rurais, de equipamentos guiados por GPS, softwares de análise e equipamentos avançados, assim como a regulagem à distância de motores de tratores e colheitadeiras; drones para controle de pragas, entre outros.

Na sequência, o tema oito se reporta ao melhoramento genético, que abrange seleção e posterior alteração das características e comportamento de plantas cultivadas e de animais domesticados. Ao mesmo tempo, a ciência tem conseguido, acrescentam os autores, dotar os animais de mais ‘docilidade’, como também obter sabores diferenciados para os alimentos, mediante maior adaptação aos ecossistemas agrícolas, garantindo, na ponta, maior produtividade. Na justificativa de escolha do tema, Graziano e Neves enfatizam a necessidade de o público compreender de modo mais profundo como se deu a evolução humana, até chegarmos aos dias atuais, de desenvolvimento de ‘super plantas’ e ‘super alimentos’ – dotados de altos níveis de proteínas ou vitaminas – ou frutas mais adaptáveis ao calor dos trópicos; frutas sem sementes e raças de pets (cães, gatos e outros bichinhos de estimação) exóticos. “Todos esses são exemplos de melhorias genéticas muito curiosas e importantes no mundo atual”, comentam.

Já o Agro colaborativo, nono tema, versa sobre as formas disponíveis de agricultura familiar, em que o resíduo de uma atividade vira insumo para outra, o que serve para elevar a produtividade e abre espaço para maior compartilhamento de modelos de produção. Tais iniciativas, de acordo com os autores, integram a dinâmica do que definiram como “agro moderno”, em que os produtores dividem o uso de máquinas agrícolas, tratores e colheitadeiras, de modo semelhante ao serviço prestado pelo Uber, nas cidades. Todos esses exemplos podem ser empregados em aulas sobre o campo e a produção de alimentos. O décimo e último tema trata de atividades secundárias, como apicultura, silvicultura e florestas plantadas, piscicultura e carcinicultura (produção de camarões), floricultura e plantas ornamentais, atividades importantes do agro, nem sempre valorizadas pela opinião pública ou pelas instituições de ensino. Aqui, a oportunidade dos estudantes diz respeito a conhecer melhor como essas alternativas são conduzidas no mundo real, as vantagens desses produtos ou mesmo as eventuais dificuldades para sua comercialização.   

Em suas considerações finais, os autores apontam que a ‘imagem do agro’ tem sido ‘alvo de ataques’, no sentido de “menosprezar sua relevância para a economia, sociedade e para a própria cultura nacional”. Corrigindo esse equívoco, eles lembram que “metade de tudo o que a economia brasileira vende no exterior tem origem no campo” e que “a eficiência de nossos agricultores é transferida aos consumidores, via menores preços das commodities alimentares”. Concluindo, Graziano e Neves estimaram em R$ 1 trilhão a renda agregada do agro no país:

“Esse texto pretende contribuir para uma modernização dos conteúdos didáticos utilizados no ensino fundamental do país, levando à retirada de alguns mitos que limitam o pleno entendimento das crianças e jovens ao que é a moderna produção agropecuária no Brasil, muitas vezes colocados de forma desrespeitosa e preconceituosa”, acentuam, ao recomendarem aos professores que “mantenham contato com os empresários do setor, entidades de classe, no sentido de aproximar os alunos da realidade do campo, por meio de palestras direcionadas, seguidas de visitas às unidades de produção do agro. “Crianças e jovens devem conhecer e embarcar nesta causa coletiva, ajudando a promover o desenvolvimento do nosso Brasil naquilo que é a sua vocação”, finalizaram.

(*) Senciência é a capacidade dos seres de sentir sensações e sentimentos de forma consciente. Em outras palavras: é a capacidade de ter percepções conscientes do que lhe acontece e do que o rodeia. A palavra senciência é muitas vezes confundida com sapiência, que pode significar conhecimento, consciência ou percepção.


Por Marcello Sigwalt – Redação MundoCoop


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