Fim precoce de recursos públicos para investimento leva agronegócio a buscar alternativas

Publicado em: 11 fevereiro - 2021

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O esgotamento dos recursos para o ano-safra 2019-2020 acendeu o sinal de atenção para as empresas do agronegócio, que terão de encontrar, nos próximos meses, novas formas, de preferência, mais acessíveis, para financiar a atividade. Ironias à parte, o fato é que o maior emprego da tecnologia acelerou dramaticamente a aprovação de empréstimos (de semanas para minutos) e, por efeito, a liberação dos recursos junto a instituições oficiais como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cuja disponibilidade cessou mais cedo do que muitos esperavam. Também contribui para esse resultado a disputa por recursos públicos por parte da indústria, que ensaia forte recuperação, nesse início de ano, turbinada por um cenário externo favorável. 

Entre o leque de alternativas, além do BNDES, o Banco do Brasil anunciou, em novembro último, a liberação de um montante de R$ 1 bilhão, a título de reforço de suas linhas de crédito rural para investimentos, mediante a contratação de recursos próprios da Poupança Rural, sujeitos a taxas de 7,5% ao ano e prazo de seis anos. Entretanto, enquanto escasseiam as opções pelo viés público, proliferam outras na iniciativa privada, bem atenta ao potencial do setor.  

“Uma ilha de prosperidade”, assim compara o agronegócio, Carlos Aguiar, diretor de Agronegócio do Santander, cuja participação no financiamento rural saltou de 2,29%, em 2015, para 6,03%, em 2019. Segundo ele, já nos primeiros meses de 2020, este patamar já era de 6,26%. Atuando como intermediário das linhas oficiais, o banco disponibiliza, ainda, crédito rural para custeio, investimento, comercialização e cooperativas; financiamento MultiAgro; capital de giro; Consórcio Agro; e títulos (CDCA, CPR e LCA), perfazendo uma carteira no valor global de R$ 21,49 bilhões, que apresenta nível reduzido de inadimplência. “Para este ano, teremos crédito abundante no mercado, com juros baixos e rentabilidade na operação”, anunciou o executivo. 

Dando o tom da tensão atual, o superintendente do Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil (Sicoob), Luciano Ribeiro observa: “Ou o produtor vai enfrentar um custo maior, o que reduzirá sua rentabilidade, ou acabará usando recursos próprios. Uma terceira via é desenhar alternativas via cooperativas”, ao acrescentar que, neste último caso, o agro poderá suportar taxas mais elevadas para contratação do dinheiro. Já o gerente do Sistema de Crédito Cooperativo (Sicredi), Gilson Farias admite que “o volume total foi significativo, mas insuficiente para atender à demanda por crédito que estava reprimida desde a safra passada, quando os recursos também acabaram prematuramente”. Ainda assim, o custo tende a ser mais alto. “Captamos bem na Poupança Rural, mas não conseguimos atender a demanda com a mesma taxa e prazo do BNDES”, conta Farias, ao informar que, para atender a safra em vigor, a instituição passou a contar com um aporte de recursos 20% superior ao período anterior, no montante de R$ 9 bilhões – R$ 1,8 bilhão exclusivos para investimento. 

Também aproveitando essa ‘lacuna’, a Sonhagro é uma franquia de crédito rural que pretende criar uma rede de capilaridade para ajudar o pequeno e médio produtor, sobretudo aqueles que ‘ficaram de fora’ dos recursos do Plano Safra, acentua o diretor Romário Alves. “Crédito existe, mas processos complexos e falta de informação acabam desestimulando o produtor a buscar outras alternativas, que não as oficiais”, explica, ao prever que “os recursos oficiais não terão como acompanhar o ritmo do desenvolvimento do agronegócio”.   

Embora destaque que o setor apresenta hoje uma inadimplência “próxima de zero”, o presidente da Cocamar – cooperativa do Paraná com mais de 15 mil associados – Divanir Higino prevê que “crédito, não faltará, mas a realidade mostra que a fonte principal não deverá ser mais o governo federal”. Ao comentar que a região “não sofreu por falta de crédito”, o dirigente revela que cooperativa decidiu antecipar o plano de investimento de R$ 300 milhões, inicialmente previsto para ocorrer em dois anos.   

No paralelo, o mercado ganhou a opção dos chamados ‘títulos verdes’, voltados à agricultura sustentável, mediante recursos vindos do mercado de capitais, mas ela é cara e complexa, embora seu perfil seja sem limites e de perfil de longo prazo. Seus tomadores, por sua vez, só poderão financiar pelos pelos critérios da Climate Bond Initiative (CBI), relacionados à manutenção da biodiversidade.   

Para preencher esse “vácuo de crédito”, o BNDES anunciou uma reestruturação para equalização dos programas correlatos, a exemplo do BNDES Crédito Rural, lançado em março do ano passado, que oferece taxas pré-fixadas similares às do Plano Safra, além de garantir que os spreads cobrados pelos bancos seguissem a mesma regra – 2,1% ao ano para máquinas e equipamentos e de 2,8% para investimentos gerais. “O produtor rural não opera bem com taxas pós-fixadas, mas prefere ter a previsibilidade do fluxo de caixa, sabendo de antemão o quanto vai pagar no decorrer do contrato”, aponta o chefe do Departamento de Clientes e Relacionamento Institucional do banco, Tiago Peroba, ao revelar que, do lançamento até novembro de 2020, o produto já havia financiado algo em torno de R$ 1,2 bilhão. Como é constituído por recursos do próprio BNDES, e não do governo, seu teto não depende do orçamento federal. “Nossa ideia é não ter esgotamento deste recurso, assim o produtor poderá acessá-lo no momento da safra que melhor lhe convier”, completou Peroba. 

Focado nos segmentos de pequenos e médios produtores, o Plano Safra 2020/2021 disponibilizará recursos de R$ 2236,3 bilhões para o período – R$ 13,5 bilhões a mais do que no período anterior – dos quais R$ 56,9 bilhões se destinam a investimentos – 6% a mais do que a temporada anterior.   


Por Marcello Sigwalt – Redação MundoCoop


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