A agricultura e o sistema alimentar no novo capitalismo – Maurício Antônio Lopes é pesquisador da Embrapa

Publicado em: 14 junho - 2021

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O filósofo e economista escocês Adam Smith publicou, há 245 anos, a obra clássica “A riqueza das nações”, que lançou as bases do capitalismo industrial – fenômeno que produziu mais impacto que ele e seus contemporâneos jamais poderiam ter imaginado.  Das suas ideias nasceu uma nova forma de atividade humana, com  pessoas e empresas se especializando em diferentes funções, produzindo diversidade e complexidade que alimentaram todas as revoluções econômicas experimentadas pela sociedade desde então, incluindo a revolução tecnológica, que está remodelando e transformando o mundo e todas as relações na sociedade.

O capitalismo industrial e a domesticação de plantas e animais – que deu origem à agricultura, estão entre os eventos mais importantes da história da humanidade.  O capitalismo, e a agricultura moderna que dele emergiu, ajudaram a tirar milhões de pessoas da pobreza, produzindo inovações que melhoraram de forma marcante os padrões de vida e o bem-estar humano no último século.  A Revolução Verde, na segunda metade do século XX, bem ilustra o impacto do capitalismo industrial no campo.  Houve um vasto aumento na produção agrícola devido à incorporação de cultivos de alto rendimento, mecanização das lavouras, amplo uso uso de fertilizantes químicos e proteção de plantas com defensivos.

Ainda assim, e apesar dos enormes avanços alcançados pela humanidade desde que as ideias de Adam Smith se enraizaram entre nós, cresce a percepção de que o atual paradigma de capitalismo já não atende as necessidades do presente e muito menos nos habilita ao enfrentamento de riscos que poderão emergir do futuro.  A pandemia, associada à crise climática, produzirão impactos difíceis de prever, tanto em extensão quanto em magnitude, o que contribui para inflar preocupações e descontentamento com o paradigma econômico dominante na maioria das nações.  

Pesquisa recente da empresa de marketing e relações públicas Edelman detectou que 57% das pessoas em todo o mundo consideram que “o capitalismo como existe hoje faz mais mal do que bem para o mundo” e que o aumento da desigualdade está levando as pessoas a confiarem menos nas instituições e a experimentarem crescente sentimento de injustiça. Os economistas Michael Jacobs e Mariana Mazzucato, em seu livro “Rethinking Capitalism”, de 2016, afirmam que o capitalismo está em crise, com investimentos há décadas em queda, padrões de vida em declínio e aumento dramático da desigualdade e dos danos ambientais.

Ainda assim, analistas mais prudentes e pragmáticos não preveem um grande revés à frente, acreditando que o capitalismo, que já se reinventou antes, evoluirá novamente para continuar reinando no futuro.  E muitos sinais de ajuste já podem ser detectados.  De acordo com o Relatório de Riscos Globais do Fórum Econômico Mundial, em 2008 os principais fatores de risco identificados por executivos em todo o mundo eram econômicos.  Dez anos depois os sinais mudaram, e os principais fatores de risco identificados foram ambientais ou sociais.  É por isso que investidores, empresas e negócios estão à procura de novas métricas de sucesso, para além da tradicional busca do lucro e do crescimento sem limites. 

Portanto, é essencial que uma grande nação agrícola como o Brasil, com enorme participação no Sistema Alimentar Global, monitore esta realidade em mutação e promova ajustes tempestivos e inteligentes nas suas políticas e ações, para que a agricultura e o agronegócio sintonizem com a nova realidade econômica em emergência.  Por exemplo, investidores em todo o mundo estão atentos à crescente importância do conceito ESG (“Environmental, Social and Corporate Governance”) que faz referência às práticas ambientais, sociais e de governança de um negócio, e se materializa em um conjunto de critérios que ajudam os investidores a alinhar seus propósitos e práticas às expectativas de seus acionistas e à busca de ganhos sustentáveis de longo prazo.

A premissa por trás do conceito ESG é que investidores tenderão a apostar em empresas dispostas a aderir a um novo mundo, que valoriza a sustentabilidade e o impacto social.  Especialistas em investimentos acreditam que a riqueza tenderá a mudar para uma base de investidores socialmente mais conscientes, forçando empresas e negócios a buscar soluções para clientes, constituintes e consumidores cada vez mais exigentes em sustentabilidade.  E este é apenas um, dentre os muitos sinais que indicam reinvenção do paradigma econômico dominante no mundo. 

A agricultura e o sistema alimentar global estão entre os setores a serem mais impactados, principalmente pela nova realidade dominada por métricas de sustentabilidade, ditadas pelo conceito ESG, por Análise de Ciclo de Vida (ACV) de produtos, dentre outras.  A boa notícia é que, apesar dos riscos associados a desmatamento ilegal, uso imprudente de defensivos e expansão exagerada de monoculturas, a agricultura brasileira tem enorme potencial para se destacar positivamente no fortalecimento e na consolidação de práticas e investimentos sustentáveis.

O Código Florestal Brasileiro, a expansão dos sistemas que integram lavouras, pecuária e florestas – associados a marcas-conceito como “carne carbono neutro” – além da produção de bioenergia em associação a serviços ambientais qualificados, medidos e valorados – como é o caso do Renovabio, são alguns, dentre muitos avanços que podem atrair investimentos sustentáveis na agricultura brasileira.  Faltam ainda atitudes e narrativas que demonstrem que o Brasil está pronto para a nova realidade econômica que emerge.


*Maurício Antônio Lopes é pesquisador da Embrapa



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