Agricultura familiar no censo 2017…perspectivas para o futuro – Fernando Henrique Schwanke é Secretário de Agricultura Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Publicado em: 25 setembro - 2020

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Foi principalmente a agropecuária quem deu sustentabilidade à economia brasileira frente às dificuldades causadas a partir da pandemia do COVID-19.

Na verdade, se fizermos uma rápida retrospectiva história, ficará evidente que as atividades produtivas rurais são a base mais consistente do desenvolvimento brasileiro. Nos últimos 10 anos, o PIB nacional cresceu apenas 6,41%, com a indústria registrando queda de 5,8% e o setor de serviços expandindo modestos 8,6%. Ao mesmo tempo, a agropecuária evoluiu 34,6%. Ou seja, 3,7 vezes a mais do que a performance total de nosso País. Se fizermos comparação semelhante desde o início deste século, o setor rural também apresentará elevada vantagem sobre as demais atividades produtivas.

Mas nossa prioridade não é viver do passado de glórias, mas sim construir um futuro ainda mais próspero. E neste sentido, um importante trabalho recentemente concluído pelo Grupo de Políticas Públicas da USP/ESALQ, com o apoio do IICA e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, mostra importantes mudanças no perfil da agricultura familiar brasileira entre os dois últimos censos agropecuários (2006 e 2017).

Dentre as principais diferenças de um período para o outro está o envelhecimento médio da população rural (em 2006, 38% das propriedades eram gerenciadas por idosos, passando este percentual para 45% em 2017) e a fragmentação de pequenas propriedades.

Entretanto, o aspecto que mais chama a atenção é a elevada quantidade de unidades produtivas que em 2017 foram definidas pelo estudo em questão como “vulneráveis” (geram renda igual ou inferior a R$ 25.000 reais por ano). Eram 3,24 milhões de estabelecimentos (69,3% do total do país), que ocupam 13,3% da área agrícola nacional e geram apenas 4,2% da riqueza rural. 59% destes estabelecimentos estão no Nordeste; 11% no Norte; 15% no Sudeste; 11% no Sul; e 4% no Centro-Oeste.

Por outro lado, voltando as primeiras palavras deste artigo, sabemos que por detrás destes números preocupantes existe uma agropecuária dinâmica e que vem conquistando o mundo com produtos competitivos e gerando os maiores aumentos da riqueza nacional, graças a muito conhecimento gerencial e tecnológico agregado. 

O grande desafio da assistência técnica e extensão rural vinculada ao Governo do Brasil é exatamente difundir as boas práticas confirmadas nas propriedades mais rentáveis àquelas com dificuldades de prosperar. Lógico que não iríamos enveredar tais ações a partir da replicação pura e simples do modelo de produção de commodities, que exige maiores extensões territoriais para ser rentável. 

Por outro lado, há várias e bem-sucedidas experiências na fruticultura, aquicultura, silvicultura, pecuária de pequeno porte e outras atividades que podem se encaixar muito bem no perfil de potencial de produção dos agricultores familiares em estado de vulnerabilidade. 

Claro que em muitos casos há a necessidade de investimentos em obras públicas de sustentação. Mas dentro das possibilidades, isto está sendo feito via Ministério da Infraestrutura, como é o caso da conclusão de ramais de escoamento de água a partir da transposição do Rio São Francisco, construção e revitalização de estradas, dentre outras obras. 

Desde 2019, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento está empenhado em mudar para melhor a realidade da agricultura familiar. Mas, especialmente no âmbito das propriedades com maior vulnerabilidade, a primeira mudança deve ser no campo da mentalidade. 

Prospera apenas quem quer prosperar e se empenha neste sentido. As condições de apoio técnico, comercial e financeiro nunca estiveram tão acessíveis como atualmente. Entretanto, o esforço do aprendizado e da perseverança no trabalho deve ser inabalável na direção de que a parte mais pobre da agricultura familiar abandone a insuficiente subsistência e parta para condições de rentabilidade e prosperidade.


*Por Fernando Henrique Kohlmann Schwanke, Secretário de Agricultura Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento



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