Como o PIX pode contribuir para o desenho de novas relações entre empresas e consumidores? – Pedro Bono é CEO e cofundador na Receiv, plataforma inteligente de contas a receber

Publicado em: 12 dezembro - 2020

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A chegada do novo sistema de pagamento instantâneo traz perspectivas interessantes para o relacionamento entre instituições financeiras e usuários

De revistas e portais especializados aos cadernos de economia e finanças da grande imprensa, o PIX – sistema de pagamento instantâneo criado pelo Banco Central – tem sido um dos assuntos mais discutidos no mercado brasileiro ao longo dos últimos meses e promete ser uma importante alternativa para as transações que movimentam o ambiente de consumo do país.

Com seus requisitos fundamentais publicados pelo Banco Central em dezembro de 2018 e início de operação prevista para 16 de novembro deste ano, o PIX já conta com mais de 1 milhão de consumidores e chaves cadastradas no novo sistema, de acordo com dados da entidade do início do mês de outubro.

Dentro deste contexto, uma discussão interessante que pode ser analisada diz respeito a como o PIX pode contribuir para a construção de novas relações entre empresas e consumidores, bem como, entre as próprias instituições financeiras e seus usuários.

Novos benefícios poderão ser oferecidos em prol da fidelização de clientes que utilizam o PIX? Como o novo modelo de pagamento pode trazer mais flexibilidade e agilidade para as rotinas de pagamento? Que ganhos tem as empresas que oferecem o PIX? Ao longo deste artigo, busco contribuir com minha perspectiva em torno destas questões. 

As novas possibilidades que o PIX oferece para o ambiente de negócios brasileiro

Utilizando os dispositivos móveis como principal plataforma de funcionamento, o PIX abre uma possibilidade de maior flexibilização para os processos de pagamento, com transações sendo realizadas de modo instantâneo e sem oferecer custos para os consumidores.

Para as empresas que oferecem o meio de pagamento, o valor também tende a ser muito mais baixo quando comparado com os processos tradicionais de débito e crédito, uma vez que, com o PIX, não precisará ter, necessariamente, um intermediário (maquininhas de cartão, bandeiras de crédito e débito, adquirentes) para além do agente financeiro (banco) em que a empresa possui conta e cadastrou suas chaves do PIX.

Sobre este ponto, vale ressaltar que o BC não define as taxas cobradas pelos agentes financeiros e tal cobrança é opcional. Neste sentido, o mercado tem discutido a possibilidade, inclusive, de uma futura “guerra de tarifas” com bancos cobrando valores mínimos ou mesmo eximir seus clientes jurídicos de tais custos, tendo em vista a fidelização.

Por sua vez, quem comercializa produtos e serviços pode – justamente pelo baixo custo do sistema – estimular pagamentos por meio do PIX, criando pacotes de benefícios para seus clientes; fator que, em alguma medida, também tem potencial para impulsionar a competitividade no mercado, uma vez que os consumidores poderão, por exemplo, buscar aqueles estabelecimentos com os pacotes de incentivo mais vantajosos para o uso do PIX.

Se posicionando como uma alternativa direta em relação as transferências via DOC ou TED; outra possibilidade interessante relativa ao PIX diz respeito a uma possível popularização das transferências como meio de pagamento, uma vez que, com a sua sistemática de transação em tempo real, em qualquer horário ou dia da semana, o PIX não afeta o fluxo de caixa diário das empresas e oferece mais uma alternativa de pagamento para os consumidores, inclusive por meio da simples leitura de um QR code. 

Em síntese, é possível que o PIX contribua para a construção de novas dinâmicas na forma como empresas oferecem produtos e serviços; permitindo ainda novas experiências de pagamento e o desenho de alternativas para a fidelização dos consumidores.

O lado das instituições financeiras

De modo semelhante, como observado anteriormente, é possível que vejamos uma maior competitividade entre as instituições financeiras, que poderão oferecer pacotes de serviços mais vantajosos e descontos sobre as taxas do PIX, visando fortalecer a relação com suas bases de clientes.

Vale observar que, de acordo com lista oficial apresentada pelo Banco Central no último dia 22 de outubro, o Brasil já conta 762 instituições financeiras habilitadas para operar o PIX. E tal interesse não é por acaso. Segundo levantamento da consultoria Boanerges & Cia, em 2030, os pagamentos instantâneos já devem ser responsáveis por pelo menos 15% do consumo privado – ou R$ 831 bilhões em movimentações financeiras, conforme a estimativa. 

O que nos reserva o futuro?

Para concluir, ainda não é possível estimar em qual período – se curto, médio ou longo prazo – o PIX pode vir a assumir esse protagonismo entre os meios de pagamento utilizados no ambiente de negócios brasileiro. Os pontos aqui levantados levam em conta o potencial da ferramenta e o que vem sendo discutido em meios especializados sobre o tema.

O mercado conta, ainda, com todo um desafio educacional para a popularização de um sistema que começa a dar seus primeiros passos no país. Vale frisar que o PIX ainda é desconhecido por 58,9% do E-Commerce e por 57% da população brasileira que não utiliza canais digitais para operações bancárias (os dados são, respectivamente, da E-Commerce Brasil e da consultoria Bain & Company) – e precisaremos acompanhar o processo de implantação do PIX no mercado para, só então, mensurar, de modo mais preciso, seu real impacto na construção de novas dinâmicas de consumo.

O que se sabe, por fim, é que o sistema financeiro global está em plena transformação e novos modelos de pagamento têm surgido – incluindo os pagamentos instantâneos, que já estão em fase de implantação ou são uma realidade em mais de 50 países –, e contribuído para que este se torne mais ágil, dinâmico e diversificado para consumidores e empresas.


*Pedro Bono é CEO e cofundador na Receiv, plataforma inteligente de contas a receber. É Doutor pela FGV e professor de gestão de risco de crédito nas melhores escolas de negócio do país.



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