Cooperativismo de plataforma – Lajyárea Barros Duarte é coordenadora de Inteligência de Mercado do Sescoop/SP

Publicado em: 17 novembro - 2021

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O que há em comum entre um banco de vídeos e imagens, uma plataforma de streaming de música, uma plataforma de locação de imóveis e uma base de dados em pesquisas de saúde centradas no paciente? Estamos a falar respetivamente de Stocksy United, Resonate, Fairbnb e Savvy, que são plataformas constituídas em formato de cooperativas.

O cooperativismo de plataforma está a emergir como alternativa empresarial de economia social e solidária ao modelo de plataforma tradicional – Uber, Airbnb e outras que surgiram nos últimos anos.

Para entender o funcionamento de uma cooperativa de plataforma precisamos antes de abordar o conceito de efeito rede. Ou seja, qual o impacto e interação de produtores e consumidores na plataforma. Um bom exemplo para entender este conceito é pensar nas redes sociais, em que o efeito rede é bastante percetível. Quanto mais elevado o número de usuários ativos, maior o interesse de empresas anunciarem seus produtos e serviços. Assim, o que gera valor para a plataforma é o efeito rede que é gerado e está baseado em pilares como escala, base tecnológica, adaptação a diferentes realidades e geração de um grande volume de dados.

A partir dessa visão, nasceram as plataformas tradicionais como conhecemos na atualidade. Geralmente, originadas por meio de uma startup, que desenvolve um produto ou serviço com aporte financeiro de investidores e mentoria. Estes investidores esperam por bons retornos dos valores aportados. E as startups passam a depender cada vez mais deles para ampliar a base de clientes, investir em tecnologia e conseguir o efeito rede. Uma das consequências é a pressão por resultados, sobrando cada vez menos recursos para os produtores e prestadores de serviços.

“O efeito rede é um aspeto essencial no cooperativismo. Aliás, o relacionamento da cooperativa com a comunidade, a preocupação dela com a população local, foi transformada em princípio universal, o que demonstra o vanguardismo do cooperativismo”

É neste cenário que surge a oportunidade para a criação de plataformas baseadas nos princípios do cooperativismo. Assim como o cooperativismo que conhecemos – surgido em 1844, em Rochdale, Inglaterra –, o cooperativismo de plataforma nasce, a partir de 2014, também com os valores de igualdade, equidade, responsabilidade e justiça, sendo uma alternativa às desigualdades sociais e económicas associadas à economia digital. A cooperativa é constituída com os focos de propriedade e governança compartilhadas.

O professor Trebor Scholz, criador da expressão ‘cooperativismo de plataforma’, explica que o cooperativismo de plataforma envolve uma mudança estrutural, uma mudança de propriedade. Pois tem a essência da base tecnológica das plataformas tradicionais, mas coloca o trabalho num modelo proprietário coletivo, com valores democráticos. E, também, é construída na ressignificação de conceitos como inovação e eficiência, tendo em vista o benefício para todos.

Com a visão de gerar valor para a sociedade, Trebor Scholz propõe os dez princípios para o cooperativismo de plataforma:

De forma geral, estes princípios referem-se à maneira como as pessoas se relacionam com a Internet, remuneração digna para os cooperados, transparência na gestão dos dados, reconhecimento aos trabalhadores, proteção jurídica e social, não cometer erros conhecidos como uma disciplina arbitrária e preservar o direito de se desconectar, estimulando um tempo para relaxamento, aprendizado e outras atividades.

Para a expansão do cooperativismo de plataforma, temos alguns desafios, como a falta de compreensão sobre o que é o cooperativismo, o desconhecimento de que existem plataformas cooperativas e a dificuldade de ter acesso a capital para cooperativas. Especificamente o acesso a capital de investidores é mais complicado porque tem impactos na legislação. No Brasil, por exemplo, ainda não é permitida a participação de sócios-investidores com o único objetivo de ter retornos financeiros do negócio. No entanto, noutros países já é comum cooperativas de plataforma com uma parcela da propriedade destinada aos investidores. São cooperativas multi-stakeholders, que permitem a associação de diversos grupos de interesse.

Mesmo com estes desafios, as cooperativas de plataforma apresentam-se como alternativa ao modelo já amplamente difundido. Visam à governança e propriedade compartilhada da plataforma e, assim, podem melhorar a distribuição de riqueza e geração de renda. Em suma, o efeito rede é um aspeto essencial no cooperativismo. Aliás, o relacionamento da cooperativa com a comunidade, a preocupação dela com a população local, foi transformada em princípio universal, o que demonstra o vanguardismo do cooperativismo.


*Lajyárea Barros Duarte é coordenadora de Inteligência de Mercado do Sescoop/SP



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