Dois momentos – José Antonio Vieira da Cunha é autor e ex-diretor da Folha da Manhã

Publicado em: 23 novembro - 2021

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A importância da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre no cenário nacional no final dos anos 70, enquanto uma organização que reunia profissionais, criando opções no mercado de trabalho e oferecendo a eles a alternativa de participarem ativamente daquilo que produziam, está respaldada em diferentes eventos e momentos. Ao inspirar o surgimento de cooperativas similares em outros estados, a Coojornal herdou também, junto com seu pioneirismo, a liderança no segmento, sendo a inspiradora e organizadora de seminários e encontros de cooperativas de jornalistas.

Foi líder também no processo em que as cooperativas de trabalho, emergentes em um ambiente dominado pelas organizações de produção agrícola, buscavam espaço para crescer e se solidificar. Em setembro de 1982, quando a OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) criou a Comissão OCB de Cooperativismo de Trabalho para estudar e sugerir providências que levassem ao aperfeiçoamento deste segmento, a representação da Coojornal estava entre seus sete integrantes. A comissão mostrou a que veio e acabou sendo o ponto de partida e modelo para a OCB, que decidiu criar organismos similares para atender aos diferentes segmentos.

Com as Unimeds em processo ainda embrionário – a primeira, em Santos, fora criada em 1967 – o cooperativismo de trabalho era o patinho feio do sistema, e neste aspecto a comissão de trabalho teve uma influência relevante, ao definir este segmento como “organização de pessoas físicas, reunidas para o exercício profissional em comum, em regime de autogestão democrática e de livre adesão”. E fez um manifesto impositivo contra a proposta de criação da Secretaria Nacional do Cooperativismo como um órgão do Ministério da Agricultura. Era a velha luta contra o predomínio do setor primário, dominante exatamente porque foi este setor que deu início ao cooperativismo entre nós.

Se havia movimento relevante na área de comunicação, lá estava também a representação da Coojornal. Como aconteceu quando da realização da VIII Semana de Jornalismo, promovida em junho de 1977 pela Escola de Comunicação e Artes daUSP, que durante três dias lotou auditório com quase mil pessoas. No primeiro dia participei de um painel ao lado de representantes da imprensa alternativa, também chamada de nanica, entre os quais estava Ziraldo falando pelo Pasquim. Meu espaço ali foi pequeno porque havia uma dezena de painelistas, e quando exibi a capa do Coojornal de maio (veja aí a reprodução), que trazia fotos dos quatro primeiros presidentes do golpe de 64 com a chamada ‘A Revolução e seus caminhos’, a partir de um artigo do jornalista Carlos Chagas, houve um início de vaia. A jovem plateia entendeu, fruto de uma incompetência minha ao mostrar aquela capa sem antes iluminar o contexto, que o jornal estava ali sendo conivente com o regime ditatorial. Salvou-me o Ziraldo, que se encarregou de por os pingos nos is.

Com a ajuda do Jorge Escosteguy, nosso correspondente número um em São Paulo, passei a noite toda afinando a apresentaçãode uma hora que faria na manhã seguinte. A exposição detalhava como funciona uma cooperativa de jornalistas e como se posicionava seu Coojornal, destacado pelo condutor do seminário como “um dos expoentes da chamada imprensa alternativa, que também responde pelos nomes de nanica e marginal”.

A receptividade e consequentes aplausos deixaram a certeza de ter sido feliz desta vez: os jovens estudantes de Comunicação foram bem abastecidos sobre a importância do trabalho coletivo e a relevância de suas consequências. Soube mostrar que o Coojornal era um veículo de crítica veemente, sem contestar irresponsavelmente o regime. Um exemplo concreto estava naquela mesma edição, com a reportagem O dinheiro doente. Antes de ser contestatória aos malfeitos do governo, dissecava objetivamente as razões que levaram à queda do poder aquisitivo do brasileiro. E outros exemplos mostraram aos interessados que, mais do que nanico, o Coojornal já despontava como um dos melhores exemplos de imprensa alternativa.

Ali mesmo, no auditório da ECA, fui cercado por três jornalistas da Tribuna, diário de Santos, que me intimaram a ir à redação para falar sobre a experiência. Lembro que gostarammuito deouvir que o cooperativismo descarta a figura do patrão e afasta o intermediário.Naquele momento, a Coojornal tinha exatos 317 associados, o que significava que mais da metade dosprofissionais de redação em Porto Alegre estava participando da iniciativa, seja de forma ativa, trabalhando lá, ou simplesmente, no caso da grande maioria, apoiando objetivamente a ideia como subscritores de cotas-partes da sociedade.

Gostaram do que ouviram, e ali iniciaram o processo da Cooperativa dos Jornalistas de Santos, que, apesar do nome restritivo, abarcou todo o estado. E foi o embrião de um movimento que também surgia em Londrina, Natal, Recife e Belo Horizonte.


*José Antonio Vieira da Cunha é autor e ex-diretor da Folha da Manhã

Fonte: Portal Coletiva.net



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