Ética e transparência garantem bons resultados – Ronaldo Fragoso (sócio-líder da área de Risk Advisory da Deloitte no Brasil)

Publicado em: 15 fevereiro - 2017

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artigo1Após um período de incertezas econômicas e políticas, inicia-se uma fase de mudanças para o Brasil. Governo, empresariado e cada cidadão têm agora que se adaptar a uma nova realidade social, mais ética nas relações humanas e corporativas. O meio empresarial, em especial, se deu conta de que a governança corporativa é o elo que une os objetivos de negócio das organizações às ações necessárias para a geração e preservação de seus valores. Por conta disso, em busca de garantir um crescimento sustentável, as empresas dedicam-se cada dia mais ao aprimoramento de seus processos internos e externos de compliance, implementando melhores práticas de gestão e ampliando a consciência interna sobre a importância de divulgar informações de maneira clara e transparente. Percebeu-se que, quando há ruído na comunicação, é maior o risco de perda de participação no mercado e da confiança de consumidores e investidores, seja em âmbito nacional, ou internacional.

Há hoje uma diversidade de assuntos de governança corporativa na pauta dos tomadores de decisão – desde aspectos regulatórios, como a Lei Anticorrupção, até requisitos relacionados à sustentabilidade e segurança de informação, como aqueles aplicáveis ao ambiente de mídias sociais, entre muitos outros. Esses temas estão cada vez mais presentes nas empresas – dos mais diferentes portes e áreas de atuação – que pretendem melhorar sua gestão e se destacar nos mercados em que atuam. É nítido o esforço para aperfeiçoar relatórios, para implantar mecanismos de controle mais amplos e para adotar novos modelos de processos de conformidade e de reportes mais rígidos. A lei Anticorrupção, por exemplo, é um instrumento que fecha uma lacuna no ordenamento jurídico do País ao monitorar e regulamentar diretamente a conduta dos corruptores. Agora, as corporações são responsabilizadas por práticas ilícitas contra a Administração Pública e podem pagar multas de até 20% de seu faturamento em caso de condenação por corrupção.

Transparência produtiva

A implementação de boas práticas de governança corporativa se dá por meio da aplicação de um modelo baseado em oito dimensões: diretrizes estratégicas; estrutura e organização; plano de negócios; processos e sistemas; gestão de riscos comunicação e informação; supervisão e controle; e gestão de desempenho. Tal modelo tem como objetivo gerar informações de maneira ordenada e sistematizada para o processo de reflexão estratégica, permitindo a elaboração de um plano de desenvolvimento customizado, de acordo com as particularidades de cada organização.

De acordo com o índice IGC (Índice de Governança Corporativa) – que avalia o desempenho de ações de empresas admitidas nos Níveis 1 e 2 e no Novo Mercado da BM&F Bovespa –, companhias com boas práticas de governança são mais atraentes a investidores e garantem um maior retorno a seus acionistas. Por sinal, deve-se levar em conta que uma boa governança corporativa envolve o desenvolvimento de um sistema que articule as relações entre os acionistas, os membros do conselho de administração e os gestores de operações de uma companhia.

Apesar de o IGC ser uma referência muito importante no mercado em relação às práticas de governança, deve-se deixar claro que, em função da velocidade com que as mudanças ocorrem no mundo dos negócios atualmente, o índice não é mais capaz de contemplar todos os aspectos que afetam as organizações nesta área, tais como marca, reputação, sustentabilidade e responsabilidade social.

No gráfico abaixo, é possível visualizar como o mercado responde positivamente às empresas que investem em governança, registrando a ascensão das companhias listadas na BM&FBovespa que se dedicam a estas práticas. Esse grupo, representado pelo índice IGC, obteve, ao longo da última década, uma evolução significativamente superior à registrada pelo Ibovespa.

grafico

Riscos cibernéticos na pauta dos executivos

Atualmente, um dos elementos mais importantes que devem estar no foco do trabalho dos gestores são os riscos ligados a questões de segurança da informação. Além de ter alto potencial de causar perdas pecuniárias, as ameaças – que podem ser físicas, ou cibernéticas – podem produzir danos à reputação e à imagem das corporações. Estruturas de governança mais robustas contribuem para reduzir a exposição a estes riscos. Temas como pirataria, espionagem industrial e roubo digital de dados confidenciais das empresas, entre tantas outras potenciais ameaças, podem ser mais bem combatidos caso as estruturas de gestão empresarial estejam preparadas para enfrentá-los. Neste caso, saber distribuir competências e responsabilidades em relação à gestão de riscos e ameaças é essencial ao sucesso e bom desempenho da governança corporativa. Mobilizando suas estruturas para desenvolver um plano de gestão de riscos estratégicos, as empresas não só protegem seus bens financeiros, como também podem criar novas oportunidades para a agregação de valor ao negócio.

Outro fator que deve sempre estar no radar dos gestores, especialmente em nossa atual sociedade conectada em rede, é a exposição das corporações aos riscos à reputação. A popularização do uso de tecnologias – incluindo aquelas móveis, como os smartphones – deu a cada consumidor a capacidade de se expressar de maneira instantânea, direta ou indiretamente, a um número muito elevado de pessoas. É em relação a essa capacidade de comunicação facilitada pela profusão de mídias sociais e outras ferramentas massivas que crescem significativamente os potenciais riscos à imagem das empresas. Com isso, reduzir a possibilidade de exposição da corporação a questionamentos públicos nas redes sociais e tecnologias afins torna-se um objetivo e uma tarefa a ser diuturnamente perseguida pelos gestores.

Ter o olhar preparado para a identificação de novas ameaças que se encontram onde menos se espera é também uma das características requeridas do gestor atendo à boa governança. Por exemplo, as novas exigências regulatórias e legais expandem o universo de responsabilidades sob o domínio das empresas. É o caso da responsabilidade objetiva sobre a atuação de fornecedores, de prestadores de serviços ou de terceiros, que podem representar importantes riscos, assim como significativas oportunidades às organizações.

Perspectivas para 2017

Apesar de todos os avanços já obtidos pelas empresas brasileiras, ainda há um longo caminho a ser percorrido para a adoção das melhores práticas de governança. Esta é uma das conclusões da pesquisa Agenda 2017, realizada pela Deloitte com 746 organizações que atuam no País. Convidados a indicar cinco prioridades para 2017, entre 15 opções de práticas destinadas à boa administração corporativa, os entrevistados apontaram como foco três itens bastante lógicos em um contexto proveniente de dois anos seguidos de crise: gestão financeira (com 65% de citações); de processos (61%); e orçamentária (55%).

Por outro lado, a pesquisa apurou que as empresas brasileiras demonstram intenção de investir na adoção de melhores práticas de governança corporativa para o próximo ano. Os itens mais abordados nesse âmbito são: gestão de riscos e controles internos (37%); gestão de compliance (33%); e estrutura de governança corporativa (31%). As outras práticas citadas voltadas à administração foram: gestão de tecnologia da informação (36%); gestão de marketing e comunicação (34%); auditoria externa (16%); auditoria interna (14%); gestão ambiental (14%); gestão de crises (13%); responsabilidade social (12%); mecanismos de transparência (7%); e conselho fiscal (6%).

Em relação à implantação de importantes estruturas de governança corporativa, parte significativa das empresas participantes da pesquisa ainda não possui, por exemplo, áreas de gestão de crise ou conselhos fiscais. Em fase inicial de implantação pelas organizações, a área de auditoria interna também foi lembrada no levantamento. Com nível um pouco mais avançado de inserção, as empresas citam os mecanismos de transparência, de gestão de compliance e de riscos, os controles internos e as estruturas de governança corporativa. A adoção de auditoria externa é também citada como prioridade pelas empresas.

Com tantos componentes envolvidos, comunicação, liderança e transparência tornam-se elementos fundamentais para garantir uma mudança profunda e positiva na cultura das empresas em linha com as melhores práticas de governança. Dispor ou não desses elementos pode ter impacto direto sobre a sobrevivência e rentabilidade das corporações. O que há algum tempo era considerado por muitos como custo, hoje tem de ser pensado como oportunidade para a perenidade das organizações. Incorporar as boas práticas e recomendações à cultura empresarial e à dinâmica de negócios, sem descuidar da gestão estratégica é, sem dúvida, um dos principais desafios das organizações na atualidade.

* Ronaldo Fragoso é sócio-líder da área de Risk Advisory da Deloitte no Brasil



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