Modelos mundiais de cooperativismo! – Prof. Dr. José Luíz Munhós é pesquisador e professor de Governança Corporativa

Publicado em: 23 outubro - 2020

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Ao nos aproximarmos do primeiro ano de nossa viagem ao Instituto Internacional de Las Cooperativas Alphonse y Dorimène Desjardins, no Estado de Quebec e de colonização francesa, quero dividir com meus seguidores algumas práticas que observamos lá e que considero importantes na gestão de cooperativas crédito.

Histórico

Um Movimento iniciado durante a depressão mundial, pré-primeira guerra mundial foi um movimento dos franceses em reação aos ingleses, dominantes na região.

O povo do Quebec, população pobre, na época e de origem francesa ficou dependente de emprego e crédito da população rica (inglesa). Agiotas cobravam juros extorsivos. O Desjardins envolvido em movimentos políticos e participante assíduo da igreja católica inicia seus estudos para entender o funcionamento do cooperativismo na Europa e introduz a filosofia na Província do Quebec para atender a população de maioria francesa. Nos anos atuais, o movimento não consegue ter penetração na comunidade inglesa em decorrência de toda a história. Isso provocou também o desenvolvimento de um outro sistema para atender a população inglesa, sistema Credit Union.

Com a persistência da resistência entre os franceses e ingleses, ainda nos dias de hoje, o movimento dirigiu sua expansão para as comunidades francesas de Ontário e Norte dos Estados Unidos.

Não há supervisão pelo Banco Central. As cooperativas estão subordinadas a legislações e supervisão provincial feita pela Autoridade dos Mercados Financeiros. No entanto, os normativos para cooperativas de crédito estão em convergência para os do setor bancário, em um caminho de uniformidade.

Os bancos canadenses não podem ser controlados por pessoas físicas, havendo limitação de 20% de participação em seu capital. Existem grandes bancos com representatividade internacional.

O sistema possui fundo garantidor e para os bancos há intervenção em caso de insolvência.

Caixas (Cooperativas singulares)

Pudemos observar um perceptível movimento de busca por ganho de escala (o sistema terminou 2018, com 271 caixas (cooperativas singulares) e pretende encerrar 2019, com 200). Não muito diferente do que presenciamos na Alemanha. Em 1980, o sistema Desjardins tinha 1293 cooperativas.

Há direcionamento para a venda de produtos, principalmente seguros. Há pouca capitalização das singulares (Aproximadamente R$16,50, por pessoa) e percebe-se o uso dos depósitos e da retenção de sobras para a geração de funding para a operação.

Poucas sobras são distribuídas e o direcionamento para constituição de reservas para investimentos é a prática. Compraram e constituíram grandes seguradoras de vida e de pensão para fomentar as atividades.

Percebe-se um movimento para o autoatendimento e atingem significativos 75% de movimentação por home banking e mobile. Existe o fator climático que incentiva o uso. (-40 graus no inverno que dura seis meses). Aqui no Brasil somente alcançamos estes percentuais, agora durante a pandemia.

Principais forças: Crédito para P.F. (hipoteca residencial) e Seguro. O que gera um “colchão” de receitas que permite a estabilidade dos resultados.

Pode-se observar três tendências demográficas semelhantes as nossas: Envelhecimento da população, regiões que decrescem e imigração importante.

As Caixas (cooperativas singulares) possuem metas de crescimento de 20% nas operações e em ativos, sobre a base histórica do ano anterior.

As avaliações e a remuneração variável dos gestores, ponderam 50% em fatores de resultado e crescimento da cooperativa e 50%, em relacionamento com cooperados e colaboradores e valores cooperativistas.

Centro de serviços compartilhados e sistema (Substitui as Centrais)

Os centros compartilhados de serviços foram criados para oferecer serviços de back-office e melhorar o sigilo para grandes clientes que se afastaram das cooperativas por não acreditarem na confidencialidade oferecida. Em muitas cooperativas brasileiras, também somos questionados em como resolver a questão do sigilo e confidencialidade, principalmente em comunidades menores em que há uma fragilidade na guarda das informações dos grandes cooperados.

Este movimento é importante para redução dos custos administrativos uma vez que otimiza os custos administrativos. No Brasil temos sistemas que replicam as estruturas administrativas em suas singulares, por não terem centrais com capacidade de atendê-los com a qualidade dos serviços necessários. Vimos também uma quantidade excessiva de centrais aqui no Brasil que não se justificam. Há um movimento mundial para adequar a quantidade de centrais ao número estritamente necessário. Alemanha e Canadá agem intensamente nessa visão de redução de custos e profissionalização dos gestores.

Considerações gerais e governança corporativa

Durante as visitas pode-se perceber uma preocupação com a Responsabilidade Social Estratégica, onde se deu evidência as práticas de projetos que são atendidos de forma responsiva, onde há pressão das partes interessadas ou filantrópicas. Abordou-se a aplicação do conceito social no contexto competitivo, responsabilidade social estratégica que deve ser aplicada com certos cuidados em relação aos movimentos do “Green Social e do Green Washing”. Há um direcionamento para o modelo de publicação GRI, considerando o alinhamento dos relatórios a um conceito de qualidade informacional.

Há uma intensificação do relacionamento com os associados, o que pôde se perceber, que houve uma perda com o crescimento. Um distanciamento dos gestores da base de associados. Um pensar local, mas com ações globais, uma necessidade de desenvolver novos lideres com a participação do “conselheiro trainee” (tradução livre) participando das reuniões de conselho e aprendendo a desenvolver a função.

Conciliar agilidade, proximidade e eficácia em sintonia com empresas locais, diretorias comerciais e serviços compartilhados. Uma busca pela inovação!

A proteção de dados já era uma grande preocupação pela grande quantidade de dados vazados a época e que gerou grandes multas a algumas organizações.

Há obrigatoriedade de conselheiros participarem de formações obrigatórias com avaliação formal de aprendizagem o que permite manter um nível qualificado de profissionais e corrigir eventuais conhecimentos. As eleições são individuais e os membros dos conselhos possuem competências plurais.

Existe participação de executivos do sistema cooperativo brasileiro nessas organizações o que poderia colaborar para a implementação dessas boas práticas de governança aqui no Brasil.

Enfim, boas experiências e práticas de gestão e governança a serem seguidas, é só querem praticar!


*Prof. Dr. José Luíz Munhós é pesquisador e professor de Governança Corporativa



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