O desafio que o sucesso traz para as cooperativas – Mário Donadio é Sociólogo, Educador e Professor de Pós Graduação em Psicologia Organizacional

Publicado em: 08 setembro - 2021

Leia todas


O sucesso de uma cooperativa costuma ocultar uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento. O detonador é a acomodação que desestimula a criatividade e a inovação trazendo como consequência o fim do crescimento e a gestão aristocrática, quando os controles financeiros passam a ser mais importantes do que a atenção aos cooperados, clientes e compromisso dos colaboradores.  A superação exige mais do que desenvolver competências técnicas ou definir estratégias mais agressivas. É preciso investir em transformação cultural que resgate os impulsos empreendedores presentes em sua fundação. 

acomodação é sintoma de que algo não vai bem em uma cooperativa. Começa com a crença de que o que funcionou bem no passado fatalmente funcionará bem no futuro; baixa agilidade na tomada de decisões, geralmente centralizadas na alta administração que, por sua vez, está mais atenta à eficiência e regularidade dos processos.  Três fatores são vistos como culpados pela turbulência e intranquilidade: incômodos provocados pelas demandas dos cooperados, insatisfação dos clientes e aspirações dos colaboradores. 

aristrocracia está instalada quando a  cooperativa se orienta para privilegiar seu melhor funcionamento interno e tem baixa flexibilidade às mudanças que alterem os processos para dar respostas ágeis às demandas ambientais.  Barreiras são criadas ao relacionamento interpessoal, substituido pelas normas genéricas atendendo perfis estatísticos dos cooperados e clientes. Os colaboradores são descritos apenas pelas burocráticas avaliações de desempenho anuais ou padrões definidos nas pesquisas de clima. Mais grave quando não são  reconhecidos como pessoas, porém representados  em sistemas genéricos de informações gerenciais e relatórios impessoais. 

aristocracia felizmente não é o perfil comum das cooperativas, caso contrário não teriam a pujança demonstrada e seu impacto benéfico na economia e geração de empregos. Entretanto, a acomodação é sintoma a ser considerado pelos gestores neste mundo complexo e ambíguo em permanente volatilidade e incertezas no qual deixa de ser eficiente  a velha fórmula  de aumentar volume e preço para gerar mais ingressos e cortar custos para  gerar lucros – ou sobras para as cooperativas.  Esta equação demonstrava como a cooperativa vencera as barreiras  para profissionalizar a gestão, superar a desorganização admistrativa, a indefinição de papeis e a falta de informações sobre o mercado, todavia não explica o sucesso passado, tampouco é útil para superar os desafios futuros. 

A razão do sucesso é outra; está na raiz da árvore plantada pelos fundadores: busca quase obsessiva de conhecimento dos cooperados, clientes e fornecedores. Atender expectativas dos colaboradores, mantendo condições dignas para seu trabalho, reconhecendo que são eles os geradores das riquezas. Esta força empreendedora era energizada pelo relacionamento pessoal – gente falando com gente. Gestores de cooperativas grandes, com centenas ou até milhares de pessoas, costumam fazer uma pergunta errada: “Como a tecnologia de informação pode criar sistemas que me dêem informações sobre as pessoas?” A pergunta correta é: “Como mudar os métodos para possibilitar que as pessoas se conheçam mais, expressem suas opiniões e colaborem em seu trabalho?” 

Mais ingressos, melhor eficiência, mais investimentos para o crescimento serão resultados da renovação da cultura orientando-a para a fidelização dos clientes, cooperados e compromisso dos colaboradores . A cultura de uma cooperativa se expressa pelos valores comuns, estratégias definidas e métodos que organizam a operação. Os fundadores são os guardiões naturais dos valores e devem mobilizar as lideranças de todos os níveis para a renovação e respeito às suas raizes. A administração superior deve flexibilizar estratégias e métodos para que respondam às incertezas do ambiente externo.  A transformação cultural começará pela mudança  individual de cada liderança no seu relacionamento com os colaboradores e de cada colaborador na sua comunicação com colegas de outras áreas, cooperados, clientes e outras cooperativas.  


*Mário Donadio é Sociólogo, Educador e Professor de Pós Graduação em Psicologia Organizacional



Publicidade