O dilema das cooperativas de consumo e a Nova Economia – Mário Donadio é Sociólogo, Educador e Professor de Pós Graduação em Psicologia Organizacional

Publicado em: 11 agosto - 2021

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A primeira cooperativa do mundo foi de consumo e seus Probos Pioneiros queriam se defender da exploração de comerciantes que impunham seus preços e condições. Na prática, queriam oferecer seus produtos aos associados ao menor preço. Investiram 1 libra em 1844; o capital inicial dos 28 tecelões subiu em um ano para 180 libras e em dez anos já contavam com mais 1.400 cooperados. Para vender ao menor preço deveriam ter poder de negociação com fornecedores, aumentar o número de associados para ter volume e boa administração gerando lucros que permitissem fazer caixa para investir no crescimento da cooperativa. Queriam também que houvesse um retorno sobre seu investimento para formação do capital de 1 libra. 

O cooperativismo tinha tudo para fracassar, ser esquecido na história apenas como uma utopia de sonhadores. A Inglaterra vivia a segunda fase da Revolução Industrial, o mundo Vitoriano era de grande ênfase no lucro das empresas sem nenhum respeito com as questões sociais. Charles Dickens escreveu em 1838 um dos mais importantes livros da literatura inglesa, Oliver Twist, que ilustra no drama de um personagem órfão o pouco respeito à dignidade das pessoas e dos trabalhadores. Foi neste contexto que os corajosos tecelões pensaram que poderia existir uma Nova Economia, que definisse a razão de uma empresa como ser geradora de riqueza para a sociedade e para os trabalhadores; lucro e retorno sobre os investimentos como necessidades operacionais, não como fetiche último. 

O contexto econômico-social desta nossa Quarta Revolução Industrial no qual estamos é mais sutil, as técnicas mais sofisticadas, os comportamentos mais elegantes, porém a essência das estratégias difere pouco daquela dos meados do Século XIX: competição sem tréguas entre todos os agentes de produção, jogo em que todos perdem.  O dilema na época era o mesmo de hoje: satisfazer os interesses conflitantes. Em uma ponta a pressão sobre os fornecedores −  muitas vezes também cooperativas − para  reduzir o preço dos insumos de sorte a satisfazer cooperados que exigem menores preços; e na outra ponta, ser atraente para os investidores cooperados, gerar caixa para crescer e distribuir dividendos. Para aumentar a complexidade do dilema é necessário ter administração excelente e equipe competente para vantagens frente a concorrentes agressivos, como no caso dos supermercados, trabalhando com margem de menos de três porcento.  

As cooperativas podem se equivocar imaginando que seu sucesso estaria no investimento em mais tecnologia, busca da vantagem competitiva predatória, redução de custos, competência técnica de seus quadros, treinamento operacional e pressão sobre legisladores para redução de impostos. São estratégias que qualquer empresa bem administrada sabe definir e perseguir, porém não está aí a solução do dilema.  

A resposta ao dilema está na construção de uma organização ética, humana e solidária onde todos sejam protagonistas da prosperidade em relações produtivas na qual todos ganham. Os marcadores de resultados de uma cooperativa são os mesmos de uma empresa qualquer, sua boa gestão deve estar atenta ao incremento dos ativos produtivos, satisfação dos seus clientes/cooperados e retorno aos investimentos de seus acionistas/cooperados. Porém devem ser mais do que uma empresa qualquer; devem ser cooperativas! 

O maior investimento de uma cooperativa deve ser no permanente, continuo e intensivo fortalecimento de sua cultura. O grande mérito dos Pioneiros foi a redação de um Estatuto Social pregando valores democráticos e igualitários, em 1996 traduzidos nos Princípios Cooperativistas. Para que esta filosofia se transforme em políticas e estratégias de gestão, não somente as áreas de Recursos Humanos, mas também todos os líderes devem considerar sua principal tarefa o desenvolvimento das relações colaborativas entre sua equipe,  compartilhando os valores, harmonizando as percepções. Será este Capital Relacional que fidelizará os clientes/cooperados e trará o compromisso dos empregados, verdadeiramente colaboradores.


*Mário Donadio é Sociólogo, Educador e Professor de Pós Graduação em Psicologia Organizacional



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