O papel das cooperativas de crédito no pós-pandemia – Marcelo Vieira Martins é CEO da Unicred União

Publicado em: 16 fevereiro - 2022

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As cooperativas de crédito pretendem abrir 1,3 mil novas agências e gerar 13 mil novos empregos no país em 2022. Em movimento contrário ao dos bancos, que estão fechando postos de atendimento, as cooperativas se consolidam como a maior rede de serviços financeiros do país. Os dados são de uma pesquisa divulgada em dezembro de 2021 pelo Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop). 

A proximidade física de seu público faz parte da estratégia do cooperativismo que, por não visar lucro e por conhecer a fundo o cooperado, opera com risco e taxas menores. Hoje as cooperativas de crédito são a única forma de inclusão financeira para 600 municípios brasileiros onde não há a presença de banco tradicional. E a expansão se dará com as cooperativas mantendo o pé no acelerador do atendimento digital, que já se demonstrou ágil, confortável e seguro para o cooperado. 

Nas cooperativas, os associados são ao mesmo tempo donos e usuários da instituição, tendo acesso aos principais serviços disponíveis em um banco, como conta corrente, Pix, aplicações financeiras, cartão de crédito e empréstimos. Hoje o setor conta com 7,5 mil agências em todo o país, reúne 11,9 milhões de cooperados e emprega 71,7 mil pessoas. 

Todos esses dados evidenciam a importância de um ator do sistema financeiro que será fundamental para a retomada da economia no período pós-pandemia. A capilaridade das cooperativas de crédito traz oportunidades de toda natureza, desde as mais básicas como enviar e receber um pagamento via Pix até a possibilidade de acesso a uma linha de crédito para empreender. Hoje as cooperativas representam 10% do setor financeiro do país, e a meta do Banco Central é dobrar essa marca em pouco tempo. Nunca é demais lembrar que no Brasil os cinco maiores bancos detêm mais de 80% dos ativos totais do segmento bancário. 

Na geopolítica do mundo atual, sabemos que miséria, fome e baixa qualidade de vida não existem por escassez de recursos para todos, mas porque poucos ficam com muito. No Brasil, os dados sobre concentração de renda são constrangedores: 1% dos brasileiros mais ricos detêm 28,3% da renda do país, de acordo com o relatório de 2020 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). 

Como é impossível resolver a equação aplicando uma matemática simplista de somar toda a riqueza brasileira e dividir igualmente pelo número de habitantes, a solução é mudar a lógica que construiu essa realidade. De comunidade em comunidade, estruturar um modelo mais justo e equânime. O instrumento que proponho, claro, é o cooperativismo, um modelo capaz de reter a riqueza nas localidades e distribuí-la de modo proporcional à participação de cada um. 

O autor canadense John Restakis apresenta o cooperativismo como um caminho para tirar a economia global das armadilhas da ordem vigente no livro Humanizing the Economy: Co-operatives in the Age of Capital, que pode ser traduzido como “Humanizando a economia: cooperativas na era do capital”. A obra ainda não tem edição em português, mas traduzo livremente aqui um trecho que resume bem o modo de operar cooperativo: “Conforme a crise econômica global continua a cobrar seu preço, cooperativas continuam a fornecer meios de sustento e serviços essenciais nos mesmos lugares onde multinacionais estão demitindo trabalhadores e fechando fábricas. Do seu jeito discreto, a visão cooperativista continua a prosperar e guarda as chaves do surgimento de um modelo econômico capaz de refazer e humanizar o atual sistema capitalista”. 

Como você vê, no Brasil as cooperativas de crédito estão fazendo a sua parte e, ao ampliar a rede de atendimento em todo o país, terão um papel fundamental para a retomada do crescimento no pós-pandemia.


*Marcelo Vieira Martins é CEO da Unicred União



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