Precisamos falar sobre Cooperativismo de Plataforma – Alexandre Carrasco é fundador da Repensando Negócios – Estratégia, Gestão, Inovação e Sustentabilidade

Publicado em: 26 março - 2021

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Antes de falarmos sobre esse tema tão importante, seria interessante voltarmos ao início de 2020. Afinal, não teve jeito, a pandemia bagunçou a economia no último ano. O Brasil, ainda mais frágil e suscetível às crises, não ficou de fora do colapso mundial. As restrições necessárias para conter o vírus ocasionaram a queda na renda das famílias e um aumento considerável da procura por outras formas de ganhar dinheiro.

As plataformas digitais e o cooperativismo de plataforma

As plataformas digitais, que já vinham alavancando uma nova forma de consumir, comprar e vender, viraram protagonistas não apenas no aumento da demanda de vendas, mas também na busca por fazer as entregas. Evidentemente, uma coisa leva à outra e a tendência é que o “novo normal” permaneça inflando esses números por tempo indeterminado.

Diante deste cenário, a pandemia revisitou o debate de um tema de extrema relevância: o Cooperativismo de Plataforma. Esse assunto sugere uma série de questionamentos sobre o impacto do atual modelo de negócio na vida dos trabalhadores, de suas famílias e, claro, de todo ecossistema que gira em torno deste sistema.

Mas, afinal, há como tirar o que há de melhor das plataformas e unir ao que existe de mais interessante nas cooperativas? A resposta é sim e o caminho cheio de desafios pela frente que incluem investimentos, discussões e criatividade para manter-se alinhado aos princípios do cooperativismo.

À primeira vista, claro, algumas peculiaridades da Lei Geral das Cooperativas, de 1971, deixam dúvidas se haveria formas de efetivar a participação democrática e o processo de tomada de decisões dessa categoria em um contexto digital. No entanto, há mais ganhos do que se imagina quando alternativas mais justas de negócios de economia compartilhada entram em cena. Plataformas como iFood, Uber Eats e Rappi, por exemplo, abririam espaço para que os benefícios fossem melhor distribuídos entre seus “cooperados” se o modelo de cooperativa fosse implementado.

Adicionalmente, barreiras como acesso à investimentos e a formação das chamadas cooptechs – cooperativas com base tecnológica- tiveram formalizadas regras mais bem definidas neste mercado. 

Seriam as cooptechs uma solução?

Idealizadores do assunto, os professores norte-americanos Trebor Scholz e Nathan Schneider, descrevem as Cooperativas de Plataformas como instituições atuantes no mercado tecnológico, mais especificamente, como sistemas de serviços online, só que orientadas por alguns dos princípios cooperativistas: adesão voluntária; gestão democrática; autonomia e independência, educação, formação e informação, intercooperação e interesse pela comunidade. 

Com base nesses princípios, os professores falam sobre desenvolvimento de caminhos mais justos atuando no cenário da economia compartilhada. Mas, por qual razão precisamos tanto falar sobre Cooperativismo de Plataformas nesse momento de insegurança e incertezas?

Diante da pandemia e até um pouco antes dela, as plataformas deixaram de ser a garantia de renda extra para se tornarem alternativa fixa de trabalho para muitas pessoas. Isso significa que os prestadores de serviço tiveram que renunciar a vários direitos que teriam como empregados formais. Isso nos impõe, como tema central da discussão, a certeza de condições mais desigualdade e de menos benefícios para os trabalhadores.

Tendo em vista essas afirmações, seria o Cooperativismo de Plataformas um caminho para garantir que os profissionais envolvidos sejam remunerados de forma justa? E vou além, seria essa modalidade um caminho para que houvesse mais qualidade de vida não apenas para esses motoristas, como também para a realidade onde estão inseridos e, consequentemente, para a economia local?

Com algumas ressalvas, a resposta é que sim. Isso se o caminho desejado for somar a gestão democrática e de propriedade compartilhada das cooperativas com a agilidade e inovação do mundo digital. Seria quase um novo sistema econômico que coloca a força de trabalho como proprietária das plataformas – o que torna o jogo mais dinâmico, acessível, com custos transacionais menores e em rede distribuída. 

Mas como isso é visto pela legislação?

O Marco Legal das Startups, em tramitação, traz inovações que respondem a alguns entraves para a adoção deste modelo. 

A possibilidade de classificação de uma sociedade cooperativa como startup permite acesso á capitalização por investidores, em termos definidos pela legislação, conferindo-lhes segurança e independência na aplicação dos princípios cooperativistas. Tal classificação, também estabelece incentivos e condições especiais para que as cooperativas desenvolvam soluções e possam testá-las tal como fazem as startups atualmente. 

A ideia é que possamos, em breve , trazer mais segurança simplicidade e eficiência ao modelo, incentivando que mais e mais cooperativas o adotem.

Cooperativismo de plataforma é possível ?

Exemplos pelo mundo não faltam. Um deles é o caso do AirMondo – cooperativa digital na área de comércio online, de propriedade dos próprios usuários. Uma espécie de eBay coletiva e eticamente comprometida. Sabe outro modelo que deu certo? A Loconomics, que é um app de profissionais autônomos de serviços. Seu objetivo é ajudar profissionais a encontrarem clientes sem a necessidade de intermediários.

Muitas destas plataformas vão além dos negócios e apoiam seus cooperados em outras áreas como é o caso da Up & Go, que ajuda seus cooperados na busca por documentos e tramites como a busca de cidadania além de incentivar a indicação de amigos. 

Na Mensakas, surgida da organização sindical iniciada a partir de uma greve de entregadores ligados ao aplicativo Deliveroo, em 2017, os cooperados criaram seu próprio algoritmo sem as armadilhas comumente inseridas pelas plataformas consolidadas e respeitando aos princípios cooperativistas. O código é atualmente compartilhado com outras cooperativas que se formam localmente emancipando milhares de trabalhadores neste ramo de atividade e eliminando uma das maiores barreiras de entrada: os investimentos.

Em geral, esses exemplos são iniciativas locais ou de grupos de trabalhadores que encontram nesse modelo uma saída para problemas sociais e buscam melhorar as relações de trocas para os serviços prestados. 

Estaria o cooperativismo de plataforma alinhado à economia do século XXI?

Muito já se falou sobre economia compartilhada. Em 2008, a crise econômica mundial acentuou a discussão fomentando ideias de negócios que tinham como base o aumento da capacidade de consumo para a obtenção de uma maior lucratividade. 

Mais adiante, os conceitos de consumo colaborativo e economia compartilhada se encontraram, levando-os a outro patamar de iniciativas de compartilhamento de produtos. Proliferaram plataformas de compra coletiva, troca, aluguéis por temporada, empréstimos de produtos e modelos de assinaturas.

A discussão em torno desses temas também abriu caminho para que o Cooperativismo de Plataformas ganhasse espaço nos debates. É importante ressaltar que esse modelo se aplica a todos os tipos de plataformas, não apenas às de entrega – muito embora na pandemia elas sejam as grandes protagonistas.

Neste mercado, empresas como Uber, Spotify, Airbnb, Netflix, dentre outras, dominam não apenas o caminho, mas a forma de caminhar. Reorientam as formas de fazer e seus uso, causam dependência e concentram nas mãos de poucos riqueza e poder de decisão. 

O cooperativismo de plataforma pode dar certo no Brasil?

Bom, sabendo que renunciar a desejos pessoais em prol de um bem maior ainda é algo que o brasileiro está aprendendo. Você deve estar se questionando se isso daria certo por aqui e a resposta não é exata, mas posso dizer que estamos caminhando, ainda que lentamente, para que haja maior transparência na gestão e distribuição mais igualitária da riqueza gerada pelas plataformas.

Uma iniciativa recente foi o lançamento da plataforma Supercampo, um marketplace formado por 12 cooperativas que visa atender cerca de 80 mil cooperados, fazendo valer um importante princípio do cooperativismo: intercooperação, que significa não apenas a ajuda mútua entre associados, mas entre outras cooperativas sendo ou não do mesmo ramo.

O assunto, entretanto, é complexo, requer estudo, pesquisa, testes e capacidade de ressignificar conceitos, preceitos e direitos. 

É notório que a aplicação desse modelo de negócio é um universo de possibilidades e, sem dúvidas, temos muito pela frente para nos prepararmos para todas elas. Porém, o debate é fundamental para amadurecer o assunto e descobrir formas de colocar em prática algumas dessas políticas econômicas que interessam para essa nova era.

Acompanhar a evolução do digital, é o primeiro passo que já foi dado. A tarefa agora é enxergar o contexto como um todo de forma mais democrática e solidária, focando nos princípios da copropriedade e da gestão compartilhada. Para isso, é preciso acreditar que a tecnologia é capaz de transformar as relações de trabalho e, evidentemente, saber utilizá-la para gerar um mundo melhor.

Eu acredito e você?


*Por Alexandre Carrasco, fundador da empresa Repensando Negócios onde atua como consultor organizacional nas áreas de estratégia, diagnóstico organizacional, inovação e melhoria de processos, Executivo e consultor em organizações como AES Brasil, Elektro e Bureau Veritas.



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