Cooperativas se consolidam como lugar atrativo para trabalhar e crescer na carreira

Publicado em: 10 abril - 2021

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Enquanto o país sofre com altas taxas de desemprego, o setor cooperativista avança e gera milhares de oportunidades de trabalho em meio a uma das maiores crises da história do nosso país. Apesar do cenário preocupante, com vacinação lenta e a crise sanitária agravando-se, o mercado está aquecido nas cooperativas por causa da valorização de serviços essenciais, como a saúde, a produção de alimentos e o acesso ao crédito e outros serviços financeiros. Tudo isso exige cada vez mais pessoas qualificadas, gerando um círculo virtuoso com novas oportunidades e chance para crescer na carreira.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa média anual de desemprego no Brasil em 2020 foi de 13,5%, o que corresponde a 13,4 milhões de brasileiros sem ocupação durante o ano, sendo considerado o maior índice anual da série iniciada em 2012. Em janeiro deste ano, o número de trabalhadores sem ocupação cresceu um pouco mais, chegando a 14 milhões.

Na contramão desta tendência, reforçando a tese de que o cooperativismo é mais resiliente nos períodos de crises, não faltam boas notícias entre as cooperativas, especialmente no agronegócio, na saúde e no setor financeiro. Com o aumento mundial na demanda por alimentos, as unidades exportadoras registraram recordes nas vendas ao exterior. As cooperativas paranaenses, por exemplo, faturaram R$ 116 bilhões em 2020, um crescimento de 32% em relação ao ano anterior. Esse movimento recorde gerou cerca de 10 mil novos empregos nas cooperativas do estado ao longo do ano. As 217 cooperativas do estado já contam com 116 mil funcionários; eram pouco mais de 106 mil ao final de 2019.

O mais interessante é que as cooperativas não se destacam apenas pela quantidade de vagas abertas. Trabalhar no setor é avaliado pelos próprios colaboradores como uma experiência muito positiva. No ranking da revista Forbes, por exemplo, a Confederação Nacional das Unimeds aparece em 6º lugar, à frente de gigantes multinacionais e líderes nacionais em setores estratégicos. A lista surgiu a partir de avaliações e comentários voluntários dos usuários do Indeed, um dos maiores sites de empregos no mundo, que possui mais de 4,1 milhões de avaliações e comentários em sua plataforma no Brasil, sendo mais de 200 milhões em todo o mundo.    

Também é comum encontrar cooperativas bem colocadas em outros rankings, como as “150 Melhores Empresas para Trabalhar, da revista Você S/A. Neste levantamento, muitas centrais e singulares das Unimeds estão presentes, além de cooperativas de crédito dos principais sistemas, como o Sicoob, o Sicredi, a Uniprime e a Cressol. Atualmente, também é possível encontrar diversas cooperativas com o selo Great Place to Work (GPTW), que avalia tanto a satisfação dos funcionários em relação ao ambiente de trabalho quanto as políticas de recursos humanos, formando um índice de felicidade no trabalho.

Dado Schneider

Para Dado Schneider, professor, palestrante e consultor de grandes empresas, que realiza pesquisas sobre comportamento das novas gerações, o modelo cooperativista tem totais condições para decolar entre os consumidores e, também, na atração de talentos. “Obviamente que no mundo das cooperativas existem setores que se destacam mais, como o agronegócio, a saúde e o setor financeiro, mas o cooperativismo como um todo é muito promissor e certamente vai possibilitar a geração de muitos postos de trabalho nos próximos anos. Pelo sucesso do cooperativismo, as pessoas estão olhando cada vez mais para esse modelo como um lugar de futuro para trabalhar. Eu vejo com muito bons olhos o futuro do trabalho nas cooperativas”, analisa.

Com formação acadêmica sólida em comunicação, marketing e gestão, Schneider trabalhou em grandes agências de publicidade, além de ter atuado como consultor de grandes empresas. Entre os feitos da carreira, ele é o criador da marca Claro, além de ter liderado projetos de transformação digital na rede Magazine Luiza. Com ampla experiência no mundo corporativo, Schneider declara-se fã das cooperativas.

“Costumo fazer uma dinâmica sobre os 7 princípios do cooperativismo, mudando a construção da frase para que as pessoas não descubram logo de cara do que se trata. Daí, associo cada princípio a um exemplo de empresa de ponta, que tem aquela postura bem definida em sua cultura organizacional. No final da palestra, eu pego as frases modificadas, com seus respectivos exemplos de empresas de grande sucesso, e mostro que não existe nada mais moderno que as cooperativas”, salienta o professor.

Em relação ao mercado de trabalho de forma geral, o professor ainda espera grandes dificuldades em 2021, mas vê uma vantagem importante. “O que acho positivo dizer é que, ao contrário de 2020, quando fomos surpreendidos pela pandemia e todos os seus desdobramentos, em 2021 a gente está muito mais preparado para encarar qualquer desafio e dificuldade que possa surgir”, reflete.

Para o professor, a pandemia acelerou a entrada do mundo corporativo no século XXI, questionando a estrutura vertical das organizações, abrindo ainda mais espaço para a colaboração. “Obviamente que as trocas entre os departamentos, entre as pessoas de todas as áreas de uma empresa, devem ser muto mais horizontais, mais fluidas, mais naturais do que no mundo vertical do século passado. Nesse aspecto, a pandemia definitivamente decretou o fim do século XX”, enfatiza.

Para estar à altura dos novos desafios, os colaboradores das cooperativas devem estar atentos às habilidades e comportamentos de organizações mais horizontais. “As relações têm que ser mais fáceis e o compartilhamento de informação mais natural. Crescem em importância a empatia, a predisposição de trabalhar em equipe e a simpatia, pois ninguém gosta de trabalhar com gente carrancuda”, frisa.

Com menos controle sobre o comportamento das equipes, os gestores deverão valorizar ainda mais a capacidade de realização de seus colaboradores. “Mais do que qualquer habilidade, neste mundo horizontal, que é rápido, dinâmico e fluido, temos que ter capacidade de entregar. Eu costumo brincar que não quero gente com iniciativa, quero com ‘acabativa’; ou seja, é necessário fazer o trabalho do início até o fim”, avalia.

Apesar das dores e temores do nosso tempo, Schneider convida para um olhar atento aos sinais do presente, sem idealizar o passado. “O futuro será daqueles que entenderam a dinâmica, a velocidade e a complexidade do século XXI, e estão com a mentalidade certa para o momento certo. Não dá mais para viver de passado. Quem diz ‘bom era no meu tempo’ não entendeu o tempo que está vivendo. Meu tempo é agora”, ensina.

Bons ventos do sul

A Cotrijal, maior cooperativa do ramo agropecuário do Rio Grande do Sul, também tem motivos para celebrar, apesar das dificuldades enfrentadas no ano passado. A cooperativa encerrou 2020 com R$ 2,4 bilhões de faturamento, crescimento de 5% em relação ao ano anterior, o maior faturamento de sua história. O número de colaboradores cresceu 4,1% em 2020, saltando de 1.840 funcionários em dezembro de 2019 para 1.916 ao final do ano passado. Apesar da crise provocada pela pandemia e da quebra na safra de verão, a cooperativa projeta um 2021 positivo, com geração de mais oportunidades de trabalho.

“A perspectiva é de crescimento de contratações. Neste momento, já está confirmada a abertura de pelo menos 40 novos postos de trabalho nos próximos 3 meses, com a expansão do varejo, pois abriremos nova loja em Passo Fundo e, também, faremos ampliação da loja em Carazinho”, revela a gerente de desenvolvimento humano e organizacional da Cotrijal, Simone Alice Rohrig. A cooperativa gaúcha também deve ampliar o número de colaboradores em posições administrativas. “Além disso, existe a previsão de aumento de oportunidades em novos negócios, conforme previsto no nosso planejamento estratégico”, completa.

A maior parte dos postos de trabalho na Cotrijal é considerada como atividade essencial. Mesmo assim, a exemplo do que ocorreu de norte a sul do país, a cooperativa adotou o trabalho remoto em algumas funções. Simone explica que as operações de campo, de logística, de recebimento e armazenagem de grãos, varejo de lojas e supermercados precisaram ser mantidos para garantir a prestação de serviços e o abastecimento dos cooperados e clientes. “O home office foi instituído em modelo híbrido, visando colaborar com a redução de circulação de pessoas principalmente em áreas administrativas”, explica. O objetivo da cooperativa é manter o formato híbrido após o fim da pandemia. “Entendemos que esse formato naturalmente passará a fazer parte do sistema de trabalho na cooperativa mesmo depois deste momento difícil”, ressalta.


Por Luciano Fontes – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 98



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