5G: revolução digital deve injetar US$ 77 bi no agronegócio

Publicado em: 03 dezembro - 2020

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Maior responsável pela sustentabilidade da economia nacional há décadas, o agronegócio brasileiro agora se prepara para adotar a tecnologia 5G, que promete deflagrar uma verdadeira revolução digital no campo, com a abertura de possibilidades quase infinitas de aplicação, sempre voltadas ao aumento da produtividade, valor agregado crescente para os produtos e maior competividade externa.

A nova tecnologia promete auferir maiores ganhos de produtividade, a partir de medidas, como inteligência de dados nas plantações, gestão de sementes, plantas e do solo, monitoramento das colheitas, acompanhamento de estoque e logística dos produtos, tudo digital, com apoio de máquinas, drones e sistemas de irrigação controlados a distância. Como diferencial para as tecnologias que o precederam, a 5G, além de apresentar alta velocidade, possui baixíssima latência, que é o intervalo de tempo entre o ‘ao vivo’ e o transmitido – inferior a dez segundos. Além dessas aplicações, o novo ecossistema virtual facilitará o fluxo de dados e informações –  via sistemas de transporte com caminhões e indústrias – a todos os pontos da cadeia de produção, na mira da elevação de qualidade da produção.

Relatório apresentado, recentemente, pela Nokia e Omdia, estima que a 5G deverá impulsionar a produtividade do agronegócio, que deverá colher uma receita adicional US$ 77 bilhões com a introdução da tecnologia de ponta. As atenções agora se voltam para o primeiro leilão de espaço do espectro, previsto para 2021, mas ainda sem data precisa. Enquanto isso, o produtor rural permanece sem uma tecnologia, que lhe permitirá ter acesso a ferramentas virtuais, como a agricultura de precisão, ainda claudicante devido a problemas de conectividade. A 5G, por seu turno, atende à necessidade da maioria das tecnologias, que demandam uso de grande quantidade de sensores complexos, via banda larga.

Expectativa aumenta

Nesse momento, é grande a expectativa das operadoras de telecomunicações, em torno do leilão 5G, previsto, a princípio, para meados do ano que vem, diante de um cenário de incertezas, seja pela persistente pandemia que retarda os investimentos pelas empresas ou pelas críticas e resistências apresentadas pelo governo Bolsonaro à participação, na disputa, da gigante chinesa Huawei, a reboque das pressões da Casa Branca sobre Brasília. Nesse sentido, a Conexis Brasil Digital – entidade que congrega todas as operadoras do país – emitiu nota em que manifesta preocupação com relação à transparência do processo (leilão), conforme o princípio fundamental da livre iniciativa, presente na Constituição Federal.

“Esse ambiente de incertezas pode impactar o desempenho do setor, pois eventuais restrições implicarão potenciais desequilíbrios de custos e atrasos ao processo, afetando diretamente a população”, pontua o documento, ao acentuar que “preço, escala mundial e inovações tecnológicas dos fornecedores no país são questões determinantes de melhores soluções e custos competitivos do serviço a serem oferecidos pelas operadoras aos cidadãos”.

Carga pesada

Daniela Martins – gerente de Relações Institucionais e Governamentais da Conexis Brasil Digital

Peso da carga tributária sobre atividade – que arca com altos tributos e taxas – é visto como outro entrave ao desenvolvimento do setor, na visão do diretor de assuntos regulatórios do SindiTelebrasil – Sérgio Kern, para quem esse fato “compromete o retorno do investimento em IoT”. No entanto, ele entende que esse fator negativo pode ser compensado com a tributação zero do Fistel (Fundo de Fiscalização das Telecomunicações), trazendo reflexos positivos na ampliação da oferta.

Ainda sobre a eventual interferência federal na atividade, a nota das operadoras adverte que, “uma eventual restrição a fornecedores do 5G poderá atingir, também, a integração com a infraestrutura já em operação, com consequências diretas nos serviços oferecidos e custos associados, mais uma vez prejudicando os cidadãos brasileiros usuários dessa infraestrutura”. Presente em 170 países, a Huawei lidera a adoção da tecnologia 5G em escala mundial.

Por fim, o documento alerta que “uma eventual restrição a fornecedores do 5G pode atingir também a integração com a infraestrutura já em operação, com consequências diretas nos serviços oferecidos e custos associados, mais uma vez prejudicando os cidadãos brasileiros usuários dessa infraestrutura”. Pior, as operadoras alertam que a hipotética exclusão da gigante chinesa do certame “poderá atrasar, em até três anos, a implantação da 5G, impondo a perda de investimentos já realizados na compra de equipamentos, sem contar o brutal aumento de custos às empresas e preço final ao consumidor”.

Num momento de fragilidade política do Palácio do Planalto – que pode ser medida pelo resultado adverso apresentado na eleição municipal recém-ocorrida – as operadoras fazem questão de mostrar sua importância econômica: “Representamos cerca de 4% do PIB e já investimos no país mais de R$ 1 trilhão desde a privatização, o que nos permitiu dar uma resposta robusta à atual crise. Somos um setor que emprega quase 2 milhões de profissionais, diretos e indiretos, e um dos que mais contribuem com pagamentos de tributos ao Erário”.

Ao ressaltar a atribuição da Anatel de definir frequências para a adoção do 5G no país – cujo edital de licitação ainda será definido pelo órgão regulador – a gerente de Relações Institucionais e Governamentais da Conexis Brasil Digital, Daniela Martins, acompanha o entendimento das demais operadoras, no sentido de isentar a tecnologia 5G de riscos à saúde humana. Como argumento, ela menciona estudos elaborados pela Organização Mundial de Saúde (ONU), de que as ondas eletromagnéticas não ionizantes, utilizadas por celulares ou por antenas, não representam ameaça à integridade física dos usuários.  A gerente acrescenta que as “antenas são fiscalizadas pela Anatel quanto ao cumprimento dos limites de emissão de ondas eletromagnéticas (Lei 11.934/2009), que garantem a segurança da população”, completa.

Daniela entende que a IoT (conexão entre máquinas) representa a grande ‘disrupção tecnológica’, que se ampliará muito com a implantação no país da 5G. “Associada a outras ferramentas, a Internet das Coisas abrirá espaço à automatização da lavoura, mediante o controle de produção, da logística e na distribuição de safras, enquanto que na pecuária, essa tecnologia viabilizará o controle ótimo dos rebanhos (inclusive de peso), além do acompanhamento da   aplicação de vacinas e doenças”, revela.

Além disso, a gerente entende que o “agronegócio passará a obter ganhos de produtividade, a partir da redução de custos com um regime de produção mais inteligente”. Ao mesmo tempo, ela aponta que o IoT também poderá ter infinitas aplicações, em áreas como Economia, Educação, Segurança e Logística, além de ampliar a oferta de serviços de governo eletrônico, por meio de e-commerce por exemplo”. Outra aplicação, em tempos pandêmicos, acentua ela, é na área da Saúde, pois o uso da telemedicina permitirá a realização de consultas e cirurgias à distância, a partir do controle mais eficiente de prontuários e vacinas. “A mobilidade urbana igualmente será facilitada com o controle de frotas, horários de trens e ônibus, acompanhamento de trajetos pelos cidadãos, entre outros”, arremata.

Operadoras se preparam

Com o intuito de garantir presença na digitalização do campo, no início deste ano, a TIM – uma das principais operadoras do país – lançou a ConectarAgro, fruto do acordo entre a companhia e empresas de tecnologia e de máquinas, para operação na faixa de 700 megahertz (MHz), seguida pela montagem da infraestrutura de conexão de dispositivos móveis e IoT. Na ocasião, pré-pandemia ainda, a meta da operadora era levar cobertura a pelo menos 5 milhões hectares até o final deste ano. Como argumento de viabilidade do empreendimento, o diretor de marketing do segmento corporativo da TIM, Rafael Marquez, sustentou que “um aumento de 1% de produtividade, de uma safra de soja, é suficiente para pagar um investimento (em tecnologia avançada) que vai permanecer por muitos anos ainda” – usando como referência uma média de 50 sacas por hectare.

IoT chegou para ficar

Exemplo de ‘fazenda inteligente’ pode ser dado pela cooperativa São Martinho (SP), referência mundial em gestão agroindustrial no segmento de sucroenergéticos, que celebrou acordo com a gigante das telecomunicações sueca, Ericsson, para o desenvolvimento de inovações tecnológicas aplicadas ao agronegócio, mediante o uso de um ambiente de Internet das Coisas ou IoT (Internet of Things, em inglês), com base nos padrões de conectividade 4 G e 5G, a exemplo de operações remotas de tratores, colheitadeiras e outras máquinas autônomas, de modo a traçar rotas que mitiguem, ao máximo, o desperdício de recursos, além de aumentar o tempo necessário à produção, tudo à distância, dia e noite.

Entretanto, levando em conta a dimensão continental do país, tais aplicações ainda não alcançaram áreas de produção mais distantes, que se ressentem de uma infraestrutura precária. Ainda sobre as múltiplas aplicações do IoT, seus dispositivos permitem uma medição mais precisa do dia a dia, como sensores de umidade, fertilização e nutrição, produção de relatórios sobre padrões meteorológicos, necessários à gestão da cultura e análise do gado. Além dessas especialidades, o IoT também é empregado no monitoramento da maturidade e nutrição do gado, por meio de sensores que transmitem dados a um hub central, que mantém os agricultores informados sobre o momento certo de processamento do gado.  Em resumo, IoT remete à interconexão de dados entre aparelhos e objetos do cotidiano via Internet, por meio de sensores inteligentes e softwares apropriados, formando uma grande rede de comunicação virtual.

O mais interessante e desafiador é saber que a IoT tem um potencial quase infinito de incluir novos objetos na rede, que acionam e são acionados, entre si, desde os complexos aos mais simples, cuja troca de informações se traduz, sempre, em alguma ação específica. Dessa forma, a união da tecnologia com um modo de vida conectado está fazendo com que a IoT evolua sempre, com novas inclusões, que fornecem mais informação, conforto e praticidade, em total harmonia com as rotinas, tanto domésticas quanto produtivas. Por exemplo, logo que uma pessoa entra no estacionamento de um shopping center, sua presença é detectada por sensores que, por sua vez, levam essa informação a outros sensores, que acendem luzes verdes indicando a vaga mais próxima. Há o caso, ainda, de sensores que acendem luzes para ‘informar’ à cafeteira que está ‘na hora’ de fazer o café quando alguém se levanta da cama. 

A alternativa ganhou corpo, a ponto de os ministérios da Agricultura e da Ciência & Tecnologia anunciarem, em agosto de 2019, a criação da Câmara do Agro 4.0, que integra o Plano Nacional de Internet das Coisas, lançado dois meses antes, com o objetivo de ampliar a conectividade rural, atropelada pela pandemia, este ano.

Conheça algumas aplicações da IoT na agricultura

  • Identificação da demanda por irrigação.
  • Identificação da necessidade de correção do solo.
  • Diagnóstico da lavoura com o uso de drones.
  • Implantação de estufas inteligentes.
  • Controle de pragas na lavoura.
  • Definição do estande (número de plantas).
  • Análise da altura das plantas.
  • Identificação das condições de saúde.
  • Identificação de formação de reboleiras de plantas atacadas (doenças e pragas).
  • Análise da concorrência de plantas daninhas.
  • Medição do teor de na planta.
  • Cobertura do dossel.

Amplo espectro

Mas o espectro de ação da 5G é bem mais amplo, servindo para monitorar as condições ambientais, além de rastrear, alimentar, monitorar rebanhos e até vacas leiteiras sem intervenção humana. Está presente, ainda, na aração, semeadura, alimentação, vigilância sanitária e colheita autônoma. O uso extensivo da 5G, em máquinas e sensores, ampliará muito a quantidade de dados disponíveis, para análise posterior. Assim, o uso da Inteligência Artificial (IA) confere à companhia maior poder de computação e coleta de dados.

Saindo do solo e ganhando os ares, a nova tecnologia permitirá, ainda, o uso intensivo de veículos aéreos não tripulados (VANTs), que poderão ter maior alcance e confiabilidade, a exemplo de   drones que podem ser usados para mapear a terra, analisar o solo e as culturas e aplicar defensivos agrícolas. Todas essas atividades podem ser monitoradas e observadas, em tempo real, a partir de qualquer dispositivo conectado à internet (mesmo que este esteja fora da propriedade), o que servirá para subsidiar decisões importantes quanto a lavouras e animais.

No terreno da segurança, o destaque fica para sistemas de detecção e equipamentos de vigilância, alimentados por IA, lançam alertas para incidentes, como roubo e incêndios, além de promover ações corretivas, em seguida. Isso sem contar com a implantação de sistemas de segurança em várias camadas, como sensores de portões, cercas de detecção de movimento, ou ainda câmeras conectadas à distância. 

Mais de 70% das propriedades desconectadas

Importante passo para digitalização rural foi dado com a aprovação, em 19 de novembro último, do projeto de lei 172/2020, que estende o uso de recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) para levar Internet ao campo, para que este se torne mais competitivo e sustentável. Um dos destaques da iniciativa – que integra a Agenda Institucional do Cooperativismo 2020, com apoio do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) – tem como destaque o protagonismo das cooperativas entre os executores da política de conectividade.

Entre as diretrizes centrais do projeto, destaque para aplicação dos recursos do Fust no financiamento de instalação da infraestrutura necessária à Internet no campo, além de incentivar o desenvolvimento de diferentes arranjos produtivos, facilitando o acesso a tecnologias de ponta pelos produtores. Com a aprovação, os recursos do fundo poderão ser investidos sob a forma de linhas de crédito, investimentos diretos de estatais ou, ainda, como garantia para projetos do setor. Para especialistas, esse desenho de financiamento garante investimentos permanentes, firmando uma contínua expansão da infraestrutura de conectividade, sobretudo em 70% das propriedades rurais, hoje inteiramente desconectadas, conforme apontou o último Censo Agropecuário (IBGE/2017), mais de 70% das propriedades rurais brasileiras estão nesta situação.

Marco Olívio Morato de OliveiraAnalista técnico-econômico da OCB

A conectividade rural foi ‘sacramentada’ pelo parecer do relator do projeto, senador Diego Tavares (PB) – suplente da senadora Daniella Ribeiro (PB) – que apresentou emendas de redação pedidas pelo governo, no sentido de manter a participação das cooperativas na política de universalização da Internet.

Em contraponto aos dados apresentados pelo IBGE, há três anos, a gerente da Conexis Brasil, Daniela Martins, argumenta que “a conectividade hoje no país está bem acima das metas de cobertura estabelecidas nos editais, pois o 4G já chega a 5.016 municípios, onde moram 97,8% da população. As metas de cobertura estabelecidas nos editais de 4G, que era alcançar 1.079 municípios, em dezembro de 2017, foram cumpridas um ano antes”, sustenta.

A gerente da Conexis, contudo, avalia ser “preciso ampliar a conectividade a áreas pouco povoadas e sem atratividade financeira, o que demandaria políticas públicas de estímulo à essa expansão, como o uso de fundos setoriais e a opção por metas de cobertura em vez de leilões de licenças arrecadatórios”. Mas para que a meta se torne realidade, a executiva entende ser “fundamental que as operadoras de telecomunicações sejam instrumento dessas políticas de expansão da conectividade de modo a suprir as demandas dessas regiões com sua expertise e capacidade técnica”.

Segundo o analista técnico-econômico da OCB, Marco Olívio Morato de Oliveira, a entidade vem trabalhando com o governo federal na estruturação e aprimoramento de uma política pública de universalização de acesso à Internet, em que se constata que a maioria das propriedades não está capacitada a lidar com a IA, até mesmo na digitalização de processos cotidianos, como emissão de certificados ou autorizações, ainda providenciados pelo modo tradicional, analógico, implicando deslocamentos e custos extras.  

“Além da simplificação desses processos, a conectividade é crucial para melhorar a eficiência na produção de alimentos, com a substituição dos meios tradicionais pelos virtuais”, observa, ao observar que o produtor deverá ganhar qualidade de vida, a partir da automatização de processos e o monitoramento de lavouras, tudo de forma remota, por meio de drones, para identificação e combate a pragas e doenças, com pulverização controlada. “Com isso, certamente teremos uma agricultura mais eficiente e sustentável”. Os ganhos de eficiência, acrescenta Marco, estão condicionados à natureza de cada sistema de produção, por sua vez, vinculado a questões logísticas, como acesso à água e a combustíveis fósseis, por exemplo. O aspecto social da iniciativa é realçado pelo analista da OCB, que “deverá ajudar a manter o jovem no campo, que não mais precisará se transferir para a cidade, a fim de contar com serviços digitais agora disponíveis no meio rural, o que deve contribuir para tornar mais expressivos os investimentos por parte do setor de telecomunicações.


Por Marcello Sigwalt – Redação MundoCoop


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