A energia que vem da cooperação

Publicado em: 04 janeiro - 2021

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Cooperativamente, pessoas têm promovido iniciativas de geração e consumo de energia elétrica de fontes limpas e renováveis. A informação é o primeiro passo para a expansão desse movimento

Nem sempre nos damos conta do quanto nossa vida é influenciada pela energia elétrica… até que ela falte. No Brasil, a energia elétrica vem principalmente das hidrelétricas – quase 70%, segundo o Ministério de Minas e Energia – uma opção limpa e renovável, mas cuja produção pode sofrer variações, de acordo com o regime de chuvas, por exemplo. Para diversificar a matriz energética brasileira, é preciso investimento em outras fontes limpas e renováveis, principalmente diante das recentes mudanças climáticas. É nesse contexto que se desenvolvem iniciativas de energia cooperativa, que são movidas por pessoas que, cooperativamente, assumem protagonismo na promoção da geração distribuída compartilhada de energia elétrica, e se colocam como parte da transformação energética, promovendo soluções sustentáveis.

Camila Japp, gerente de Projetos no Brasil da DGRV

A Resolução Normativa nº 482/2012, da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), e sua revisão, em 2015 – Resolução Normativa nº 687 – permitiram tanto a geração de energia pelos próprios consumidores, quanto a geração distribuída compartilhada, que possibilita a união de pessoas, seja na forma de consórcios (por exemplo, com a instalação de geração distribuída compartilhada em condomínios verticais ou horizontais, cuja energia gerada é dividida entre os condôminos) ou de cooperativas de geração distribuída compartilhada (energia destinada aos cooperados). A regulamentação admite ainda que essas usinas (tanto de geração particular quanto cooperativa) sejam conectadas à rede de distribuição da concessionária de energia elétrica. Dessa forma, elas podem contribuir enviando à rede toda geração que excede o consumo das unidades atendidas, que se transforma em créditos a serem utilizados pelo consumidor em outros períodos ou mesmo abater no consumo de unidades do mesmo titular que estejam localizadas na área de atendimento da mesma distribuidora, o chamado autoconsumo remoto. O que serve como estímulo para a ampliação das iniciativas de energia cooperativa.

O conceito de energia cooperativa é amplo. Envolve, além de geração e/ou consumo da energia elétrica de fontes renováveis, iniciativas que promovam, por exemplo, eficiência energética, transporte e mobilidade urbana por meio de veículos elétricos entre outros. “Podem inclusive ser projetos voltados a atender uma região que não é assistida por energia elétrica, e as pessoas, unidas, viabilizam uma planta solar; ou até cooperativas, de qualquer ramo, que também queiram gerar a sua energia”, exemplifica Camila Japp, gerente de Projetos no Brasil da DGRV (Deutscher Genossenschafts-und Raiffeisenverband e V.), Confederação Alemã das Cooperativas. Ainda recente no Brasil, o conceito já é bem difundido em países como Alemanha, Dinamarca, Reino Unido, Bélgica, que inspiram as ações e melhorias no processo de transição energética no Brasil. “É uma tendência mundial a geração distribuída e o envolvimento das pessoas na geração de energia”, opina.

Camila explica que apesar do conceito de energia cooperativa ir além de cooperativas de energia, o modelo cooperativista é o que melhor se encaixa a esse movimento, destacadamente por abranger em seu cerne conceitos essenciais como o compromisso com o interesse comum dos envolvidos, a gestão democrática, a atenção à sustentabilidade e o desenvolvimento local. Qualquer fonte de energia limpa pode ser incluída nesse conceito, como hidrelétrica, eólica ou solar. Esta última tem sido uma das mais difundidas, já que a instalação é mais simples e os equipamentos têm se tornado gradativamente mais acessíveis. Segundo a Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), 97% da energia por geração distribuída vêm de usinas fotovoltaicas.

Uma nova atualização da regulamentação está sendo debatida no Congresso Nacional e deve trazer mudanças no sistema de compensação da energia. “É uma discussão importante para se pagar a infraestrutura de que a gente necessita. A probabilidade é de que demore um pouco mais para se encontrar o equilíbrio econômico, mas esperamos que não seja tão ruim a ponto de inviabilizar esse tipo de projeto”, diz Camila Japp.

Informação é fundamental para a ampliação da energia cooperativa

Kathlen Schneider, diretora do Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas na América Latina (Ideal)

Quem deseja reunir um grupo e investir em geração de energia compartilhada tem como primeiro desafio encontrar informações sobre o tema. Foi pensando em facilitar esse processo e difundir o conceito que surgiu o siteenergia.coop, uma plataforma que congrega desde a legislação da área, até o passo a passo para se iniciar uma cooperativa de energia elétrica compartilhada. “Trabalhando nessa temática, percebemos que as pessoas têm interesse no assunto, mas dificuldade em encontrar a informação, que está disponível na internet de forma dispersa e desconexa; e nós as compilamos em um só lugar”, explica Kathlen Schneider, diretora do Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas na América Latina (Ideal), e pesquisadora do Centro de Pesquisa e Capacitação em Energia Solar da Universidade Federal de Santa Catarina (Fotovoltaica-UFSC). “Minha expectativa é de que as pessoas despertem cada vez mais para esse tipo de iniciativa, compreendendo que podem escolher de onde vem a energia que consomem”.

“Hoje, nosso consumo de energia, baseado em grandes usinas centralizadoras, faz que a energia percorra longas distâncias até chegar ao consumidor, exige uma mega estrutura física e há perdas no processo. Quando falamos em comunidade de energias renováveis, remetemos ao conceito de energia descentralizada. Assim, ficamos menos dependentes de uma única fonte e há menos impacto ambiental, social e de infraestrutura”, lembra a pesquisadora. No site,é possível verificar a iniciativa de energia cooperativa mais próxima e conhecer de perto o que já vem sendo feito e integrar-se ao grupo ou mesmo buscar inspiração para desenvolver novos projetos.

energia.coop é um projeto da DGRV em parceria com o Instituto Ideal e   Fotovoltaica-UFSC, juntamente com a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).

De problema ambiental à fonte energética

Gilvan Plodowski, coordenador de Biomassa da Castrolanda e Energik

Os resíduos orgânicos da produção industrial, que poderiam gerar impactos ambientais se descartados de maneira inadequada, são fonte de energia limpa e renovável. A cooperativa Castrolanda e o grupo Unium – formado pelas cooperativas Frísia, Capal e Castrolanda, detentor da marca Alegra Foods – têm investido na transformação dos resíduos orgânicos das empresas. Dejetos suínos, lodo de frigorífico entre outros têm sido transformados em biogás e energia elétrica. São duas usinas de biomassa distintas, mas com o mesmo propósito.“Nas duas, o objetivo é promover a sustentabilidade, aproveitando os resíduos das nossas indústrias. Assim, transformamos esse passivo em algo rentável e que traz benefícios para o meio ambiente e a sociedade”, afirma Gilvan Plodowski, coordenador de Biomassa da Castrolanda e Energik, marca criada pela Unium para este projeto.

Plodowski revela que a usina de biomassa da Energik, localizada em Castro (PR), ao lado da planta Alegra Foods, “tem 1,2 MW de potência instalada, um potencial de geração de 730 kWh/mês, suficiente para abastecer 4,8 mil casas por mês”, exemplifica. Já a planta da Castrolanda, que fica na Unidade de Produção de Leitões (UPL) em Piraí do Sul (PR), tem 233 kW de potência instalada. Os resíduos, antes destinados a aterro sanitário ou compostagem, já estão sendo tratados e gerando biogás, e as empresas aguardam apenas a conclusão do comissionamento das duas plantas, que é o processo da conexão da usina com a rede de energia elétrica da concessionária, para dar início à geração de energia elétrica, o que deve acontecer no início de 2021. Essa energia já tem destinação certa, e vai atender também associados de outras cooperativas. Na da Castrolanda, 50% da geração vai ser consumida na própria UPL e o restante vai atender o consórcio firmado com o Sicredi. Já na planta da Energik, do grupo Unium, toda a geração vai ser destinada a uma cooperativa de geração distribuída energia elétrica do Paraná, em contrato de arrendamento, para integrar o atendimento ao consumo de seus cooperados.


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 97


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