Avanço da digitalização (Agro 4.0) pressiona demanda por capacitação rural

Publicado em: 28 janeiro - 2021

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Contraponto fundamental para otimização das novas tecnologias digitais, a capacitação rural certamente demandará mais tempo até a completa digitalização do campo (Agro 4.0), de maneira mais harmônica no país, uma vez que o produtor não dispõe, ainda, de uma formação educacional suficiente que dê base para a plena utilização das novas ferramentas disponíveis no mercado.

Estudo mais recente disponível sobre o assunto, o Censo agropecuário 2017 (IBGE) revela alguns dados preocupantes, como o contraste entre a celeridade crescente de replicação do conteúdo digital no setor (e na economia, em geral) e o compasso marcado e mais lento (como era de se esperar) para assimilação das novas ferramentas tecnológicas pelos produtores rurais. À pesquisa, mais de 80% dos produtores rurais responderam que “não recebem qualquer assistência técnica”, primeiro degrau para o acesso às novas tecnologias.

Outro dado de alerta é o fato de que mais de 60% dos produtores rurais passaram da casa de 45 anos e 80% concluíram apenas o Ensino Fundamental. Em contrapartida, em igual período, o número de tratores no campo subiu 50%, o que corresponderia a um acréscimo de 1,22 milhão de unidades, sinal claro de que, turbinado tecnologicamente, o meio rural acelera sua mecanização, rumo à automação das fazendas. Na contramão da capacidade cognitiva do indivíduo rural de reter conhecimento, assombra a marcha vertiginosa da Internet no campo, que cresceu 1.900% entre 2006 e 2017, embora 70% das mais de 7 milhões de propriedades rurais do país ainda não dispusessem, no período citado, de acesso à rede mundial de computadores. Ou seja, a demanda pelo acesso digital tende a se intensificar muito nos próximos anos, aumentando o risco de se criar um ‘fosso’, se comparada à cadencial reformatação do processo de gestão rural. Na mesma pesquisa, enquanto a população ocupada na agricultura familiar deu ‘marcha-ré’, encolhendo em 2,166 milhões de pessoas, nos estabelecimentos não caracterizados dessa forma houve acréscimo de 70,9 mil postos de trabalho. 

Líder de educação e boas práticas agrícolas da CropLife, Roberto Araújo

Uma das empresas de ponta que se dedica a estudar o assunto, a CropLife Brasil publicou artigo recente – assinado pelo líder de educação e boas práticas agrícolas da empresa, Roberto Araújo – que dá destaque à conclusão de estudo conjunto da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), segundo o qual, até 2030, “será necessário aumentar a produção global de alimentos em 20% para garantir a segurança alimentar, em que o Brasil terá de contribuir com a maior parte desse avanço, precisando crescer 40%, no mesmo período”. 

A questão, realçada pelo líder da CropLife, é que “não basta ter acesso a tecnologias inovadoras (como os pesticidas, biopesticidas, sementes geneticamente avançadas, novas máquinas e soluções digitais), se os agricultores e trabalhadores rurais não souberem como utilizá-las corretamente”. Ao mesmo tempo, Araújo lembra que a universalização da 5G, com leilão iminente, o remanejamento de recursos públicos para garantir a universalização da telefonia fixa e a ampliação de acesso à Internet de alta velocidade são fatores que pressionam o outro lado da moeda, o elemento humano, ainda insubstituível, que requer qualificação acelerada de mão-de-obra e pressupõe o interesse despertado aos jovens pelo mercado agro.

Com seu crescimento econômico das últimas décadas ‘ancorado’ no agronegócio, o Brasil tem pela frente o desafio de se tornar, nos próximos anos, o maior produtor mundial de alimentos. Para vencê-lo, na visão da CropLife Brasil, o país poderá lançar mão de iniciativas, como a realização de parcerias público-privadas, além de costurar um pacto entre governos, indústria, agricultores, revendedores, cooperativas, academia, escolas técnicas, a fim de pavimentar um caminho seguro – de caráter de política pública permanente – de promoção da educação digital, aliada ao reforço da assistência técnica no campo.

Sempre pioneira em soluções, digitais ou não, a Bayer acaba de lançar – por meio da plataforma de agricultura digital Climate FiedlView – a Universidade FieldView, programa de qualificação de equipes de cooperativas e de distribuidores, que visa capacitar profissionais da rede de distribuição sobre o uso de ferramentas digitais no campo. Ciente de que a crise mundial provocada pela pandemia, “alterou a forma como as empresas se relacionam com seus clientes, impactando toda a cadeia do agronegócio”, a gigante alemã entende ser necessário “auxiliar a transformação (digital) de seus parceiros, além de suprir a demanda por conhecimento tecnológico voltado à agricultura digital”.

Para preencher tal lacuna, o Universidade FieldView – em parceria com a consultoria de negócios, Markestrat Group – será dividido em duas trilhas de conhecimento: uma técnica, com habilitação   sobre as funcionalidades da solução Climate FieldView, que inclui lições práticas de como as distribuidoras podem auxiliar os clientes no uso da plataforma e os benefícios da digitalização; uma parte de negócios, que foca em agricultura digital, troca de conhecimentos sobre tendências do setor, mudanças no mercado, planejamento comercial e gestão. De acordo com o planejamento, cada trilha terá a duração de seis semanas, nas quais cada participante de 90 dias para concluir os módulos online, seguidos dos testes de avaliação do conhecimento adquirido durante a capacitação.

Coordenador técnico da Lar, Deivid Nazário de Assis

Após o lançamento da primeira edição, em outubro último, o programa conta atualmente com a inscrição de colaboradores relacionados a 20 distribuidores. Um dos exemplos desse avanço é o da Cooperativa Lar Industrial, do Paraná, precursora na especialização de sua equipe no mundo digital. “O digital veio para ficar e vai evoluir ainda mais no campo, onde muita coisa vai mudar nessa década mesmo. Esse conhecimento hoje é quase obrigatório ao profissional do agronegócio, que atua no campo, trabalha com isso ou esteja acompanhando essa evolução”, comenta o engenheiro agrônomo e coordenador técnico da Lar, Deivid Nazário de Assis, de Medianeira (PR), ao contar que conheceu o Universidade FieldView por meio de um representante da Bayer na região.

No momento, pelo menos outros 20 agrônomos das unidades do Mato Grosso do Sul e Paraná da Lar participam do Climate FieldView. Para a gerente de engajamento e conhecimento com parceiros da Climate para a América Latina, Ivana Amaral, o programa deve apresentar expansão substancial este ano, conquistando mais locais e parceiros. “Queremos qualificar cada vez mais quem trabalha no campo, pois a transformação digital demanda que se ‘rompa com alguns conceitos’ (ou resistências) sobre tecnologia, mudando para sempre a vida do agricultor, mas para melhor”.

Somente com uma assistência técnica e gerencial de qualidade será possível capacitar tecnologicamente produtores e cooperados rurais. Com essa visão, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) – vinculado à Confederação Nacional da Agricultura (CNA) –  criou o AgroUp, rede nacional de inovação para o agronegócio, que nasce com a “missão de conectar o produtor rural à inovação tecnológica, proporcionando mais eficiência à atividade rural e buscar soluções inovadoras, na mira da redução de desigualdades e a criação de oportunidades para jovens e produtores rurais”. Entram nesse cardápio, ferramentais fundamentais à produtividade, como: agricultura de precisão, AgroUp, conectividade, inovação, inteligência artificial, automação e capacitação de jovens.

Presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, João Martins

Na avaliação do presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, João Martins, a “assistência técnica para os novos tempos vai muito além de introduzir novas formas de produção, mas visa qualificar produtores para a gestão do negócio, na direção do melhor uso de seus recursos e na administração de custos, conectando-se e se integrando às redes econômicas às quais precisa se integrar. Tudo isso servirá para que eles ganhem adquiram uma percepção mais aguçada das oportunidades de mercado”.

Além disso, o AgroUp serve como ponte para aproximar as inovações tecnológicas da comunidade rural, mapeando para o produtor, tanto problemas, quanto oportunidades, por conta de maratonas de programação, design sprints e hackathos, os quais abrangem profissionais de várias áreas, em períodos de48 a 54 horas, mantendo o foco na criação de um novo programa digital. A questão central das dinâmicas gira em torno de resolver desafios de uma determinada cadeia produtiva, apontados por produtores rurais. Como prêmio, a melhor solução passa a contar com incentivo financeiro e mentoria. Uma vez superados os testes desenvolvidos por uma equipe da AgroUp, as soluções encontradas são aplicadas às propriedades rurais, sob avaliação dos produtores. Entre as ferramentas digitais com maior demanda na atualidade, o Programa Nacional de Agricultura de Precisão do Senar capacita o produtor a se beneficiar das novas tecnologias, que lhe auxiliam, por exemplo, no melhor conhecimento das características de solo, variações do tempo e diversidade de culturas, sem contar a identificação do tipo de semeadura adequada ou o uso correto drones ou pulverizadores. Em seis anos, esse programa capacitou mais de 12 mil produtores rurais (por meio das administrações regionais do Senar) em treinamentos promovidos nos estados do Tocantins, Pará, Rondônia, Distrito Federal, Amapá, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Bahia, Mato Grosso e Paraná. Agora extensivo a todo o país, o programa do Senar inclui sete novas ‘disciplinas’ (ferramentas): Introdução à Agricultura de Precisão”, “Sistemas de Orientação por Satélite”, “Agricultura de Precisão em Diferentes Culturas”, “Semeadura”, “Distribuição de Corretivos e Fertilizantes”, “Aplicação de Defensivos Agrícolas” e “Colheita de Grãos”. Os cursos somam mais de 50 mil matrículas em três anos e podem ser acessados no portal do Senar.

Cooperativas na vanguarda – Como a maior parte das propriedades do país não possui profissionais capacitados em novas tecnologias, as cooperativas podem assumir o papel estratégico fundamental de provedores dessas soluções, no entendimento do superintendente de Tecnologia Agrícola da Coopercitrus – Cooperativa de Produtores Rurais, Marcelo Henrique Bassi, para quem grande parte das propriedades não detém “escala que viabilize o manejo próprio com tecnologias, por uma questão de qualificação ou custo”, ao passo que a estrutura cooperativa “pode levar essas soluções rapidamente ao produtor, que então fica mais livre para manter o foco absoluto na gestão do negócio, o chamado core business”.

“No que toca às tecnologias que devem ser priorizadas para fins de capacitação, Bassi entende que “a maior necessidade, neste momento, é de domínio dos sistemas de gerenciamento de custos, que lhe permitem uma visão completa dos custos apropriados à sua cadeia de produção, sem esquecer a introdução e melhorias na parte nutricional de plantas”. Entre as ferramentas digitais com reflexos imediatos na produtividade e redução nos custos de produção, o executivo da Coopercitrus destaca a agricultura de precisão, que dá a opção de medir a produção por R$ a saca ou a tonelada. Isso sem contar com a telemétrica, que eleva o rendimento operacional. Em outra aplicação, a agricultura de precisão é solução para a variabilidade de solo, muito acentuada no país, a ponto de ocorrer uma variação de produção de até 100% numa mesma gleba. Nesse caso, a ferramenta atua “forma cirúrgica nesses pontos, a fim de diminuir esses vazios ou lacunas produtivas no terreno (gaps).

Sobre o risco de a digitalização irreversível do campo implicar concentração de terras e especulação imobiliária – que ocorrem com mais intensidade no Norte do país – o superintendente da Coppercitrus rechaça a tese, afirmando que o processo de concentração fundiária está relacionado mais diretamente a questões de mercado. Voltando à necessidade de uma mudança de mentalidade, por parte dos produtores, cooperados ou não, em favor da absorção de novas tecnologias, Bassi avalia que essa deverá descrever uma “evolução lenta, em compasso com as mudanças de gerações, turbinadas por produtores influenciadores”. Ao admitir que a capacitação hoje desenvolvida é inteiramente online, o superintendente frisa os avanços conquistados em algumas das principais culturas do país (soja, milho, feijão, algodão e cana-de-açúcar), mediante a introdução de tecnologias que tornaram mecanizados todos os respectivos processos. Entre elas, ele destaca ganhos como o aumento do número de plantas por hectare; identificação de anomalias; melhorias na nutrição, por meio de análise de solo georreferenciada, entre outras.

Ao comentar a situação trágica de desemprego para muitas famílias, Bassi avalia que “falta ao país uma política pública que concilie demanda e capacitação, uma vez que o jovem não possui maturidade para entender desse assunto. Daí a necessidade de contarmos, por exemplo, com menos cursos de Ciências Humanas e mais aqueles voltados à produção, como cursos técnicos específicos”.

Em artigo publicado pelo líder de agricultura digital da Corteva Agriscience – divisão agrícola da DowDuPont, José Humberto Vecchi elencou quatro desafios para a gestão de pessoas no meio rural, visto por ele como um “dos principais gargalos do processo de profissionalização do agronegócio por aqui”, pois esta requer, “não apenas a evolução tecnológica no campo, mas um apuro profissional para lidar com inovações tecnológicas”. Para Vecchi, os desafios são:

  •  Encontrar e reter talentos – identificação daqueles profissionais dispostos a permanecer mais tempo na propriedade, com motivação e empenho semelhantes aos dos proprietários, tendo por base a implementação de uma gestão profissional com processos claros, boas condições de trabalho, alto engajamento, além de planos de desenvolvimento e benefícios atrativos que potencializem a retenção de talentos.
  • Treinar e desenvolver pessoas – preparação dos profissionais para trabalhar com qualquer tipo de tecnologia aplicada ao campo, que exige competências e habilidades distintas, conforme os produtos ou regiões em que estão localizadas.
  • Criar estratégias de gestão – elaboração de estratégias competitivas que levem em consideração a produtividade, a eficiência e o custo por meio de ferramentas tecnológicas modernas de planejamento e direção.
  • Profissionalizar a gestão – essa tarefa torna-se mais complexa, sobretudo nas propriedades que não contam com ferramentas e sistemas tecnológicos que deem suporte ao gerenciamento operacional diário. Esse desafio embute outro, que é o da sucessão familiar, que sempre traz algum tipo de resistência, pois a nova geração tende a reproduzir automaticamente o modelo de gestão anterior, sem avaliar necessidades de mudança.

Por Marcello Sigwalt – Redação MundoCoop



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