BC: flexibilização de regras pode dobrar participação de cooperativas no mercado de crédito

Publicado em: 08 dezembro - 2020

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As cooperativas de crédito se mantêm em compasso de espera pela aprovação de projeto de lei complementar (plc), em tramitação na Câmara dos Deputados desde abril último, com a retirada de entraves que dão maior segurança jurídica ao segmento, que poderá experimentar crescimento exponencial nos próximos anos.

A iniciativa reforça a expectativa do Banco Central (BC) de praticamente dobrar – dos atuais 13% para 25% – a participação das cooperativas de crédito nas regiões Norte e Nordeste, até 2022, “onde há grande potencial de crescimento”, assinala o diretor de Fiscalização da autarquia, Paulo Souza, ao acrescentar que, em contrapartida, no Sul, o sistema cooperativo participa com 50% das linhas de capital de giro.  

Entre as mudanças, o projeto contém uma regra que permite às cooperativas possuir cooperados em qualquer lugar do país, cujo ingresso pode ser feito de forma inteiramente virtual. A determinação substitui outra, que estabelece uma distância máxima para que isso ocorra. “O objetivo é melhorar a organização sistêmica das cooperativas e dar mais liberdade de atuação. Ao mesmo tempo, elas poderão andar em blocos e se integrarem”, acrescentou o diretor de Fiscalização da autoridade monetária, Paulo Souza.

Tais medidas integram a ‘agenda de competição monetária’ do BC, cuja estratégia é ‘flexibilizar regras para o segmento cooperativo. “Pelas novas regras, o cooperado de uma instituição poderá tomar parte do crédito em outra, caso não haja recursos suficientes na sua. Isso abre caminho para que empresas maiores possam tomar crédito em cooperativas”, assinalou o diretor.

Pela previsão do representante da autoridade monetária, “neste ano, o crescimento das cooperativas deve aumentar, ainda mais, em razão das linhas de crédito emergenciais, criadas pelo governo para apoiar micro, pequenas e médias empresas, em que o setor cooperativo se destacou muito”. Segundo ele, a ideia do BC é incentivar a ampliação das opções de crédito aos cooperados, uma vez que apenas 30% do crédito tomado pelo associado é feito na cooperativa, pois a maior parte provém de bancos e outras instituições. “Portanto, há espaço para elevar esse índice”, afirmou.

Outra tendência recente, destacada por Souza, diz respeito à captação de recursos pelas cooperativas, por meio da poupança, primeiro passo para a concessão de crédito imobiliário, em seguida, “o que deve atrair o cooperado”. Ele acrescenta que, por regra, parte do recurso depositado na conta poupança deve ser alocado nas carteiras de crédito imobiliário ou rural. O diretor comenta, ainda que, em geral, o cooperado não tem conhecimento das linhas existentes na cooperativa que, muitas vezes, não dispõe de recursos suficientes para realizar a operação. “As mudanças também devem facilitar nesse sentido”, acrescenta.

Estratégia sugerida – Para que o segmento cooperativo amplie sua participação no mercado de crédito, o BC sugere que estas priorizem a população de baixa renda. Ao mesmo tempo, Souza admite que “a maior parte dos associados do segmento têm renda superior a dez salários mínimos”. A intenção do BC é fazer com que a metade dos cooperados seja de baixa renda.

O coordenador nacional de crédito da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Marco Aurélio Almada, considerou ‘factível’ a meta estabelecida pela autoridade. “Acredito que as regras que flexibilizam a atuação cooperativa devem facilitar esse crescimento”, afirmou, acrescentando que o setor ‘precisa crescer mais também nas capitais e nos grandes centros’. “As cooperativas têm forte presença em cidades do interior, onde, por vezes, são as únicas instituições da região. Nas metrópoles, no entanto, são pouco conhecidas”, avaliou, sem esquecer de citar o papel estratégico vital da inovação para o êxito dos negócios.

Com a crença de que “o cooperativismo se fortalece em tempos de crise”, o diretor da Unicred, Luis Schuller, entende que “o crédito normalmente desacelera em momentos de baixa atividade econômica pelo risco de inadimplência e as cooperativas suprem essa carência, especialmente entre empresas menores”, admitiu. Segundo ele, as taxas praticadas pelo segmento são menores do que as demais, “especialmente em linhas como crédito pessoal não consignado e capital de giro, além da proximidade com a clientela. “Mesmo com o atendimento virtual, as cooperativas prezam por estar próximas do associado, que também é dono da instituição e se compromete com seu desempenho. Por isso, nossas operações têm menor risco”, explicou.

Já o presidente do banco cooperativo Sicredi, João Tavares, enfatizou que “o objetivo do BC é gerar mais competição e, com isso, taxas de juros mais baixas no mercado”. Para ele, “com mais empresas tendo acesso a crédito, há mais emprego também”, concluiu, afirmando que “já temos forte atuação em micro e pequenas empresas e pretendemos ampliar ainda mais. Não temos apetite a oferecer crédito às grandes empresas, por exemplo”.


Marcello Sigwalt – Redação MundoCoop


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