Cooperativismo e imigração: histórias que se entrelaçam há mais de um século

Publicado em: 23 setembro - 2021

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Desde pequenos, temos contato com a pluralidade de pessoas que compõem o Brasil. A junção de culturas, dialetos e costumes que aqui existem hoje, são resultado de séculos de movimento imigratório. Pessoas que, ano após ano, buscaram no Brasil novas oportunidades, seja no trabalho ou na vida em si. 

E, assim como este movimento, o cooperativismo também possui uma história de transformação e conexão com esses imigrantes. Muitas das cooperativas que conhecemos hoje, foram fundadas a partir de pequenos grupos que aqui chegavam e começavam a fazer história. 

A relação entre cooperativismo e imigração remete há mais de um século, e a história de um se entrelaça com a do outro. Mesmo com as mudanças naturais ao decorrer das décadas e séculos, o movimento cooperativista ainda hoje desempenha um importante papel na inclusão das pessoas que aqui chegam. 

Precursores de um movimento 

Assim como o movimento imigratório compreende pessoas em busca de uma nova vida, o cooperativismo possui em si, a missão de trazer melhores oportunidades para um determinado grupo. Por isso, ao longo dos séculos, o movimento tem visto sua história se entrelaçar com movimentos culturais e sociais. E em particular, o movimento imigratório. 

“O modelo cooperativista que vimos crescer nas últimas décadas em diversos setores da economia, também é parte do princípio da necessidade comum de um grupo em busca dos mesmos objetivos. E fatores externos são os maiores impulsionadores deste modelo”, afirma Shandrus Hohne de Carvalho, Presidente Executivo da Cooperativa Agroindustrial Holambra. 

Shandrus Hohne de Carvalho, Presidente Executivo da Cooperativa Agroindustrial Holambra. 

Fundada há mais de 60 anos, a Holambra é um dos exemplos de cooperativas formadas por imigrantes. Criada por imigrantes holandeses que aqui chegaram em meados dos anos 1960, a cooperativa é um exemplo de intercooperação entre Brasil, Holanda e Estados Unidos, que juntam ofertaram novas oportunidades para um povo em busca de novas alternativas, como Carvalho descreve. Essa conexão direta com o movimento imigratório é apenas um dos exemplos de ligação entre o tema cooperativismo e imigração. 

“De fato, o movimento de migração dos povos europeus para o Brasil, principalmente pós-Segunda Guerra Mundial, contribuiu muito para a criação do movimento cooperativista no país e isso está diretamente ligado à necessidade de sobrevivência frente a fatores externos muitas vezes desconhecidos e muito desafiantes”, nos conta Carvalho. Com a ideia de unir pessoas em prol de melhores oportunidades, o cooperativismo seguiu como o formato ideal de inclusão para essa população, que de uma hora para a outra, precisava se adapta a novos costumes, culturas e língua. 

Consolidação e transformação 

Antes um modelo um tanto quanto experimental, hoje o trabalho entre cooperativas e organizações que trabalham em prol de imigrantes se encontra consolidado, com as cooperativas cada vez mais preparadas para oferecer a esta população, oportunidades e condições que realmente farão a diferença. 

Não só uma transformação social, a chegada de diversos povos ao nosso país também trouxe novos conhecimentos. Aqui, com a chegada de imigrantes de todas as partes do globo, novas culturas alimentícias se desenvolveram e formaram um novo agro que hoje alimenta o Brasil e milhões ao redor do mundo. “A imigração de novas culturas para o Brasil trouxe métodos e formas de trabalho que ajudaram no desenvolvimento do agro no Brasil, mas muita coisa teve que ser adaptada para o tipo de terra, clima, pragas e doenças que se estabelecem em regiões de clima tropical como o nosso”, afirma Carvalho. 

Assim, ano após ano, a relação entre cooperativismo e imigração se modifica, trazendo ganhos não só para as pessoas inseridas nestes processos, mas também para o movimento cooperativista em si, para as comunidades e para o país. Sendo um agente social completo, hoje cooperativas de todo o país trabalham para ajudar pessoas, sejam elas nascidas aqui ou não. Diferenças ficam de lado, e a inclusão torna-se a palavra de ordem.  

Felipe Candin, Assessor em Economia Solidária da Cáritas Regional SC

Intercooperação e Acolhimento 

O cooperativismo hoje demonstra uma força indiscutível. Mas quando se trata de ajudar pessoas, um número cada vez maior de engajados é altamente desejável. Sendo assim, nas últimas décadas novas organizações tem entrado na missão de acolher imigrantes em nosso país. Tais organizações, mesmo aquelas fora do movimento cooperativa, reconhecem nele o seu poder de transformação. 

Uma dessas organizações é a Cáritas, que há mais de 60 anos desempenha um importante papel na busca por igualdade e oportunidades justas e iguais para todos. Assim como no cooperativismo, o processo em que pessoas se empenham em ajudar pessoas acontece a cada dia, nos mais diversos âmbitos. E para essa organização, o trabalho cooperativo é peça fundamento para o desenvolvimento humano, sobretudo para populações em vulnerabilidade, como os imigrantes. 

“Quando falamos da questão de geração de trabalho e renda observamos que o trabalho cooperado é ponto essencial para possibilitar o desenvolvimento desses migrantes que atendemos hoje, principalmente por possibilitar a estas pessoas a integração social com a cultura local e trabalhar de forma digna, onde as pessoas são mais que meros elementos que geram lucros para outros, mas agentes sociais que atuando coletivamente fazem suas histórias e promovem o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e próspera”, ressaltam Felipe Candin e Isadora Azevedo, porta-vozes da Cáritas Regional Santa Catarina. 

Assim como uma ferramenta precisa manutenção, o oferecimento de oportunidades necessidade de um trabalho próximo, seja por parte das cooperativas ou não. Desta forma – apenas com uma verdadeira dedicação – o interesse pela comunidade será efetivamente colocado em prática. Para isso, a palavra-chave tanto para organizações sociais quanto para cooperativas, é apenas uma: acolher. 

Isadora Azevedo, Assessora em Migração e Refúgio da Cáritas Regional SC 

“Objetivamente a palavra ou melhor, a nossa ação aqui, deve estar pautada em ACOLHER e acolher de forma integral, não apenas como uma ação pontual que não nos leve ao comprometimento, mas acolher na perspectiva de receber as pessoas abertos ao diferente, possibilitando para elas a inserção cultural acolhendo suas potências e conhecimentos”, afirmam. 

Trabalho contínuo 

Pessoas chegam ao Brasil dia após dia. E continuarão chegando. Sejam quais for os motivos, é sabido que mais pessoas precisam – a cada momento – de ajuda. Uma ajuda que não seja usada de propaganda, mas uma que realmente faça a diferença. Para isso, apenas o engajamento efetivo de cooperados, sociedade e governantes, nos tornarão uma sociedade acolhedora de verdade. A missão é, sem dúvidas, pensar em práticas que saiam da teoria, e tomem forma. 

“Ao mesmo tempo em que acolhemos, devemos pensar e desenvolver estratégias para soluções duradouras em conjunto com a população migrante que aqui vive. Temos que ter sempre em vista a importância da construção de políticas públicas que contribuam para a autonomia e integração saudável da população migrante nos municípios e no estado”, eles concluem. 

Somos um movimento de pessoas para pessoas. E para que possamos cumprir nossa missão, se faz necessário entender a realidade daqueles que são acolhidos e ajudados por nós. Sejam eles nascidos em nosso país, ou abraçados por ele. Um verdadeiro cooperativismo não cria caixas para as pessoas que o procuram. Um verdadeiro cooperativismo lembra da sua essência: um movimento de pessoas diversos, em busca de um objetivo comum. Apenas esse resgate tornará possível acolher não apenas nossos vizinhos, mas também aqueles que neste exato momento, estão atravessando terra e água em busca de uma nova vida. Como você – cooperado – irá ajudar este semelhante? Esta é a reflexão que fica.


Por Leonardo César – Redação MundoCoop


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