Diversidade etária: cooperação em busca de desenvolvimento

Publicado em: 25 agosto - 2021

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Uma das poucas certezas da vida é que vamos envelhecer. Apesar de a ficção criar métodos e práticas para manter a vida e assim atingir a imortalidade, o mundo real não é bem assim. Décadas se passam e seguimos o curso da vida, ocupando o lugar daqueles que vieram antes de nós. No mundo do trabalho, isso também acontece. 

Nos dias de hoje, cada vez mais é comum que empresas, organizações e cooperativas tenham um corpo de colaboradores diverso. E não estamos falando apenas de diversidade étnica e gênero, mas também de um terceiro tipo, que não é muito colocado em pauta: a diversidade etária. No mundo de hoje, gerações trabalham em conjunto, todos em busca em um mesmo objetivo. 

Mas o que fazer quando esses grupos distintos entram em conflito? Como garantir que a fome por mudança dos mais novos e a experiência dos mais velhos sejam devidamente levadas em conta na tomada de decisão? Essa é uma resposta que qualquer ambiente profissional precisa ter. Pois saber lidar com a diversidade etária, resulta em uma oportunidade de desenvolvimento além do que se imagina.

Uma antiga questão de RH 

As várias faixas etárias convivem pacificamente na sociedade e nos círculos familiares. Obviamente, com pontos de vista e contextos diferentes, é natural que pequenas ou até mesmo, acaloradas discussões aconteçam. Mas o que fazer quando o contexto onde isso ocorre é o ambiente corporativo? Hoje, empresas observam diariamente seus colaboradores, com diferentes backgrounds, trabalharem em conjunto. Da diversidade de pontos de vista, vemos o crescimento de ideias e insights que levam a sociedade ao próximo passo. Para que tudo siga no cronograma planejado, é preciso de dedicação de todas as partes. E isso inclui, obviamente, a gestão. 

Mara Giovana Fritz Schwatz, consultora de Desenvolvimento Humano e Organizacional

“O ambiente corporativo costuma ser composto por pessoas de diferentes gerações e, para evitar que a diferentes visões de mundo conflitem dentre as pautas e ambiente profissional, é indispensável que as gestões discutam a diversidade etária”, afirma Mara Giovana Fritz Schwatz, consultora de Desenvolvimento Humano e Organizacional. Assim como em vários processos, o primeiro passo para identificar o fenômeno geracional é reconhecer a sua existência. E por mais que esta seja uma tarefa básica, muitas vezes ela é deixada de lado. 

Como já mencionada, diferentes visões são naturais em ambientes onde vozes diversas entram em contato. E quando falamos em divergências, estamos falando não só em um ou outro aspecto. Esse tema, ora, é mais complexo do que muitos podem imaginar. “As divergências entre as gerações perpassam inúmeros aspectos do trabalho, a visão sobre carreira e sobre sucesso, sobre mercado, a relação com as hierarquias e a autonomia para pensar e agir além das obrigações, bem como mudam também os entendimentos sobre competitividade e cooperativismo”, ressalta Schwatz. 

Para promover o diálogo, num primeiro momento, é preciso levantar a pauta da diversidade etária no ambiente organizacional. Isto é, colocar no dia a dia a constatação de que esse fenômeno acontece e é uma realidade. Após isso, a próxima questão é: por que é desejável um ambiente onde faixas diversas se unam em um único propósito? A resposta básica é clara: um espaço de diálogo mais saudável. Mas uma resposta prática por vezes produz mais efeito, e é isso que Schwatz faz questão de destacar. 

“É necessário entender as diferentes gerações como partes que se complementam dentro da organização, criando uma estratégia onde as diferenças coexistam e sejam vistas como uma multiplicidade de recursos. Uma consequência disso é pensar na dinâmica da empresa apoiada mais sobre uma boa estratégia coletiva do que no desempenho individual.”

Mara Giovana Fritz Schwatz, consultora de Desenvolvimento Humano e Organizacional

Multiplicidade de recursos. Ao trazer para o ambiente corporativa a experiência dos mais velhos e o desejo de mudança dos mais novos, ficamos diante de uma fórmula que pode resultar em cenários extremamente positivos. Sim, falamos em gerações ocupando o lugar de outras. Mas é um processo lento, uma sucessão que não acontece em meses ou anos. O fenômeno geracional é uma constante, e aprender a manuseá-lo é a resposta para organizações mais eficientes, que aproveitem o potencial de cada um de seus colaboradores. 

Mesmo diante do mundo digital, é possível incluir todos nestes novos processos. E neste cenário, as gerações mais uma vez entram em contato. Novas ferramentas estão surgindo a todo momento, e a cabe aos mais jovens transmitir seus conhecimentos para aqueles que vieram antes. Na busca por um trabalho harmônico, boas habilidades de comunicação interna são a resposta para potencializar resultados. “Uma possibilidade de criação de laços entre diferentes gerações, pela iniciativa dos mais jovens, é o auxílio destes na inserção dos mais velhos às novas tecnologias e meios virtuais. Essa troca trabalha sentimentos como o de acolhimento, empatia, paciência e criação de vínculo”, Schwatz conclui. 

Cooperativismo e sucessão 

Neste debate todo sobre como tirar proveito da diversidade etária, onde as cooperativas se encaixam? Bem, sendo um movimento focado em pessoas, podemos dizer que o movimento cooperativo é um belo exemplo de sistema que trabalha suas gerações de forma ampla. Seja auxiliando os mais velhos ou levando educação de base aos mais novos, o cooperativismo coloca diferentes perfis de pessoas em contato, e dessa relação, tira um dos maiores triunfos dos “negócios” pautados em relações humanas. 

Para Neivor Canton, Presidente da Aurora Alimentos, a diversificação do corpo de colaboradores é um dos principais fatores de impacto positivo no desenvolvimento das cooperativas. Da união de visões, o movimento tira o elemento que faz o movimento ter os resultados que vemos hoje. “Os múltiplos pontos de vista diante da diversidade de faixas etárias são comuns não somente no ramo cooperativista, mas sabemos que neste cenário é ainda mais desafiador. Diante disso, a Aurora entende que equipes inclusivas tomam decisões mais assertivas e atestam uma maior produtividade, gerando maiores resultados”, afirma. 

Com características próprias, o cooperativismo tem em si seus próprios desafios quando falamos do tema diversidade etária. Isso, porque o movimento tem um fenômeno próprio, de pais que passam suas propriedades para seus filhos. Mas o que fazer quando a próxima geração tem outros objetivos? Apesar de ser um campo que atrai grande atenção, a sucessão familiar ainda possui algumas barreiras geracionais que vão de encontro com mudanças sociais que vão além da nossa geração. 

Neivor Canton, Presidente da Aurora Alimentos

“Sucessão Familiar é outro campo que requer uma harmonia entre diferentes gerações com base nas experiências vividas dentro do encadeamento produtivo, onde trabalhamos com todas as gerações. Os jovens são atraídos pelo meio urbano como fonte de mão de obra, e as famílias com número reduzido de filhos fazem com que muitas vezes a migração seja a mão de obra vital de renovação da unidade familiar”, nos conta Canton. A mudança na composição familiar brasileira ao longo das décadas reflete diretamente as mudanças do mercado de trabalho, e neste ponto, falar de diferentes visões vindas de distintas faixar etárias, também é falar de mudanças culturais. Barreiras antigas, que aos poucos são quebradas. 

Quando o assunto é a sucessão familiar, Canton destaca a masculinização do campo e o medo patriarcal de deixar a propriedade nas mãos da próxima geração, como alguns dos motivos que levam a questão geracional a ser mais complexa do que pensamos. Mesmo que seja um caso particular do ramo agro, este é um exemplo de como a relação entre faixas etárias pode exercem uma influência gigantesca na forma como o mundo do trabalho funciona hoje, e como ele funcionará daqui a uma década. 

Cooperação para a prosperidade 

Depois dessa reflexão, a questão que fica é: como podemos garantir que a questão geracional se torne um fator positivo, e não um empecilho? Revisitando algumas análises anteriores, o primeiro passo sempre será a constatação de que isso é algo real. Muitas vezes, os motivos para o surgimento de problemas estão em nossa frente, e o vital passo não é dado: reconhecer quais são eles. Após isso, qual o próximo passo? 

“Investir em treinamentos que potencializam os diversos públicos e perfis, buscando a inclusão de profissionais competentes sem distinção de faixa etária. Diante de seu rol de treinamentos, apresentar programas desde a entrada do empregado na cooperativa, no qual contem conteúdos que ressaltam a importância da diversidade, além de outros programas da área de treinamento e desenvolvimento que são específicos para cada área de atuação. Isto, sempre preocupados em manter constantemente presente, em todas as nossas ações, o nosso propósito: cuidar de cada um para a prosperidade de todos”, Canton conclui. 

Essa resposta, Canton nos dá a seguir. Apesar do contexto cooperativista, este é um passo que pode ser levado para os mais diversos tipos de empresas e organizações. Pois no fim a questão é a mesma: como alcançar o potencial do capital humano que temos hoje? Ao encontrar essa resposta, os resultados podem ser inúmeros. E para expandi-los, basta incluir todos no processo: nova e antiga geração. Cada um, trazendo o elemento que lhe é mais forte. Dessa forma, o cenário ideal virá de dois elementos: da novidade e da experiência. 


Por Leonardo César – Redação MundoCoop


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