Dólar, commodities e a posse de Trump: relação íntima, segundo consultor

Publicado em: 12 janeiro - 2017

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O ano começou com cenário econômico movimentado. O dólar – após subir para R$ 3,50 há menos de 60 dias – atingiu corações inferiores a R$3,20 na primeira quinzena do mês. Os prognósticos, de acordo com José de Faria Júnior, diretor da consultoria Wagner Investimentos (WIA), estão vinculados à posse de Donald Trump na presidência dos Estamos Unidos da América, prevista para 20 de janeiro e ao cumprimento das promessas de campanha, assim como a deliberações do Fed (Banco Central norte-americano).

Estendendo o olhar a commodities, Faria Júnior não vê motivos para a elevação desses ativos, ao contrário, estima queda, pois, “como são cotadas em dólares, uma eventual retomada da cotação do dólar/real para a faixa de R$3,30 (sem queda correspondente nos preços das commodities), pode ser uma oportunidade interessante de trava nos preços”.

Para o consultor, o movimento de alta da moeda norte-americana deve ser creditado “à surpresa da vitória de Trump e ao comunicado do FOMC (Comitê de política monetária do Federal Reserve) mais agressivo”. Ressalta, contudo, que mais do que prever o esperar para os próximos meses, é importante destacar os fatores internos que provocaram a queda do dólar no Brasil.

A lista do consultor inclui, não obrigatoriamente nessa ordem, quatro pontos fundamentais:

– Captações das empresas brasileiras, que aceleram o ritmo das emissões de bônus externos após o anúncio de intenção de captação em euros do Tesouro Nacional e antes da posse de Trump;

– CDS de 5 anos, que representa o risco país, caiu aproximadamente 20% desde a sua máxima de novembro/dezembro de 2016 e 10% desde o final do ano passado.

– Expectativa de aprovação da reforma da Previdência após a promulgação da PEC 55 (que limita os gastos do Governo) e com a crença na manutenção de Rodrigo Maia na presidência da Câmara;

– Recesso do Judiciário, que provoca ausência de notícias da Lava Jato.

Estes fatos, aliados à forte alta das commodities metálicas (minério de ferro, por exemplo, subiu aproximadamente 30% após a eleição de Trump), “ofuscaram as altas súbitas do Dollar Index (que mede a variação do dólar contra cesta de 6 moedas: euro, yen, libra, dólar canadense, coroa sueca e franco francês) e dos juros das Treasuries de 10 anos (que subiu da faixa de 1,80% do início de novembro para a faixa de 2,40% atualmente)”, explica Faria Júnior.

A posse de Trump dificulta previsões sobre o mercado, afirma o consultor, pois “o que irá ocorrer daqui para frente dependerá sobretudo das primeiras medidas adotadas por Trump e das decisões do FOMC, que indicou que poderá subir os juros nos Estados Unidos 3 vezes este ano.  Neste ambiente, acredito que o dólar/real é negociado perto do seu piso para o momento e, se Trump confirmar o seu discurso de campanha, o dólar tenderá a subir em direção a 3,30, talvez não muito mais do que isto”, prognostica.

O diretor da WIA comenta também as possibilidades em cenário mais favorável, no caso de Trump recuar seu discurso de campanha e o Fed tiver comportamento menos hawkish (termo usado para bancos centrais com disposição de subir os juros). Nessas condições, “o dólar deverá continuar a sua atual tendência de baixa e pode testar a região de R$3,10 / R$3,15”, estima, frisando que “estamos mais sujeitos a fatores externos para determinar o comportamento do dólar. Porém, é importante destacar que caso haja muita turbulência política (não aprovação da reforma da Previdência, dificuldades extremas de acordo com os Estados para equalizar as suas dívidas e muitos políticos importantes denunciados na Lava Jato), o dólar terá motivos internos para também subir”.

Em caso de alta, a estimativa de Faria Júnior é de que a moeda situe-se na região de R$3,45., podendo, a partir daí, alcançar patamares mais elevados. Se ocorrer baixa, “temos muita dificuldade de romper a região de R$3,10, que sustentou bem a cotação da moeda na repatriação ocorrida em outubro de 2016 (lembrando que este ano também teremos repatriação de recursos)”, comenta.

Sobre as commodities, recomenda atenção a acontecimentos vinculados a petróleo, metais e grãos. No caso do petróleo, vê como é provável que a cotação não ultrapasse a região de USD 60.00 devido a dificuldade da OPEP manter a produção limitada e com a provável recuperação da produção de petróleo de xisto nos Estados Unidos. “Se o petróleo perder força, a cotação do açúcar deverá cair devido a redução do incentivo para a produção de etanol”, alerta.

No que diz respeito aos metais, o diretor da WIA credita a alta à crença na recuperação dos investimentos nos Estados Unidos em meio as promessas de Trump. “Também é comentando que a alta dos metais, notadamente o minério de ferro, ocorreu como meio de diversificação de investimento dos chineses. É bastante provável que o nível atual da cotação do minério de ferro se prove insustentável (na faixa de USD 75.00) e retraia para a faixa de USD 60.00”, destaca.

A expectativa do consultor com relação aos grãos envolve tendência de baixa de longo prazo para milho e trigo, com a soja seguindo em tendência de alta de longo prazo principalmente devido as compras dos chineses, que estão estocando a commodity antes da posse de Trump, “porém notamos perda de força nas cotações. Relatório da Conab de 10 de janeiro de 2017 elevou as estimativas para a safra 2016/2017, que deverá atingir patamar recorde de 215,3 milhões de toneladas no Brasil. No caso dos grãos, observa-se aumento da produção da soja e do milho e manutenção da produção do trigo. É bastante provável que milho e trigo sigam em sua tendência de baixa de longo prazo e que a soja se enfraqueça devido a safra maior no Brasil e redução das compras dos chineses”, recomenda.