Em meio às incertezas de mercado, nutrição animal avança produção

Publicado em: 10 janeiro - 2021

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A vantagem comparativa conquistada, após anos de pesquisa biotecnológica, garante hoje à nutrição animal brasileira protagonismo para conquista de novos mercados, haja vista a grande competividade e qualidade da variedade de produtos que possui, sem contar a ótima infraestrutura logística, comparável à dos países mais desenvolvidos. No entanto, persistem algumas dúvidas, entre os especialistas, quanto às perspectivas de um mercado que ainda luta para encontrar um plano de vôo imune ao vírus da pandemia.

Estimativa mais recente divulgada pelo Sindirações (Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal) aponta que, depois de fechar o primeiro semestre com aumento de produção de 5,2% – no comparativo com igual período de 2019 –  a produção de rações do país deve fechar o ano com alta de 4,5%, em relação ao anterior ou o correspondente à marca recorde de 81 milhões de toneladas, informou o CEO da entidade, Ariovaldo Zani.

Entretanto, sobre a boa notícia pairam dúvidas em relação às perspectivas de 2021, devido a pressões dos custos de produção (milho e farelo de soja), o que tem levado os produtores de proteína animal a reduzir, preventivamente, os ciclos e alojamentos. Ainda a respeito do próximo ano, Zani entende que o segmento de rações tem sido sustentado por uma conjunção de fatores, como o aquecimento das exportações, que gera receita à atividade, associado ao auxílio emergencial – que fomenta o consumo no mercado interno. De qualquer forma, o CEO aponta a existência de “grande disparidade” entre o preço da ração e o frango de corte.

Integrante do ecossistema

Maurício Graziani, Presidente da Phibro Saúde Animal

De outra forma, o mercado de nutrição animal, há anos integrante do ecossistema do agronegócio, se vê diante de uma ‘gangorra perversa’, em que a alta das commodities encarecem custos e a produção final, revela o managing partner Brasil da FNF Ingredients, Alexandre Camargo Costa, em artigo para o site Notícias Agrícolas. Segundo ele, para muitos, a solução é recorrer a matérias-primas alternativas ou apostar na elevação dos níveis de vitaminas e aminoácidos, geralmente mais baratos. “Testando outras possibilidades no campo, é possível encontrar novos caminhos de sucesso no agronegócio, como a implementação de aditivos, que estão com preços historicamente baixos e são extremamente eficazes”, pontua o articulista, ao destacar o crescimento e a diversificação do segmento, especialmente os fabricantes chineses. “Esse é um dado extremamente relevante, uma vez que mais de 90% das vitaminas consumidas no mundo são produzidas na China e muitas multinacionais europeias possuem fábricas no país asiático ou tem parcerias com fabricantes da região”.

Costa vai além e prevê que “esses pontos podem trazer grandes benefícios para o setor, já que existem produtos chineses de altíssima qualidade, com custos reduzidos e ainda grandes aliados da máxima produtividade e qualidade no campo, contribuindo para a ampla tecnificação das propriedades.

Campeão mundial

“O Brasil é campeão mundial em produção de proteínas animais e de produtividade na avicultura, suinocultura e pecuária. Claro que a infraestrutura (especialmente logística de transporte) poderia ser melhor, mas, mesmo assim, ela é fantástica, pois consegue produzir com qualidade, segurança e competitividade. No entanto, se as condições gerais fossem melhores, aí sim seríamos imbatíveis em proteínas animais e vamos caminhar para isto com certeza”, avalia o presidente da Phibro Saúde Animal – líder mundial em produtos de saúde e nutrição animais e especialidades químicas, com faturamento anual superior a US$ 690 milhões – Maurício Graziani, ao acrescentar que, apesar do encarecimento recente de insumos, como milho e soja (que elevam os custos de produção aos produtores), “as perspectivas são animadoras, tendo em vista a forte tendência internacional compradora, sobretudo por parte da China”.

Ariovaldo Zani, CEO do Sindirações (Sindicato da indústria de alimentação animal)

De acordo com o executivo, a nutrição e a saúde animais “estão na raiz dos resultados excepcionais colhidos por várias cadeias produtivas”, a exemplo da liderança brasileira na exportação de carne de frango e bovina, e o 4º, no caso da carne suína. Somadas à pecuária de corte, a “produção brasileira deve chegar, este ano, a 27 milhões de toneladas de carnes, o equivalente a uma receita de quase R$ 100 bilhões”, estimou.

Levando em conta que a nutrição responde por quase 70% dos custos de produção de boa parte de itens como frangos, suínos, de ovos, assim como de ovos e leite, Graziani acrescenta que as cooperativas desempenham um papel essencial “no universo das proteínas animais, envolvendo milhares de produtores rurais, mediante o uso de tecnologias avançadas”, isso contar com a necessária parceria com profissionais de nutrição, saúde, genética, pesquisas e de manutenção de equipamentos”. Sua expectativa é de que, neste ano, em que pese os entraves impostos pela pandemia, a produção de proteínas avance de 2% a 4%, podendo atingir de 3% a 6%, nos anos seguintes. No que toca ao fomento da atividade, o executivo avalia que o Plano Safra anual do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento disponibilizou recursos para essa finalidade.

Fernando de Falco Filho, gerente de saúde e nutrição animal da Coopercitrus

Maior produtor mundial de milho (120 milhões de toneladas/ano) e soja (10 milhões de toneladas/ano), o Brasil tem condições de incrementar, ao mesmo tempo, a produção de proteínas e desses insumos agrícolas. Essa receita ‘caseira’ de sucesso alimenta hoje em torno de 1,3 bilhão de almas no planeta, estima o executivo. Como todo negócio, existem riscos, mas eles podem ser ‘mitigados’, segundo ele, mediante a verificação prévia da ‘confiabilidade’ dos fornecedores, sua idoneidade profissional, histórico, experiência e infraestrutura de fábricas que cumpram as especificações técnicas, com total garantia e segurança. Ainda assim, toda a atenção é pouca, pois não é incomum a ocorrência de microtoxinas nos ingredientes das rações. Entre as soluções inovadoras adotadas pela Phibro que tornam a produção mais eficiente, Graziani cita o Aviax Plus, insumo de alta qualidade que combate a coccidiose na avicultura, lançado há dez anos e líder de mercado, além do V-Max, aditivo para incremento da produtividade na pecuária.

Entretanto, as exportações aquecidas e o mercado interno amparado pelo Auxílio Emergencial, cedido pelo Governo Federal, têm sustentado a demanda por rações, ainda que a proporção do preço da ração e do frango de corte, por exemplo, tenha uma disparidade grande. “Entre outubro do ano passado e outubro deste ano, em reais, a soja aumentou 81% e o milho,86%, enquanto em dólar, esses insumos subiram 14% e 2,4%, respectivamente. A ração para frangos de corte, por exemplo, teve alta de 92%, enquanto o preço pago pela ave subiu 35%”, explicou. Para o início de 2021, Zani projeta que deva ser um ano desafiador, com a possível retirada do Auxílio Emergencial, alta taxa de desemprego, o que pode reduzir o consumo de carnes, e o esforço da China em recompor os planteis suínos.

Para o gerente de Saúde e Nutrição Animal da Coopercitrus, Fernando de Falco Filho, mão-de-obra qualificada, acesso à tecnologia, capacidade de captação de recursos, infraestrutura, expertise, atualização tecnológica são questões cruciais que devem estar sempre presentes. Para ele, no caso da pecuária, por exemplo, é sempre válido contar com o suporte de empresas que fornecem informações atualizadas sobre questões ligadas à parasitologia e nutrição, ou mesmo, a respeito de dicas de produção. O gerente destaca que uma ‘alimentação adequada e balanceada’ pressupõe o atendimento de alguns elementos no processo produtivo, como níveis adequados de proteína, energia, extrato etéreo, minerais, aditivos, vitaminas e fibras. “Conhecer com o que se trabalha e saber onde se precisa chegar são premissas para atingir um resultado satisfatório. Nesse aspecto, a qualidade de ingredientes, oferta e processamento correto dos alimentos constituem fatores decisivos para o sucesso do processo”.

Sobre a necessidade de a alimentação fornecida contar com uma ‘granulometria correta’, o gerente da Coopercitrus comenta que, “em geral, os animais apresentam sistemas digestórios com particularidades distintas, tanto no processamento físico, quanto no químico dos alimentos ingeridos, com base numa granulometria correta que contribua para uma melhor digestão, absorção, que se reflete, depois, no desempenho do animal”. Ao mesmo tempo, Falco Fº comenta que “alguns contaminantes podem causar os mais variados distúrbios metabólicos, que podem provocar redução drástica do consumo ou até a morte, em alguns casos, reforçando a importância de encontrar fornecedores habilitados e idôneos”.

Ainda sobre o imperativo de que os insumos atendam aos requisitos de segurança alimentar, o gerente cita o planejamento estratégico adequado, provisionamento de mercado, farto acesso ao banco de dados e capacitação plena dos profissionais encarregados nessas tarefas.

Quanto à validade de uma cooperativa precisar contar com as orientações de um zootecnista, para melhor gestão da atividade, o gerente assinala ser mais vantajoso contar com esse profissional em momentos decisivos/pontuais, fazendo com que era visto como despesa para o produtor se transforme em investimentos. Como exemplo de empresas que prestam consultoria com informações de mercado (comercialização, produção), que auxiliam na tomada de decisões, o que pode ser determinante para o êxito dos negócios, Falco Filho aponta a Scot Consultoria e a Stonex, que prezam pela qualidade, origem e retidão das informações.  

No caso de utilização de subprodutos agrícolas (trigo, semente de girassol, melaço, farelo de arroz e bagaço de cana, são exemplos), Falco Filho diz que o maior risco está relacionado à instabilidade físico-química desses alimentos, sobretudo no que tange ao armazenamento e ao teor de umidade. “Esta alteração pode levar ao desenvolvimento de patógenos, por exemplo fungos, nocivos à saúde. Os minerais, por sua vez, são fundamentais em todos os processos biológicos dos animais, pois todas as estruturas corporais são compostas por minerais, que exercem, desde   a função estrutural (composição do esqueleto) até a defesa do organismo, diretamente no sistema imune”.  

Vista pelo representante da Coopercitrus como “opção de negócios ao produtor de grãos”, o gerente entende que a nutrição animal abre espaço para a adoção de sistemas integrados de produção (ILP), que permite conciliar modelos produtivos de agricultura e pecuária, além de proporcionar maior rentabilidade por área produtiva. “É certo dizer que o mercado de nutrição deverá impulsionar, cada vez mais, a produção de grãos, tendência reforçada pela demanda externa aquecida por proteína animal. Sua expectativa é que o crescimento do mercado de nutrição animal este ano atinja em torno de 4,5%, enquanto que para 2021, Falco explica que persistem ‘cenários desafiadores’ que tornam difícil fazer uma previsão mais acurada.


Por Marcello Sigwalt – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 97


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