Estrutura sólida credencia cooperativas à inovação digital em criptoativos

Publicado em: 22 dezembro - 2020

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Rastreável, confiável e inovador. São muitos os termos cunhados pelo mercado para angariar a simpatia do investidor em ativos não convencionais, dotados de maior risco, mas, em contrapartida, potencial superior de rentabilidade e menor custo por transação. Assim é o mundo criptoativo, marcado pelo fácil uso do sistema blockchaine pela segurança de poder identificar, em segundos, a localização de determinada operação, inclusive por parte das autoridades, por conta de uma espécie de livro-razão virtual, pelo qual são registradas todas as transações realizadas, com apoio de softwares e análises forenses capazes de rastrear toda a vida do bitcoin, se preciso.

Ao mesmo tempo, esse mercado também tem se mostrado atrativo para aplicações provisórias de reforço de tesouraria, sobretudo por parte de grandes empresas americanas, que, além de minimizarem os efeitos das oscilações do câmbio e as deflações daquele país, também permite revender o ativo para auferir lucro na operação. Como os Estados Unidos já dispõem de uma legislação mais específica de custódia de criptoativos, esse sistema está mais maduro do que aqui. Daí a importância de se compreender, em maior profundidade, as características, vantagens e riscos de um mercado ainda em transformação.

Sobre a possibilidade de uma disruptura imediata do modelo tradicional, por meio da ‘criptonização’ – este termo, na conta deste autor – do setor cooperativo, o Chief Technology Officer empreendedor (CTO), Courtnay Guimarães é direto: “Tecnologicamente falando, já dispomos desse cenário, pois, se as cooperativas desejarem, podem criar um sistema financeiro paralelo, usando ‘tokens lastreados em moedas reais’, ou StableCoins, como meio de conta corrente, como está pensando fazer o facebook, por  exemplo”, assinala, ao acrescentar que “várias cooperativas no mundo têm projetos similares, cujo maior benefício é reduzir o custo transacional, por operar fora do sistema tradicional”.

Courtnay Guimarães – Chief Technology Officer empreendedor (CTO)

Quanto os nichos potenciais do segmento cooperativo para esse mercado cripto, Guimarães considera a cooperativa “o ambiente perfeito para inovação digital, de maneira geral”. Segundo ele, “as plataformas digitais, que têm o cliente no centro, deveriam ser todas digitalizadas, abrindo espaço para o uso de moedas como alavanca de tesouraria e aproveitar a tecnologia do blockchain para reduzir custo, colocando sistemas de assinatura e de custódia, para cooperativas singulares, federações, etc”. Na sua avaliação, essas medidas ajudam muito a reduzir os custos de auditoria, de operações não-financeiras e de monitoramento das cooperativas agrícolas”. Neste aspecto, o CTO entende como oportunas campanhas de conscientização em torno da natureza desse mercado diferenciado. “Alguma instituição no país poderia criar um grupo de estudo do impacto tecnológico disso nas cooperativas, conhecimento em que o Canadá é o país mais avançado”. Ao se identificar como investidor, atuante nesse mercado desde 2015, Courtnay explica que, enquanto “os grandes bancos, por uma questão de posição, estão fora dele ainda no Brasil, há fundos de investimentos certificados e colocados pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), formalmente dentro do sistema bancário, como BTG, XP, que já distribuem esses fundos”, ao concluir que “não é nada ilegal ou complexo que as cooperativas usem isso”.

No país, de modo geral, ainda são relativamente tímidas as iniciativas, no sentido de, se não popularizar, pelo menos ‘dar maior visibilidade’ ao novo segmento. Um dos poucos exemplos é da cooperativa agroindustrial Frísia, de Carambeí (PR), que no início deste ano registrou três marcas que vão integrar um sistema de pagamentos baseado em criptomoedas. São elas, a ‘Supercampo Coin (unidade de criptomoeda), Supercampo Pay (sistema de pagamento de criptomoeda) e Supercampo Card (cartão recarregável com criptomoedas). Com mais de 90 anos de mercado, a Frísia atua nas áreas de rações, sementes, criação de animais, assistência técnica para agricultura e pecuária, entre outros serviços.

De acordo com o registro do criptoativo, a intenção da companhia “é criar uma moeda para um sistema de pagamento que permita realizar ofertas iniciais de moedas (ICOs), angariar fundos e auxiliar na criação de novos produtos”. O Supercampo Pay, por sua vez, vai possibilitar “transferências de fundos e compra de produtos e serviços oferecidos por terceiros, bem como liberar e conciliar transações por via eletrônica”. Já o Supercampo Card seria responsável pela dinâmica de pagamentos, como a transferência de fundos – provavelmente vinculados aos critptoativos – além de servir de cartão de crédito.

Para melhor aclimatação nesse ambiente virtual, Guimarães explica que o bitcoin é “algo exótico em finanças”, concebido inicialmente como moeda, mas passou a ser visto como ativo, por serem digitais e fracionáveis (muitas casas decimais). Em que pese suas especificidades, o fato é que o volume diário, movimentado por ele, se aproxima hoje dos US$ 20 mil, tendo atingido o maior pico diário deste ano em novembro último, quando movimentou mais de US$ 3 bilhões (mercados à vista e futuro), conforme calculou a Arcane Research, ao projetar uma alta de 270%, se comparado ao movimento de 3 de novembro. A companhia atualmente mede o volume ‘real’ de negociação de bitcoins, com base nos dados da LMAX Digital – uma bolsa de criptomoedas com foco em instituições – e uma cesta de dez outras bolsas consideradas confiáveis. Destaque para a informação de que na CME, maior bolsa de futuros do planeta, o bitcoin está em alta. Tal volatilidade, ao contrário, é a essência da natureza dessa criptomoeda, que pode oferecer, tanto alto risco, quanto elevados rendimentos. Portanto, fica para especialistas a tarefa de prever tendências e movimentações desse mercado.

Contrastando com tal trajetória extremamente volátil, a rede que sustenta o bitcoin e outras consideradas moedas digitais – de forma genérica, pelo público – o blockchain traz em si a marca da confiabilidade e rastreabilidade. Quanto à natureza do bitcoin, Courtnay destaca três aspectos. Primeiro, a tecnologia, que ele considera ‘extremamente confiável’, depois a rede de serviços, baseada nessa tecnologia (sob a forma de códigos), para a qual acrescenta ‘um elemento de poder novo’, como validadores de transações (mineradores) e provedores de identidades (wallets), sejam estes hardwares específicos ou programas, isso sem contar com o ativo bitcoin em si, hoje comercializado em quase 35 mil exchanges de critptoativos em todo o mundo.

“São quase US$ 20 bilhões movimentados por dia nos últimos seis meses, período no qual apresentou uma volatilidade extrema e movimentos imprevisíveis nos curto e médio prazos, o que, para todos os fins, faz dele um ativo considerado de altíssimo risco”, revela. No bojo do mistério da impenetrabilidade da rede blockchain, Courtnay explica que sua segurança é baseada “em mecanismos de criptografia, teoria dos jogos e mecanismos de design de mercados (incentivos), fazendo com que ela nunca tenha sofrido um ataque até hoje”.

Menor desconfiança – Um grau menor de desconfiança das pessoas em relação à tecnologia, caso o blockchain seja adotado por bancos e cooperativas, na visão do CEO da Transfero, Thiago César, para quem “as mudanças, embora sempre graduais, não representam o fim dos bancos, a despeito de alguns radicalismos”. A reboque das grandes instituições financeiras, as cooperativas vão absorver parte dessa tecnologia e “as coisas vão continuar existindo, como sempre existiram, mas feitas de formas, talvez, diferentes”, acrescentou.

Thiago César – CEO da Transfero

Se dispusesse de uma cooperativa de crédito, César optaria pelo desenvolvimento de um ‘contrato inteligente’, disponibilizando “uma equipe de TI para criar um smart contract na rede Ethereum, por exemplo, seguida da captação de fundos internacionais, o que “permitiria aos detentores de bitcoins e dólares digitais depositar seus ativos junto ao contrato da cooperativa”. Dentro de seu entendimento, o smart contract, por usar blockchain, constitui “fonte extra de capital para as cooperativas”. Ele acrescenta a sugestão de que a cooperativa atrele seu nome ao contrato, o que deve atrair aqueles que confiam na instituição. ““As pessoas que têm ativos digitais vão poder depositar e receber uma remuneração compatível com o mercado de ativos digitais. Além de ser um capital a mais para se usar na atividade fim da instituição”, arremata.

Além de campanhas ocasionais, o CEO da Transfero entende que a maior participação de instituições financeiras de grande porte nesse mercado seria muito oportuna, para chamar a atenção do público, acostumado com o trato tradicional e cotidiano nas agências bancárias. “O caminho mais natural e mais fácil é as instituições tradicionais ‘mergulharem’ nesse mundo e começarem a criar produtos em cima dessa tecnologia, com a entrada de ‘players mais pesados’ nesse mercado, para juntar dois mundos”, comentou, ao dar como exemplo o criador de um dos maiores contratos inteligentes, um programador do Leste Europeu, que “já arrecadou mais de US$ 20 bilhões e não pertencia ao mundo financeiro”.

Pirâmide financeira – Também há o caso recente, ocorrido no ano passado, envolvendo a empresa Unick Forex, investigada pela Polícia Federal e MP por ‘pirâmide financeira’, ao movimentar milhões de reais com o uso da cooperativa de crédito Coopesa – vinculada ao Banco do Brasil (BB) – para transformá-la no banco digital (OurBank) do grupo Unick, já com autorização da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para operar, segundo publicou o site Portal do Bitcoin. De acordo com as investigações, a conta da cooperativa era usada na aquisição de empresas para lavagem de dinheiro, numa média de 40 mil saques por dia. O que os infratores não contavam é que o BB bloqueou a entrada de valores na conta, quando os aportes de investidores chegaram à casa dos R$ 25 milhões. Somente no período de janeiro de 2017 e dezembro de 2018, a movimentação superou R$ 78 milhões, a crédito, e quase o mesmo valor, a débito.

‘Humanizar finanças’ – Outra aposta, desta vez, com lisura até aqui, é a criação da Coopetch 2019, criptomoeda criada pela Moeda Seeds, empresa financeira baseada em blockchain cuja proposta “é promover mudanças na economia global por meio de suporte a cooperativas”, além de ter como missão “humanizar as finanças e distribuir impacto, por meio da facilitação do acesso a financiamento e apoio técnico ao negócio”. Com a ideia de viabilizar recursos ao desenvolvimento de milhares de comunidades vulneráveis, não apenas no Brasil, mas no resto do mundo, a Moeda Seeds (ou semente, para a maioria), foi concebida, em 2017, pela fundadora, CEO, engenheira de software e ‘autointitulada autodidata’, Taynaah Reis, a partir de um hackathons em blockchain, “devido à necessidade de tornar iniciativas de impacto confiáveis aos investidores”. Apresentada, naquele mesmo ano, na Assembleia Geral das Nações Unidas, a Moeda Seeds contém projetos alinhados aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.   

Fundadora da Moeda Seeds – Taynaah Reis

A inovação, de acordo com Taynaah, na verdade, constitui um ‘ecossistema voltado à inclusão e à igualdade de gênero’, juntamente com outras oito empresas, que atuam como fintechs na inclusão financeira, como aceleradora de programas de crédito orientados, além de marketplace, Exchange para serviços com moedas tradicionais e criptomoedas e fundo de impacto. Nesse viés, a empresa, acrescenta a fundadora, tem sua atuação voltada à criação de oportunidades, por meio de programas de nano-microcrédito orientado, aceleração e marketplace, ‘sempre incentivando práticas sustentáveis de longo prazo em cooperativas e foco no desenvolvimento das comunidades. O entendimento da executiva é de que, “por meio da tecnologia blockchain, é possível eliminar barreiras à alocação de recursos para Fomento ao Desenvolvimento Sustentável, o que se torna viável quando a Moedas Seeds oferece garantias ao investidor que facilitam o acesso ao crédito, com base em taxas mais acessíveis. Nesse aspecto, a Moeda Seeds elenca as principais barreiras removidas por sua atuação:

  • Acesso insuficiente ao capital.
  • Parcialidade nos investimentos.
  • Falta de orientação.
  • Dificuldade de comercialização e divulgação de produtos e serviços.

Plano de negócio – A executiva explica que, sem a orientação adequada e o acompanhamento no desenvolvimento da ideia inicial, aumentam ‘consideravelmente’ os riscos socioeconômicos, além de dificultar a tomada de decisões. Em consequência, fica mais difícil a comercialização e divulgação dos produtos e serviços da companhia. Na visão oposta, Taynaah argumenta que “nosso ecossistema incentiva a responsabilidade creditícia, social e ambiental cooperativas, em que ”os tomadores de recursos podem ser beneficiados por seu bom comportamento com pontos de lealdade”. Segundo ela, com a modalidade de “aval solidário” o participante “pode construir uma reputação creditícia de forma mais eficaz, que facilita o acesso personalizado aos programas de Crédito Moeda Semente”.

Ao mesmo tempo, a Moeda Seeds mantém programas de nano e microcrédito, que viabilizam empréstimos viabilizados com valores mínimos de R$ 20,00 e taxas iniciais acessíveis de 2,5% para Pessoas Físicas e Jurídicas. Alguns programas especiais junto a parceiros, por sua vez, podem envolver o provimento de crédito de até R$ 300 mil, com o financiamento correspondente baseado em objetivos, viabilidade de execução e em um sólido plano de negócios. “O cooperativismo une pessoas. Capital e a tecnologia juntos incrementam a união de forças, que dá origem a benefícios distribuídos a todos os colaboradores associados. O fato é que o cooperativismo cibernético já teve início. Cabe apenas transformar os novos empreendedores em cooperativistas (em especial, os jovens), melhorando a qualidade de suas relações com associados, colaboradores e com a sociedade, tendo em vista os princípios do Cooperativismo”, finalizou Taynaah.


Marcello Sigwalt – Redação MundoCoop


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