Inovação Aberta: o próximo nível do compartilhamento de ideias

Publicado em: 13 outubro - 2021

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Vivemos o período das Olimpíadas, e o sentimento de competição esteve mais alto do que nunca. Competir em busca de algo sempre esteve presente na história. Nos anos 60, EUA e URSS competiram entre si para colocar o primeiro homem na Lua. Recentemente, até mesmo a corrida pela vacina tornou-se uma competição. Nestes dois últimos casos, os conhecimentos envolvidos no processo foram amplamente guardados. A sete chaves.

Com tanta competição, você consegue imaginar um cenário onde o compartilhamento de ideias fosse encorajado? E se o contexto em questão fosse uma empresa? Pode parecer impossível, mas hoje um novo modelo de negócio já se pauta na divisão de recursos e conhecimentos. E a competição, que menciono logo no início, deu lugar ao desejo por encontrar novas soluções e ideias…independente dos meios para isso.

Esse novo modelo recebe o nome de Inovação Aberta. Para a grande maioria, este é um conceito novo. Mas para as cooperativas, que possuem o trabalho coletivo em seu DNA, este é apenas um novo nome para um processo antigo.

Uma nova forma de negócio

Se você se encaixa no grupo que vê a inovação aberta como um novo conceito, uma pergunta deve estar se formando em sua mente neste momento: mas afinal, o que isso significa? Criado por Henry Chesbrough em 2003, o conceito de Inovação Aberta – ou Open Innovation, no original – descreve a colaboração entre empresas para a busca de novos conhecimentos. Para Thammy Marcato, diretora de Ecossistema e Inovação da KMPG, essa explicação – apesar de aparentar ser simples – não resume totalmente a magnitude da IA.

“Inovação aberta é um conceito bem amplo, e por isso, não é binário para o mercado. Na minha visão, inovação aberta é inovar utilizando de todos os elementos disponíveis, proprietários ou não, a fim de se gerar um novo valor de mercado”, afirma. Assim, podemos entender que o conceito de inovação aberta leva a inovação e a colaboração para os mais diversos setores, utilizando-se da coletividade para alcançar os objetivos esperados.

Em um mundo cada vez mais focado no coletivo, nos deparamos com diversas situações que mostram um cenário ideal para a implementação deste novo conceito. Afinal, estamos falando de uma sociedade que compartilha transporte e espaços de trabalho, através de iniciativas de hubs e startups focadas nesta nova forma de convivência que se desdobra a cada dia. E é no trabalho conjunto, que os insights necessários são encontrados.

Apesar de parecer algo fácil, alguns lugares ainda mantém uma forma tradicional de enxergar as coisas. Valorizar o compartilhamento de ideias acima da competição pode ser algo difícil, em um mundo que dá prêmios para quem chega na frente. Neste caminho, estamos falando não só de novas formas de trabalho, mas também de novas formas de entender o mundo. E para isso, é necessária uma ruptura, deixando o medo do “novo” para trás.

Thammy Marcato, diretora de Ecossistema e Inovação da KMPG


“Ter a capacidade de reduzir as incertezas inserindo pessoas com a capacidade de endereçá-las é a chave para a aceleração do aprendizado contínuo” – Thammy Marcato, diretora de Ecossistema e Inovação da KMPG

“Inovar é fazer o novo. Parece redundante, mas muitas empresas se esquecem disto. Porque fazer o novo significa caminhar no desconhecido, e por causa disso, tem alta probabilidade de as coisas não saírem conforme esperado”, afirma Marcato. Diante das incertezas, a inovação aberta se apresenta como uma rede de segurança, à medida que traz as condições necessárias para diminuir os riscos envolvidos. “A composição de competências e visões diversas permite que este desconhecido seja “desbravado” de maneira mais eficaz. Ter a capacidade de reduzir as incertezas inserindo pessoas com a capacidade de endereça-las é a chave para a aceleração do aprendizado contínuo”, ressalta.

A partir do momento em que o medo do desconhecido é deixado para trás, a sociedade desbloqueia as capacidades necessárias para implementar um novo modo de pensar. Afinal, temos hoje todas as tecnologias necessárias para o compartilhamento de conhecimentos, processos, ferramentas e outros. Neste cenário, qualquer empresa pode se arriscar nesse admirável mundo novo.

Cooperativismo e startups

Desde que surgiram no mercado, as startups possuem como objetivo, seguir um caminho avesso ao dos modelos já enraizados. Com soluções de todos os tipos, esses hubs logo se multiplicaram, e hoje impactam todos os setores da sociedade. Ao lado das startups, as cooperativas também seguem como buscadoras de soluções para o mundo moderno. O que poderia ser uma competição entre os dois lados, tem se provado uma potência de inovação.

Atualmente, startups e as cooperativas tem trabalhado juntas em busca da modernização de processos e aplicação de novas ideias. Através do compartilhamento de conhecimentos, cerne da inovação aberta, as coops tem vivenciado um salto de desenvolvimento. Para Fábio Solano, analista de Estratégia e Inovação da Frísia, esse processo é resultado direto dos processos de colaboração desenvolvidos pelas cooperativas.

“Com a colaboração somos mais inovadores, pois conseguimos reunir o maior número de cenários e respostas em apenas um local. Por que apostar em apenas um movimento se em grupo geramos maior resultado? As experiências e as ideias dos indivíduos quando compartilhadas com o grupo são otimizadas, elevando a capacidade produtiva. Só o fato de se discutir uma solução, mesmo que demore para ser colocada em prática, é importante, pois se trabalha para evitar o desperdício de recursos financeiros, humanos e ambientais”, ele afirma.

Fábio Solano, analista de Estratégia e Inovação da Frísia

Neste cenário pandêmico, as parcerias entre cooperativas e startups tem se mostrado de vital importância. Na busca pelas ferramentas necessárias, tais colaborações tem sido o fator chave para o enfrentamento da crise. Paula Cardozo, coordenadora do Laboratório de Inovação da Central Ailos, ressalta a importância deste fenômeno. “A conexão com instituições e organizações externas fortalece ainda mais a colaboração, seja na construção de projetos e iniciativas em conjunto ou mesmo na troca de conhecimento. Por meio da conexão com startups, por exemplo, em vez de construirmos sozinhos soluções dentro de casa, ganhamos tempo e expertise de mercado, podendo nos conectar com uma solução plug and play, experimentar e adquirir o que precisamos para construir excelentes parcerias”, ela conta.

Para Cardozo, tal contato com instituições fora do sistema cooperativo é um passo indispensável na busca por novos insights, podendo inclusive levar à observação dos processos internos com um outro olhar. “A inovação não se faz sem aprendizado e troca de conhecimento. O contato com outras instituições nos auxilia a olhar para nossos problemas de outra maneira, buscando soluções diferenciadas daquelas tradicionalmente desenhadas e projetadas”, conclui.

Através do contato com o mundo externo, a inovação aberta não só promove uma troca necessária de habilidades e competências, como ainda pode ajudar na busca por novos processos e áreas de atuação. Ao conectar-se com diversos players, um mundo de possibilidades se abre.

Em busca de oportunidades

Antenadas com as tendências do mercado, hoje as cooperativas já possuem diversos programas de inovação aberta. Com cases que já apresentam resultados, as coops estão atingindo novos horizontes, e oferecendo ainda mais conforto e serviços para milhares de cooperados.

Lançada no início de 2020, a Digital Agro Connection já conectou seis agtechs à Frísia Cooperativa Agroindustrial. O programa, que já está iniciando um novo ciclo neste ano, busca soluções nos mais diversos aspectos. “A plataforma Digital Agro é um sistema inovador composto por quatro marcas interligadas tecnologicamente, atuando nas áreas de evento, startups, notícias e ideias. O objetivo é gerar uma conexão de soluções tecnológicas com desafios práticos do campo e das indústrias”, nos conta Solano.

Paula Cardozo, coordenadora do Laboratório de Inovação da Central Ailos

Outro case já em prática no mercado é a InPulse, criada pelo Sistema Ailos. A plataforma, que conecta startups à cooperativa, já rendeu diversas parcerias. Entre elas, uma focada na assistência a produtores e vendedores. “Um case de grande relevância é o marketplace Ailos Aproxima, em parceria com a startup Hallo, e que possibilitou a conexão de cooperados através de uma plataforma digital, gerando negócios e fortalecendo os empreendedores locais”, nos conta Paula Cardozo. A plataforma, que iniciou suas operações recentemente, já conta com mais de três mil vendedores e oito mil anúncios ativos.

Seja em busca de soluções para o ambiente interno, ou para melhorar e facilitar a vida das comunidades onde as cooperativas estão inseridas, a inovação aberta já um processo presente no dia a dia do movimento cooperativo. Se antes já vivessem no DNA esse lado coletivo, hoje a IA representa uma evolução dessas parcerias, focadas em soluções digitais e de olho nos próximos passos para as cooperativas e para o movimento como um todo.

Rumo ao futuro

Quando se busca soluções inovadoras e revolucionárias, muitas vezes acabamos com o sentimento de que não há mais nada a ser feito. No mundo das soluções digitais, pode até parecer que atingimos nosso potencial máximo. Mas este é um pensamento individual. O próximo passo é levar o lado colaborativo para um novo patamar. Seja através da implementação de um forte programa de inovação aberta, ou a simples troca de conhecimentos por uma mensagem informal, o processo coletivo se mostra a essência do futuro.

Indo além deste período de incertezas, onde o coletivo ficou de lado, e o isolamento foi protagonista, a sociedade naturalmente voltará a pensar como uma só. Ou melhor dizendo: pessoas se unirão em busca das soluções que precisamos. É com colaboração e cooperação que vamos atingir o nosso potencial máximo. Seja através da inovação aberta, ou não.

ETAPAS DA INOVAÇÃO


Por Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 101



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